sexta-feira, 19 de junho de 2009

"Da esquerda à direita"... mas da direita

Vinte e oito economistas assinaram um manifesto onde apelam ao governo que reavalie os grandes investimentos públicos e que faça um travão imediato nos projectos da área de transportes, nomeadamente no do TGV. O Público dá-lhe grande destaque e diz repetidamente que são "de todos os quadrantes políticos", "oriundos da esquerda e da direita do espectro político". Li os nomes e não vi ninguém de esquerda. Nitidamente, a direita está a organizar-se para as eleições que se avizinham. E conta com dois trunfos importantes: uma imprensa que notoriamente controla, que metodicamente promove as suas – da direita – individualidades para depois, como agora, aparecerem no momento certo com as suas opiniões mais consensuais e independentes; e o disparate que constitui a estratégia de grandes obras públicas defendida pelo Governo. Aparentemente, o PSD e o CDS têm o mérito de não estarem de acordo com a construção de mais obras faraónicas. Muito bem. Genericamente, eu também. O pior é todo o resto em que, ou equivalem, ou são ainda mais radicais do que o PS: privatização de serviços públicos, flexibilização laboral, protecção dos monopólios, tributação proporcional, clientelas, negociatas, rendas, etc, etc, etc. E quanto a obras faraónicas, os dois partidos não têm um passado que permita excluir o argumento de que a motivação da sua discordância não seja a de não serem eles os seus promotores, mas sabem que contam com o esquecimento colectivo de que foi o Governo de Durão Barroso a dar luz verde ao projecto original do TGV.

6 comentários:

Carlos Machado disse...

Luís Campos e Cunha foi Ministro de Estado e Ministro das Finanças do Governo de José Sócrates (2005), Daniel Bessa foi ministro da Economia do Governo de António Guterres (1995-96), Augusto Mateus foi Ministro da Economia do mesmo Governo (1996-97)... é certo que é cada vez mais difícil dizer-se que o PS é um partido de esquerda, mas dizer que todas estas figuras são gente de direita... francamente. Parece-me, no mínimo, tão demagógico como a acusação feita ao Público de controlar e promover a direita. Um pouco de bom senso, por favor.

Filipe Tourais disse...

A esquerda, tal como eu a conheço, não é escrava dos dogmas de mercado. Os nomes que indica pertencem todos ao pensamento neoliberal.

Quanto ao Público, se não reparou, difundiu esta notícia durante a tarde de ontem colocando-a como a primeira que aparecia na edição online, depois destacou outras notícias, para hoje voltar a dar-lhe novamente destaque de topo. Nunca antes tinha visto acontecer nada assim. E é precisamente a mesmíssima notícia. Basta olhar para os links dos blogs e ver há quanto tempo foram feitos.

Luis Melo disse...

A notícia de que a decisão final sobre o TGV ficaria para o próximo governo, foi a medida mais inteligente que tomou este governo (a seguir à substituição de Correia de Campos). Ainda assim, peca por tardia e por apenas ter sido tomada em consequência dos resultados eleitorais, o que prova que não foi por sensatez, mas por taticismo eleitoral.

De qualquer forma, é preciso mesmo saber se os compromissos até agora tomados, não implicam grandes indeminizações, caso o projecto seja abandonado. Já aconteceu o mesmo recentemente com outras obras que foram abortadas.

Também a propósito do TGV, ao contrário de alguns notáveis, não sou a favor da suspensão do projecto. Sou totalmente contra a sua realização. Só pode pensar em TGV quem, das duas uma: ou nunca andou nem sabe o que é o Alfa Pendular, ou vai beneficiar (financeiramente) com a realização desta grande obra.

Já agora, e por causa desta certeza em Abril 2009, o Ministro Mário Lino leva mais 3 pontos para a Superliga "incompetente-mor"

Filipe Tourais disse...

Já eu sou da opinião que a ligação a Madrid é importantíssima e que, se não fossem os interesses que há que satisfazer, deveria ser complementada com a exploraçãod a ligação pendular entre Porto-Lisboa-Faro e com melhorias nas linhas que fazem a ligação entre o litoral e o interior.

Hugo Fonseca disse...

O dinheiro que se gastou na actual linha Porto - Lisboa nos ultimos 20 anos, e que não oferece um serviço decente, sempre com acelerações e desacelerações, já tinha pago uma linha novinha para serviço pendular entre Lisboa e Porto.

Mais um exemplo que vivemos no país das decisões para ontem.

O TGV só é interessante se não obrigar a mudar de comboio na fronteira e na ligação a Madrid, ainda pode ser mais interessante na ligação de Sines - Madrid e viabilizar o porto de Sines como o porto principal da Europa, pois essa ligação é viável financeiramente (ao contrário dos passageiros que são uma solução para o futuro).

Lisboa - Porto só seria viável numa ligação sem paragens, se for para a transformar no suburbano com paragens em 5 ou 6 estações, o ganho de tempo entre um TGV e um pendular são 20 minutos, com um custo de investimento mais de duplicado.

Em relação à triste figura que o PS/primeiro ministro obrigou o ministro Mário Lino a fazer, os tempos de ficar ou não ficar para a próxima legislatura, encaixa nos calendários previstos para os passos na contratação pública, pelo que não é uma noticia, é o normal decorrer do processo, que como dito acima inda pode ser virado para cima, para baixo ou para outro lado qualquer.

O que ainda ninguem disse é que Espanha tem mais de 1000 km a funcionar de alta velocidade, Portugal tem zero, e Portugal anda há mais de 25 anos a gastar dinheiro a estudar soluções de alta velocidade, começámos a estudar antes dos espanhóis e eles já estudaram, já fizeram e nós ainda estudamos. Se fossemos ver as contas da CP, REFER, RAVE e das empresas de projecto que há 25 anos desenvolvem trabalho neste tema ficariamos horrorizados e ainda não estamos perto de ter 1 metro de alta velocidade.

Onde estão os responsáveis? quando é que uma função politica vai presa por gestão danosa, tal como se arriscam os gestores privados a ir.

Bertol disse...

Dizer "...mas sabem que contam com o esquecimento colectivo de que foi o Governo de Durão Barroso a dar luz verde ao projecto original do TGV" não tem em conta que também foi Durão Barroso a afirmar que não haveria TGV enquanto houvesse listas de espera nos hospitais. Mais cuidado com a análise dos factos e enquadramento não ficava mal.