domingo, 12 de outubro de 2008

Para quem ainda não entendeu esta crise: o sub-prime do Alto de Campolide


I - Antes da crise

A Loja dos Ditos é um gourmet que fica na Rua Padre António Vieira, nº 9 E, ali mesmo a chegar ao Alto de Campolide, em Lisboa. Era uma zona residencial com bom poder de compra e, para além do mais, com bastantes serviços. Naturalmente, a loja vendia bem. Vinhos, aguardentes velhas, chocolates, trufas, doces, chás, bolachinhas, tudo produtos de excelente qualidade e difíceis de encontrar noutro lado. Não havia mãos a medir.

II - A crise a chegar ao Alto de Campolide

Entretanto, o cenário alterou-se. Com a reforma da Função Pública do Governo Sócrates, muitos dos clientes que trabalhavam no Ministério da Agricultura, que fica mesmo ali ao lado, foram enviados para casa em “mobilidade especial” e deixaram de aparecer na zona. Outros, os que ficaram, inseguros quanto ao seu futuro e com o poder de compra a ser comido pela subida da prestação da casa e pela lei marcial que foi aplicada pelo mesmo Governo à progressão nas suas carreiras e à actualização dos seus salários, deixaram de poder aparecer na loja. E, outros ainda, muitos dos habitantes da zona perderam os seus empregos, fruto da combinação das consequências das políticas de um Governo obcecado com um défice orçamental sobre as vendas das empresas onde trabalhavam com as da obsessão de um Banco central europeu que, ao fazer subir os juros, tornou proibitivo qualquer endividamento com vista a compensar essa quebra e manter as empresas e os postos de trabalho.

III - A crise veio para ficar

Que fazer, então, agora que a loja tinha deixado de vender? A Dona Lurdinhas, uma das donas da loja, decidiu comprar um caderninho onde apontaria as vendas que fizesse a crédito aos leais fregueses, indo assim ao encontro de várias sugestões de alguns deles menos interessados em deixar de consumir tudo aquilo que a vizinhança notaria. Que vergonha, agora não podiam. O que iriam dizer os vizinhos?

IV - O regresso aos dias do “queres fiado, toma lá”

A Dona Lurdinhas voltou, assim, a vender. Subiu os preços no correspondente ao prémio de risco das cobranças que nunca viria a fazer e anotava todo esse crédito sub-prime de Campolide no caderninho rosa fúchsia, a cor da loja.

V - O Sub-prime chega ao Alto de Campolide

Num dos dias seguintes, quando verificou que o stock estava a terminar e não tinha dinheiro em caixa para nova mercadoria, farta de suprir essas falhas à custa da fortuna pessoal, queixou-se das suas dificuldades de tesouraria ao Sr. Anacleto, intrépido gerente bancário da zona. Este, que estava ao corrente das práticas mais modernas de boa gestão de títulos negociáveis, quando soube do caderninho dos créditos, não hesitou em valorizá-lo como um activo passível de ser convertível em dinheiro e, para satisfação da loira comerciante, começou imediatamente a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo como garantia os activos do caderninho.

VI - O Sub-prime do Alto de Campolide internacionaliza-se

Um par de semanas mais tarde, quando os executivos do banco se deram conta da operação, decidem de imediato juntá-los a outros “recebíveis” da instituição e transformá-los em PPS (Plano poupança segura), PVFRSTTS (Plano vais ficar rico sem tirar o traseiro do sofá), EGBSAPN (És um grande burro se acreditas no pai natal) e em outros acrónimos financeiros do género que os clientes compram sem nunca se preocuparem em saber o que significam. Os novos títulos, vendidos a um preço inflacionado por um prémio de risco enorme, animam o mercado
BM&F de “derivativos não padronizáveis” e outros que tais e fazem subir a cotação do banco que os conseguiu vender com bastante êxito nos mercados de 84 países como se se tratassem de títulos com inquestionáveis garantias reais e sem que ninguém se tenha preocupado em saber a sua origem: o caderninho rosa.

VII - A “bolha” rebenta no Alto de Campolide

Até que, um dia, o Sr. Anacleto descobre que a clientela da Dona Lurdinhas é uma cambada de tesos bem vestidos e decide deixar de aceitar como válidos os créditos do caderninho rosa fúchsia. A Loja dos Ditos vai à falência, outros Anacletos fazem outras lojas dos ditos irem à falência, e a penúria que se passeia pelo Alto de Campolide e por muitos outros bairros de todo o mundo faz quebrar toda a cadeia. Bum! É a crise.

VIII - Questões pertinentes

1. Políticas erradas conduziram ao aumento do desemprego, à diminuição do poder de compra dos cidadãos e a um aumento da insegurança quanto ao seu futuro e, por sua vez, todos estes factores combinados conduziram a uma quebra no consumo. Nesta crise há responsabilidades políticas do actual Governo que não podem ser descartadas.

2. Só depois a crise se estendeu ao sector financeiro que, tal como os cidadãos, que quiseram manter os seus padrões de consumo, e o Governo, que não abdicou de manter as extravagâncias da nação, quis também manter o aumento do seu volume de vendas e o ritmo de valorização das suas cotações em bolsa, vendendo a crise em pacotes de títulos sem qualquer valor, ou melhor, com o valor altíssimo dos prémios de risco imensos, dos quais ainda retiraram proveitos.

3. O Sr. Anacleto do banco vai notar os efeitos das políticas de injecção de liquidez que estão a ser seguidas a nível mundial para restabelecera "confiança dos mercados". Os clientes da Loja dos Ditos vão continuar na penúria e com a confiança em forte baixa. O que está a ser feito, regar as nuvens, rezar e esperar que chova, só por si, não servirá de nada. Há também que regar directamente a terra, inverter a tendência de regressão social de perda de poder aquisitivo e de direitos sociais que se sacrificaram em nome dos lucros das grandes empresas e de uma falsa modernidade que só obteve sucesso no aumento das desigualdades e da concentração de riqueza.

4. Podem visitar a Loja dos Ditos e deliciarem-se com tudo o que por lá se vende. A morada vem no início do post, a loja existe mesmo, só que não vende a crédito, evidentemente, nem tão pouco os preços foram aumentados. É um excelente local para adquirir prendas originais ao alcance de todas as bolsas. Vale bem o passeio.

2 comentários:

rubicão disse...

O que falhou no actual no sistema financeiro foi o facto de terem andado a brincar com o risco e até mesmo ignorá-lo.
Todos os gestores estavam convictos que o sistema financeiro regenerava-se, e esta crise veio mostrar o enfarte do miocárdio.
Um abraço.

Guloso disse...

Muito bem apanhado! Uma excelente forma de retratar a crise e ao mesmo tempo fazer publicidade. Parabéns.