Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Democracia para fora


«O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, afirmou, esta segunda-feira, que a desistência do dirigente da oposição no Zimbabué, Morgan Tsvangirai, da corrida à segunda volta das presidenciais "é mais do que justificada". 'Temos de trabalhar no âmbito da ONU, da UE e de organizações regionais para garantir que o processo político se venha a normalizar', afirmou Luís Amado, em declarações à margem da conferência 'Portugal, União Europeia e Estados Unidos - Novas Perspectivas num contexto de Globalização', que decorre em Lisboa.» (CM)

Sinceramente, não estou bem a ver com que crédito e com que autoridade Luís Amado ou a União Europeia intervirão neste processo. Por duas razões principais: a primeira, pela recepção que lhe deram em Dezembro passado em Portugal. Já nessa altura era conhecida a faceta de ditador assassino de Robert Mugabe. A UE ignorou-a, assumiu o encontro como normal e recebeu-o como amigo ou, pelo menos, como parceiro. Sendo Robert Mugabe o mesmo de então, não se entende muito bem o que mudou para que a UE ofereça uma ajuda que, aliás, não lhe foi pedida por ninguém.

A segunda prende-se com o desrespeito sistemático pelo resultado de eleições que a UE tem mostrado nos últimos tempos, nomeadamente as reacções deploráveis a resultados adversos na aprovação de um tratado que as elites querem mas que os cidadãos não querem. Primeiro, as rejeições da França e da Holanda ao Tratado Constitucional, em 2005, e a reacção ardilosa das alterações mínimas que se lhe introduziram para ser apresentado em 2007 como Tratado de Lisboa, com a garantia de sua ratificação pela via parlamentar em 26 Estados-membro, longe das urnas e dos cidadãos. No único em que houve referendo, na Irlanda, em 12 de Junho último, ganhou novamente o não e, de novo, assistimos ao espectáculo deplorável de ver toda uma classe política a propor soluções de sentido contrário ao que foi expresso pelos irlandeses. Neste momento, a UE está muito longe de estar em condições de dar lições de democracia seja a quem for, muito menos a amigos.

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