Com o estalar do escândalo, a que muito poucos chamam escândalo, dos ilícitos no BCP e com o que se passou a seguir ficaram a nu várias questões que sugerem outras tantas cortinas de silêncios, agora menos opacas.
A primeira será a de saber onde andavam Vítor Constâncio e Teixeira dos Santos e porque não actuaram. Tanto o Banco de Portugal como a CMVM foram informados das operações em questão e arquivaram-nas. Ou por conveniência de serviço – chamemos-lhe apenas assim – ou por mera incompetência, o que não é melhor.
Mas não só. Também com o caso BCP a questão da instrumentalização do Estado pelos partidos conheceu uma nova era. Assim que se soube que ia ficar sem administração, o feudo CGD foi reclamado publicamente pelo líder laranja, justificando-se com uma tradição iniciada pouco depois da revolução, em que a CGD entra como prémio de consolação para a colocação dos militantes daquele partido, PS ou PSD, que, ao não ganhar as eleições, fiquem desempregados. Não é novidade nenhuma. Contudo, é a primeira vez que o líder de um dos dois partidos que se têm alternado no poder e que mais reclamam eficiência e redução do peso do Estado admite, despudoradamente, que o mesmo Estado tem sido dividido entre e para utilização alternada dos dois partidos, ao sabor das marés eleitorais. Logo, porque é ilógico admitir uma mudança na lógica de actuação de ambos os partidos, que têm militantes aos magotes para colocar, também será de todo ilógico admitir que uma qualquer reforma do sector público, feita por qualquer um dos dois, se faça perdendo de vista esse objectivo primeiro.
Finalmente, e porque este já vai longo, a questão da divisão territorial entre PS e PSD dos dois maiores bancos portugueses, o maior banco de capitais públicos para o PSD e o maior banco privado para o PS. Uma divisão que sugere outro acordo tácito, desta feita quanto ao regime fiscal mais favorável que é actualmente aplicado ao nosso “sector mais competitivo”. Nosso, obviamente, é força de expressão. Tal como mais competitivo, é fácil ser competitivo com uma taxa de IRC apenas um pouco superior a metade da que é aplicável à restante economia deste país de quintinhas.