quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O especialista

Miguel Sousa Tavares tem sempre as opiniões mais assertivas. Porém, nem sempre as mais acertadas. Há bocado, quando fazia um zapping e passava pelo jornal da TVI, tropecei em mais uma daquelas à MST, ditas com a boca cheia. Ou melhor, duas de uma só vez. Dizia, usando aquele tom de voz grave de quem conhece toda a verdade, que o facto de termos um défice abaixo dos 3% era ainda uma situação longe do ideal de défice zero, por significar que ainda consumimos mais do que produzimos.
Primeiro, e quanto ao défice zero, apesar de fervilhar como ideal nos imaginários de muitos, está longe de sê-lo, ideal: basta olhar para a História da Europa e verificar que os períodos de maior crescimento económico e maiores aumentos do nível de bem-estar das populações europeias coincidem precisamente com períodos onde se verificaram défices enormes. Exemplo disso é o período de implementação do plano Marshall na Europa do pós-guerra. Depois, e referindo-me já à segunda calinada do nosso Miguel, este défice de que falo, o mesmo dos 3% da obsessão de José Sócrates, nada tem que ver com a diferença entre o que produzimos e o que consumimos. Não. Isso será o défice externo, numa abordagem simplificada. O défice em causa é o défice orçamental, que mede a diferença entre receitas (impostos, taxas, etc.) e despesas (Gastos do Estado mais subsídios concedidos), diferença que, por sua vez, é relacionada com o PIB (produto interno bruto). Ou seja, não basta fazer cara de mau para ser comentador económico no jornal da noite de uma televisão. Há que estudar um bocadito. Pelo menos um bocadito. É essa a diferença entre enriquecer a informação com um comentário e entreter com meia dúzia de larachas ditas por um especialista em generalidades que é conhecido pela sua exigência. Relativamente aos outros, bem entendido.

Da luta contra os poderosos interesses corporativos

Nova lei vai limitar indemnizações nos danos físicos e morais às vítimas de acidentes de viação. Para evitar que se enriqueça à custa das seguradoras, lê-se no corpo da notícia do Correio da Manhã. Para evitar que as seguradoras não deixem de enriquecer e para clarificar em nome do interesse de quem se legisla em Portugal, lê-se aqui. As seguradoras não votam, mas não será por isso que deixam de estar bem representadas. Já quanto a quem vota, a notícia é merecedora de uma análise semelhante, conducente à melhor escolha quando, de novo, tiverem oportunidade de eleger os representantes dos seus interesses.

(Mais) Um conto de Natal

Olhava para cima. Não que fitasse o firmamento em busca de uma boa estrela que lhe guiasse os passos. Não. Os passos já haviam sido dados. Era sobre eles que falava, olhando para cima, qual menino a dar largas a um ano imaginado e repleto de boas acções, num esforço dispendido para estimular a generosidade do Pai Natal. Também não. Os meninos são comedidos no seu exagero, porque nenhum menino acredita que o Pai Natal seja parvo e porque todos sabem que se o Pai Natal topar que o estão a papar por totó até se pode zangar e trazer menos prendinhas. Mas também não foi nada disso, José Sócrates há muito que não é menino. O teleponto é que foi colocado lá muito em cima, ao lado do retrato do país das maravilhas que foi desbobinando na sua mensagem de Natal. Os portugueses assistiram de longe, cá de baixo, a mais uma encenação patética de um Pai Natal imberbe e pós-moderno que, outra vez, lhes encheu com palavras ocas os sapatinhos vazios, já pequenos para tantas promessas. Para o ano há mais. O Natal é sempre tão bom.

Diálogo de 26 de Dezembro

– Então, o Natal foi bom?
– Foi, passou-se.
– Está frio.
– Pois está.

Este nosso cheirinho a alecrim

O supervisor bolsista liderado por Carlos Tavares, no seu relatório preliminar ao BCP, terá identificado várias ilegalidades graves associadas a actos realizados pelos gestores do BCP envolvendo, entre outras coisas, financiamentos ilícitos para compra de acções próprias nos aumentos de capital de 2000 e de 2001. Estas transacções foram efectuadas via sociedades off-shores, que se supõe que possam estar ligadas ao BCP, operações que ferem a lei em vigor. Estima-se que estejam em causa movimentos envolvendo mais de 700 milhões de euros e que geraram prejuízos de pelo menos 200 milhões de euros.

Via Público, 22/12/2007