segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A fúria do plástico

Soube esta manhã que o fundamentalismo normalizador de comportamentos e de gostos irá, em 2008, muito para além da legislação anti-tabaco. No próximo ano será proibido servir cafés em chávenas de vidro em esplanadas. Este reinado do plástico estende-se ainda a todas as bebidas que possam ser servidas ao ar livre. Também os rissóis, croquetes e pastéis de bacalhau caseiros, especialidades que diferenciam tantos estabelecimentos do nosso país, têm os dias contados. Em 2008, produtos deste tipo só mesmo industrializados.

Tenho visto, na abordagem desta temática, muitas reacções de reprovação relativamente à actuação da ASAE. Não alinho nelas. Cabe à ASAE zelar pelo cumprimento da lei e não é a ASAE que faz as leis. Se há aqui alguma coisa a ser mudada – e há – são essas leis. E a prova de que a ASAE tem feito um bom trabalho são as reacções a que assistimos, um pouco por toda a parte, num país tão habituado a que se faça letra morta da lei, como a aceitar acriticamente tudo o que provenha dos poderes de Bruxelas como realidades consumadas, inquestionáveis e intangíveis.

Uma lição de democracia (1)

Os venezuelanos foram chamados às urnas para referendar uma proposta de alteração constitucional apresentada pelo presidente Hugo Chavez. Anti-democrática, disse-se, e eu não posso estar mais de acordo. Assim a avaliou também a maioria de venezuelanos que a chumbounum processo eleitoral democrático que decorreu sem incidentes. Chavez admitiu a derrota mesmo antes do fim da contagem e os venezuelanos puderam festejar livremente a vitória do não. Apesar disso, na imprensa estrangeira puderam hoje ler-se títulos como “A população diz não a ditador Chávez” e as últimas sobre a democracia russa.

Uma lição de democracia (2)

O Rússia Unida de Putin ganhou as eleições deste fim-de-semana com mais de 63% dos votos e o resultado, que lhe confere uma maioria qualificada, permite-lhe alterar a constituição russa e, assim, prolongar o seu reinado. Basta, para isso, substituir o actual sistema presidencial, que lhe impede um terceiro mandato, por um sistema parlamentar.

Caso o processo eleitoral tivesse decorrido dentro da normalidade democrática, esta seria uma notícia que não mereceria mais que os habituais comentários aos resultados. Mas não foi. Desde logo, a campanha eleitoral decorreu num clima de intimidação e aliciamento dos eleitores, silenciamento dos opositores e manipulação dos meios de comunicação social, completamente dominados pelo Kremlin. Como tivemos oportunidade de divulgar aqui no PB, o silenciamento dos opositores de Putin chegou mesmo a fazer-se pela sua detenção pela polícia, Kasparov esteve preso vários dias em parte incerta.

Depois, Seguiu-se um processo eleitoral muito turvo, em que os observadores internacionais denunciaram inúmeras irregularidades e queixaram-se da limitação à sua acção durante o escrutínio. A oposição chamou-lhe as eleições mais desonestas da história da Rússia. E, de facto, a Putin não escaparam nem os territórios ocupados da Tchetchénia, nem os da vizinha Inguchétia.
Na Tchetchénia, 99,54 por cento participaram no escrutínio, dos quais 99 por cento votaram na Rússia Unida. Na Inguchétia, a afluência foi superior a 98 por cento dos inscritos, dos quais quase 99 votaram no partido de Putin. Ninguém diria que o presidente russo era tão amado por aquelas bandas, mas até este resultado foi encarado com toda a naturalidade pelos responsáveis políticos das democracias ocidentais, omissas em reacções. Tão omissas como o próprio vencedor.

Após a revelação dos resultados preliminares, os dirigentes da Rússia Unida esperavam Vladimir Putin na sede do partido, mas o Presidente nem apareceu, nem fez qualquer declaração. Segundo a rádio Eco de Moscovo, o automóvel de Putin já ia a meio do caminho, mas o líder russo decidiu dar meia volta e regressar à sua casa de campo.

Enquanto isso, em Moscovo, a polícia de choque
bloqueava as praças centrais.