segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Enganaram-no



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Questionado sobre a invasão do Iraque, Durão Barroso garante que lhe deram informações que “não corresponderam à verdade”.

“Vi os documentos, tive-os à minha frente, dizendo que havia armas de destruição maciça no Iraque. Isso não correspondeu à verdade”, garante, dizendo que “hoje em dia é fácil pôr as culpas no presidente Bush” mas que falou na ocasião também com Bill Clinton, que disse também estar “absolutamente convencido”.»

Tive oportunidade de ouvir a entrevista. O mestre de cerimónias da Cimeira dos Açores falava como se também ele tivesse decidido alguma coisa naquela reunião onde suou as estopinhas para aparecer na meia dúzia de fotografias que depois distribuiu entre a imprensa doméstica. Falava como a virgem enganada a quem tinham levado a honra com mentiras e quem o entrevistava não lhe perguntou porque nunca confrontou quem o enganou com essas mentiras. Realmente, seria uma pergunta duplamente tonta. Durão soube daquilo pela mera casualidade de ter sido o escolhido para anfitrião e tê-lo sabido ou não em nada alteraria o que depois aconteceu. E ainda mais tonta porque seria a última coisa que passaria pela cabeça daquele que mais lucrou com o sacrifício que fez em receber os outros três no seu estabelecimento. Serviço feito, serviço pago. A honra manchada não poderia ter tido melhor compensação. Ou então, ainda teriamos para aí um "Eu, José Manuel" a rivalizar com a obra da outra enganada Carolina.

Companhia do Adubo

É fácil, sim, senhor ministro. Poderia não ter ficado nada, que já nem era mau. Mas ficou. Fica o adubo natural da retirada de benefícios fiscais aos adubados cidadãos portadores de incapacidade. E, claro, as sempre belas palavras da Companhia do Adubo.

Este nosso cheirinho a alecrim (n+bué)

Primeiro, como vereador responsável pelo urbanismo, doou terrenos ao Salgueiros para a construção de um estádio. Depois, passados anos, foi a empresa da qual é sócio que comprou esses mesmos terrenos. Não fosse este sentir do apelo da terra, enternecedor, do ex-presidente da Câmara do Porto, Nuno Cardoso, no resto é uma história clássica de futebol, empreiteiros, autarcas, jeitinhos no PDM e subsequente multiplicação do preço dos terrenos, que nem nas nuances perde para as melhores do género: inclui um vereador apeado por não ceder a pressões dos protagonistas da história e até um licitador que desaparece na bruma, deixando caminho livre para um negócio de sucesso. (ler aqui)

A excepção é a regra

«Uma frota de quatro baleeiros japoneses, liderada pelo gigante de oito mil toneladas, Nisshin Maru, levantou hoje ferro em direcção ao Pacífico Sul. Aí deverá permanecer até meados de Abril de 2008, quando tiver nos porões a carne de cerca de mil cetáceos, a maioria baleias anãs, mas pelo menos 50 serão baleias de bossa, uma espécie protegida e que já esteve à beira da extinção.

Embora a caça com motivos comerciais esteja proibida desde 1986, Tóquio contínua a caçar baleias, alegadamente para fins científicos. Uma justificação que custa a vida a cerca de um milhar de cetáceos todos os anos e que não convence os activistas de muitas organizações ambientais, entre elas a Greenpeace.»

O trabalho infantil é condenável, desde que não seja na Índia ou na China. A violação da Carta Internacional dos Direitos Humanos ou das disposições internacionais sobre Direito do Trabalho é condenável, desde que não ocorra na Índia ou na China. A violação das normas e protocolos internacionais em matéria ambiental são condenáveis, se excluirmos os dois maiores poluidores do mundo, Estados Unidos e China. Agora também a caça a espécies protegidas é proibida, desde que quem cace não seja japonês. É coerente. Há sempre uma excepção, assim como há sempre governantes com a boca cheia de nobres valores. Não hesitam em defendê-los, desde que isso não prejudique os negócios do tal mercado global que lhes engalana os discursos. Depois, mais excepções, mais negócios, mais impunidade. A excepção é a regra.

Justiça do bitaite

Num tribunal português dois pareceres científicos nada valem se comparados com a opinião de três juízes sem formação em medicina. A justiça do bitaite pode bem continuar – vai continuar – entre uma classe imune ao erro.

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O Tribunal da Relação de Lisboa considerou justificado e legítimo o despedimento de um cozinheiro infectado com HIV que trabalhava na cozinha de um hotel, confirmando decisão semelhante já tomada pelo Tribunal de Trabalho de Lisboa. No acórdão que o PÚBLICO consultou lê-se que "ficou provado que A. é portador de HIV e que este vírus existe no sangue, saliva, suor e lágrimas, podendo ser transmitido no caso de haver derrame de alguns destes fluidos sobre alimentos servidos ou consumidos por quem tenha na boca uma ferida". Por essa razão, os magistrados concluem que se continuasse a ser cozinheiro representaria "um perigo para a saúde pública, nomeadamente dos utentes do restaurante do hotel".

Os três juízes desembargadores que assinam o acórdão da Relação - Filomena Carvalho, José Mateus Cardoso e José Ramalho Pinto - tinham ao seu dispor dois pareceres científicos, um deles pedido pela Coordenação Nacional para a Infecção HIV/sida ao Centro de Direito Biomédico, que desmentem alegados riscos de transmissão de um cozinheiro. Mas ignoraram-nos na sua decisão de Maio deste ano. O funcionário recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça.»

Estas novas tecnologias...


Dão cá cada alegria!