quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sobre o video game desta manhã

Recebi vários mails e comentários ao post do vídeo game desta manhã. Gostaria de deixar bem vincado que também não gosto do baixo nível da linguagem que nele foi utilizada, já o tinha manifestado no “código de barras” que aparece em baixo do post.
Mas optei por colocá-lo. Porquê? Primeiro, porque me ri, como se riram todos aqueles que o viram e tenham alguma dose de malícia. Depois, porque houve alguém que se deu ao trabalho de gastar horas e horas para fazer aquilo. Não transmite nenhuma ideia complexa e não defende nem combate o que quer que seja. Mas é a manifestação de uma revolta que se nota crescente na sociedade portuguesa, e não apenas entre aqueles que têm as ideias mais brilhantes e as opiniões mais refinadas. Ela cresce também entre pessoas mais simples, com reacções muito mais inesperadas e capazes de ir muito para além de um descarregar de descontentamentos num pontapé num jogo de vídeo, dado sem pedir desculpa nem ao pé, nem ao alvo, a crise personificada.

Mais privilegiados

Depois dos privilegiados actuais, o Governo de José Sócrates estendeu a sua cruzada também aos privilegiados passados. Os visados são agora os reformados da função pública que, agora que não têm poder reivindicativo e já não servem o patrão Estado, são penalizados por não terem optado por outra carreira e servido outro com mais escrúpulos. A política redistributiva da esquerda socialista reformista não poupa os nossos deficientes nem os nossos velhos e, entre estes, faz a distinção entre aqueles que trabalharam no sector público e os que trabalharam no privado. O registo da reforma de um Estado que se comportava como pessoa de bem, cumpridora com os seus compromissos assumidos, aqui.

Sócrates Video Game


Um efeito do choque tecnológico é a chegada do Socialismo-reformado ao mundo dos video games, através de um jogo sem quaisquer restrições de 3%. Mais um sacrifício, mais um agradecimento público. É dar-lhe bem, com o cuidado de não se viciar.
Disclaimer: jogo desaconselhável a maiores de 245 anos.

Cidadãos de segunda

Vários argumentos foram sendo utilizados pelo Governo de José Sócrates para sustentar a retirada de benefícios fiscais aos cidadãos portugueses portadores de deficiência, o grupo que surgiu inesperadamente no vasto rol de falsos privilegiados da era socialista-reformista. Um deles foi o do reforço da assistência a quem realmente necessita. Na imprensa regional da minha área de residência vem hoje noticiado um caso emblemático deste tipo de assistência. Serve para relembrar – e há que relembrá-lo sempre - os benefícios que existiam e que deixaram de existir e a assistência que nunca existiu e que assim vai continuar, enquanto a versão oficial transmite a ideia contrária.

«
Com uma mobilidade extremamente reduzida e a aguardar a amputação da perna direita, uma moradora do Bairro de Celas (63 anos) viu recusado o seu pedido de transferência de casa.
(...)
O pedido de transferência, através de um ofício dirigido ao vereador do pelouro da Habitação da Câmara Municipal de Coimbra, feito em Abril último, logo a seguir a ter tomado conhecimento da necessidade de avançar para a amputação da perna e ao falecimento da antiga residente da casa em recuperação, tinha como principal objectivo, de acordo com declarações de Maria dos Prazeres, permitir num curto espaço de tempo as adaptações necessárias à sua condição física, nomeadamente no que respeita aos acessos e ao espaço de sanitários, uma vez que as obras ainda se encontravam - e continuam - a decorrer.
Estranhando a falta de contacto dos serviços camarários, sem qualquer resposta ao seu pedido, Maria dos Prazeres foi recentemente contactada por uma assistente social da Câmara Municipal de Coimbra, que se inteirou do seu caso e lhe terá dito que existia um documento a oficializar a entrega da casa a outro residente no Bairro de Celas, assegurando-lhe ainda a realização das obras de adaptação necessárias na sua casa.
Aparentemente conformada com a decisão dos serviços camarários, ainda que convencida da razão que lhe assiste, principalmente por desconfiar da eficácia dos trabalhos de adaptação propostos para que possa circular em casa com a cadeira de rodas que terá de usar, Maria dos Prazeres aceitou tornar público o seu caso. Sobretudo porque esta é uma situação de “interesse social”, disse ao DIÁRIO AS BEIRAS, que importa dar a conhecer.
Mesmo até com o objectivo de chamar a atenção para casos semelhantes de pessoas portadoras de deficiência ou com grandes dificuldades na mobilidade que vivem fechadas em casa por não terem qualquer condição de viver um dia-a-dia que se assemelhe à normalidade, nomeadamente no que respeita às acessibilidades.»

Três notas finais: a primeira, para dizer que Celas é um bairro social camarário. Uma segunda, para realçar a morosidade da resposta, de Abril a Novembro, 7 meses. E uma terceira , para deixar a ideia de que só uma minoria de casos deste tipo chega aos jornais. A grande maioria fica no silêncio da indiferença e atrás de uma pobreza quase sempre envergonhada.