Estava tudo preparado para ser um grande espectáculo. Duelo de titãs, assim o apresentava a imprensa, que ajudou a montar o circo. Nem como espectáculo valeu. Foi demasiado previsível. Sócrates nem precisou de fazer muito para emparedar Santana Lopes, direccionando-o para o seu tema preferido, o seu próprio eu. Depois, queixou-se Santana, faltou-lhe tempo para o resto. O resto, não o principal, ele mesmo. Discutiram o passado, Santana resumiu esse passado a um tempo em que estava presente. Podia ter falado no passado imediatamente anterior às eleições, o único relevante para o tema a tratar ali. Nada disso, optou pelo tapete que o opositor lhe estendeu e nada disse sobre as promessas de um José Sócrates que, em campanha, vendeu a esperança que depois de já eleito transformou em sacrifícios. O argumento da metamorfose de Sócrates está bem longe, demasiado longe, do umbigo de um menino guerreiro fiel ao que sempre foi. Regressou igual a si mesmo.
Conversados sobre o espectáculo, abordemos o debate. Pior ainda. É cada vez mais visível o reality show em que se tornou a política nacional, feita com actores – uns piores, outros melhores, uns mais talentosos, outros menos – mais dados a encenações povoadas de palavras ocas do que ao que teoricamente os levaria a estar ali: política, soluções, projectos. Pelo contrário, os debates desenrolam-se como as deixas no teatro, se disseres a 12 eu respondo-te com a 27, se disseres a 36 eu respondo-te com a número 4. Esta é a fórmula da política profissionalizada, da escola de actores das jotinhas. A política nacional é feita com gente recrutada nas juventudes partidárias, que aí aprendeu a arte de dizer sim ao amo como forma de alcançar o trampolim para o parlamento. E lá estão os eleitos, os que agradaram mais, os sobreviventes da selecção natural. Ganharam o lugar sem nunca terem tomado o pulso ao país, sem nunca terem experimentado um trabalho dito “normal” e sem nunca terem feito mais nada na vida que viver da política. A realidade, o debate útil, as propostas, a política digna desse nome ficaram, naturalmente, de fora. Ficam sempre, pertencem a um mundo que está longe dos seus.
Restam dois grupos. O primeiro, o daqueles que pertencem ao país real, com potencial para servirem a política e não apenas de se servirem dela, afastados tanto pela ameaça que representam por terem ideias próprias e um saber fazer como pela sua inaptidão para se movimentarem e ascenderem no meio. O que lhes sobra em vocação e qualificações para servir a causa pública, falta-lhes em arte de representação. O segundo, as personagens secundárias do show, os deputados dos pequenos partidos. Nunca chegamos a saber que projectos têm, estão tão à margem desta lógica de funcionamento como estão longe da cobertura mediática dada às novelas em que não participam. A política é aborrecida. Os espectadores mudam de canal se os aborrecemos. Que se lixe o Orçamento. E assim vamos andar até que os resultados desta era sejam tão maus que façam com que isto abane. É inevitável. Para que lado será a mudança, é a incógnita. Falta bater mesmo no fundo.