segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Arquive-se

Quando o cidadão ouve falar em burocracia no sector público, há como um mecanismo automático que se auto-dispara e lá sai um “pois, o Estado”. Há que reconhecê-lo, continua a haver situações e mecanismos a roçar a bizarria que dão razão a tal estigma. Mas, atrás dele, vem a confusão entre o que são excessos burocráticos e a necessidade de controlo que é imprescindível num campo sensível como o da gestão de dinheiros públicos, que abrem caminho a situações que são, no mínimo, pouco claras, e, no máximo, indiciam práticas sujeitas a procedimento criminal.

Um bom exemplo é o das aquisições de bens e serviços e adjudicação de empreitadas e obras públicas, que no Estado obedecem a regras diferentes das do sector privado (regem-se pelo disposto no Decreto-Lei 197/99). No sector privado não fará qualquer sentido que o gestor ou dono de uma empresa seja obrigado a seguir procedimentos de aquisição pré-estabelecidos segundo os valores envolvidos. Por duas razões: primeiro, porque o dinheiro e o risco são seus e, segundo, porque as empresas são autónomas na organização da sua gestão e da prestação de contas aos detentores do seu capital. Tal já não é assim no sector público, há que assegurar um mínimo de transparência e critérios que conduzam simultaneamente à melhor escolha e à salvaguarda do interesse público. Para tal, dispõe aquele diploma que a compra de 10 resmas de papel no valor de 150 euros se possa fazer por “ajuste directo”, ou seja, que quem conduza o processo de compra possa dirigir-se a um fornecedor à sua escolha, após breve consulta ao mercado. O grau de exigência e a complexidade dos procedimentos vão aumentando com os valores envolvidos: entre 5000 e 12500 euros, há a obrigatoriedade de consultar pelo menos 2 fornecedores; entre 12500 e 25000 há que consultar 3 fornecedores; (…); a partir de 25 mil euros, é constituída uma comissão que avaliará as propostas; a partir dos 125 mil euros é obrigatória a abertura de concurso e sua publicação em periódico nacional ou internacional, consoante os valores envolvidos.
E tudo isto para quê? Para evitar que o interesse público saia prejudicado e para salvaguardar as suspeições que possam ser levantadas sobre eventuais favorecimentos a fornecedores por parte de quem conduza os processos de aquisição. Tal parece não preocupar nem governantes, nem gestores nomeados por governantes, que estão a coberto da uma opinião pública pouco esclarecida e do silêncio comprometido de quem já esteve no poder e observou comportamentos semelhantes. Este fim-de-semana foi notícia, mais uma vez, um relatório do Tribunal de Contas a engavetar assim que seja oficial.

«
(…) Segundo o relatório de auditoria à EP, os contratos assumidos por ajuste directo chegaram, em 2005, aos 2,5 mil milhões de euros, valor 47,2% acima do previsto nas autorizações iniciais.

As expropriações justificaram gastos de cerca de mil milhões de euros, que representam um desvio de 70,8% ao estipulado. O TC cita um relatório da Inspecção-Geral das Finanças (IGF), no qual é referido que "por regra, o valor atribuído pela arbitragem é sempre superior ao valor do projecto, por vezes com diferenças de mais de 100%". Acrescenta a IGF que "toda esta disparidade de valores não se compreende". (…)»

Nem pode compreender-se, quando a regra não é o consequente apuramento de responsabilidades até às últimas consequências. A aquisição de bens ou serviços por ajuste directo pode fazer-se por qualquer valor e ao fornecedor amigo que se quiser, sem a interferência de ninguém e sem que ninguém saiba. Até que o TC o descubra, para que depois se arquive.

O mundo ao contrário

Consequência de uma operação cirúrgica mal sucedida, Ana Brandão não consegue sequer vestir-se sozinha. Ainda assim, a junta médica da CGA que a avaliou deu-a como apta para o serviço e estará a apresentar-se ao serviço a esta hora no seu local de trabalho.
Também a partir de hoje,
seis alunos com necessidades educativas especiais do Distrito de Viseu, ficaram em casa. Deixaram de poder frequentar os respectivos estabelecimentos de ensino por não terem quem os acompanhe na escola. A Direcção Regional da Educação do Centro não atribuiu as horas suficientes ao agrupamento para poder contratar as chamadas tarefeiras, a quem compete o acompanhamento das crianças, já a partir deste mês de Novembro. Amanhã, na AR, o Governo de José Sócrates e o partido que o suporta no parlamento vão reafirmar a sua posição relativamente à retirada de benefícios fiscais a pessoas portadoras de incapacidades, tema que foi amplamente divulgado neste blog e que é o objecto da petição que foi aberta pelo MTPD, que o convidamos a assinar.