segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Eles podem tudo

«O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, disse ontem em Newark, nos Estados Unidos, que a relação cambial euro/dólar reflecte o estado das duas economias, mas que tanto os EUA como a UE querem um dólar forte nos mercados mundiais.

"A posição dos ministros das Finanças da Zona Euro é a de que a situação cambial euro/dólar reflecte de uma forma geral a situação das economias europeia e norte-americana", disse.

"Por isso não é surpreendente que havendo perspectivas de um abrandamento mais acentuado da economia norte-americana em relação à economia europeia - e tendo havido uma redução das taxas de juro nos mercados norte-americanos - isso se tenha traduzido numa depreciação da moeda americana em relação à moeda euro" - afirmou à Lusa o ministro Teixeira dos Santos, à margem de um encontro com a Câmara do Comércio Luso-Americana. »

Não é brincadeira, é uma posição perfeitamente compreensível. Teixeira dos Santos é ministro naquele país em que as pessoas nem se queixam quando se lhes impõem sacrifícios. O país em que a desvantagem competitiva das suas exportações pode perfeitamente ser compensada com reduções salariais e desregulação das relações laborais. O país cujos eleitores não se importam que os seus ministros defendam os interesses dos países do centro da Europa, contrários aos seus, tão pouco que ignorem as assimetrias regionais na Europa. Desde que brilhe o nome de Portugal e nos seja reconhecido o título de “bom aluno”, eles podem tudo. Até reflectir o seu autismo na relação euro-dólar.

"Estudos" e bitaites

“Há funcionários públicos a mais e os funcionários do público são menos eficientes que os do privado”. Foi a primeira coisa que ouvi, hoje de manhazinha, dito com a entoação solene que lhe deu locutor que apresenta o noticiário da rádio pública, selado com a garantia de um estudo coordenado por Roberto Carneiro e com a chancela da Universidade Católica. A mentira foi repetida mais uma vez, quando terminou a ronda pelos outros títulos. De novo a mesma voz solene e, de novo, o “Há funcionários públicos a mais e os funcionários do público são menos eficientes que os do privado. São as conclusões de um estudo da Universidade Católica.” Só depois disse que o estudo era uma sondagem de opinião: “cerca de 75 por cento entre 300 inquiridos pela Católica acham que há funcionários públicos a mais e que estes são menos produtivos que os do sector privado”. Acham. O maravilhoso mundo do bitaite, recolhido entre uma amostra de apenas 300 alminhas, que está muito longe do que o dito jornalista disse e é o contrário deste outro estudo, fora do reino do bitaite: «O relatório sobre competitividade do Fórum Económico Mundial é uma vergonha para os gestores e empresários portugueses e um elogio às instituições públicas. Portugal desceu do 31.º lugar para o 34.º entre 125 países fundamentalmente por causa do mau funcionamento das instituições privadas. Afinal, a fraca imagem do País deve-se em grande parte ao sector privado.»
Procurei depois a notícia e encontrei-a no DN. De novo, o título não coincide com o que vem depois: «
Estado funciona pior que o sector privado», que seria a conclusão desejada mas que não foi a que foi obtida.
Três observações finais: a primeira, a de que o dito estudo foi encomendado pelo INA (Instituto Nacional de Administração, um organismo público que tem na investigação uma das suas razões de existir e que, em vez de realizar o estudo em causa, pagou-o a terceiros. A segunda, a de que um estudo destes só se faz com o objectivo de avaliar a margem de manobra de um Governo a preparar eleições, que aposta
190,4 milhões de euros em estudos, pareceres, projectos e consultadorias. Seria aconselhável usar amostras mais significativas, com universos de 300 inquiridos a única conclusão fiável é a de que o dinheiro enterrado no estudo foi muito mal gasto. Finalmente, sobre a função de informar da Antena 1 e do DN, que prestaram um bom serviço ao darem o “recado” como puderam.