sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O político elefante

O elefante é um animall que não existe só na natureza. Os elefantes políticos deram-se a conhecer ao mundo porque, tal como os seus primos, deixam tudo florido por onde quer que passem. As provas são mais que muitas. Como esta, o Relatório de Auditoria ao Município da Figueira da Foz - Gerência de 1999. Apesar do que pode ler-se no relatório, graças a uma distracção do Ministério Público, o gestor de então pôde mudar de ares e mostrar ao país que a sua veia elefantina continuava em alta. Não sem antes prestar provas na capital, onde a sua marca continua a mercer as mais diversas distinções.

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Lisboa (com 10 044 461 euros) e Gaia (11 929 661 euros) são as autarquias que apresentam maiores valores de endividamento líquido ultrapassado»

Depois esse elefante floriu demais e caiu. Passou um tempo e foi recuperado por um espécime setentrional que lhe propôs florirem tudo juntos. E olha que dois. Santana em Lisboa, Menezes em Gaia. Menezes nº 1, líder, Santana líder parlamentar, nº 2. A longevidade e a sociabilização como traços de uma espécie com a semelhança adicional do "se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais". Assim os deixem à vontade e, de novo, ficará tudo floridinho à sua volta. Estejam distraídos.

O tratado dos europeus

Segundo sondagem encomendada pelo Financial Times, 76% dos inquiridos alemães, 75% dos britânicos, 72% dos italianos, 65% dos espanhóis e 63% dos franceses querem ver o novo Tratado Constitucional Europeu referendado.

Porreiro, pá!

Lá dentro: «Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia chegaram esta madrugada a acordo quanto ao texto final do novo Tratado europeu, anunciou oficialmente fonte da presidência portuguesa dos 27.

Após um dia inteiro de negociações no Pavilhão Atlântico, no Parque das Nações, em Lisboa, os dirigentes celebraram com champanhe o novo documento que irá substituir a fracassada Constituição Europeia, rejeitada por referendo em França e na Holanda em 2005.»

E lá fora: «
Eram 150 mil ou 180 mil, consoante as fontes da Polícia abordadas. Eram mais de 200 mil, diziam, orgulhosos, os dirigentes da CGTP. Tenham estado os que estiveram, ontem, na manifestação da central sindical no Parque das Nações, em Lisboa, contra a política económica e social do Governo« (…)»

A vontade de 27 e a oposição de 200 mil, a imagem reproduz bem o que foi aprovado. Um tratado que reforça os poderes de um directório e confina os poderes do único órgão directamente eleito pelos cidadãos europeus a decisões menores. A “fracassada” Constituição Europeia é substituída por uma réplica à qual foi retirado o hino, a bandeira e a possibilidade de os cidadãos europeus a aprovarem ou rejeitarem. Quando não se correm tais riscos, o sucesso é mais que garantido, porque o único risco da imposição é o de ter que usar da força. Começou uma nova era em que quem decide não responde pelos seus actos perante o cidadão e em que a cidadania se resume à submissão e ao mero obedecer. Agora, quem manda aqui são eles e o seu poder imunizou-se da vontade dos cidadãos, por mais erradas que sejam as políticas dos primeiros e por piores que sejam as consequências sobre a vida dos segundos.
Venham as reacções. De um lado, o protesto dos cidadãos que não abdicam de participar na construção da sociedade em que vivem e, do outro, o aplauso daqueles que sempre aplaudem, no matter what, e a indiferença afundada nos sofás daqueles que encontram a realização na felicidade dos personagens da telenovela e no prémio do vencedor do concurso que dá a seguir e de outros que tais, mas que até viram todos os filmes do Krzysztof Kieslowski. Quanto aos primeiros, como aplaudem tão efusivamente um texto de que se conhece tão pouco, é fenómeno explicável à luz da sociologia, não da política.