quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Gostei de ler: «A pós-democracia ou “onze teses sobre o poder socrático”»

«Portugal está a atingir um ponto em que aquilo que há alguns anos se jurava ser o essencial da vida democrática virou nos últimos anos um empecilho da democracia.

1. No tempo do Estado Novo, o corporativismo estava instalado no poder, hoje “corporativo” é quem ouse contestar as propostas governativas.

2. Antes, os “interesses” estavam no governo, hoje ele é absolutamente neutro (milimetricamente técnico) e quem não crê nas mudanças propostas é um defensor do marasmo e da mediocridade.

3. Há uns trinta anos atrás, quem não estava com a “revolução” estava com a “reacção”, hoje quem não está com Sócrates está contra o progresso do país.

4. Há uns vinte anos atrás, os sectores organizados, os sindicatos, os protestos espontâneos e a esquerda eram “forças de bloqueio”. Hoje, tudo o que não alinhe na via socrática para a (sua) “modernidade”, a começar pelos sindicatos, é defensor dos "interesses adquiridos" e egoistas.

5. Antes, pensava-se que da discussão “nasce a luz” e, portanto, quanto mais debate mais condições para que fosse encontrada uma melhor solução para os problemas. Hoje, dizem-nos que a discussão é sobretudo uma forma de impedir que as decisões sejam tomadas.

6. Antes, pensava-se que era importante a participação das pessoas nas decisões, e até que quanto mais gente fosse envolvida no processo decisório, mais condições teria para ser aplicada e gerar mudança. Hoje, quanto menos pessoas forem envolvidas numa decisão mais probabilidade ela tem de se tornar efectiva (sobretudo se essas pessoas tiverem uma fidelidade canina para com quem manda).

7. Antes (no tempo do Guterres), se os atingidos pelas decisões protestavam, conseguiam em geral um recuo do governo. Hoje (no tempo de Sócrates), o governo acredita que quanto mais “despojos” e vitimas das suas reformas existirem mais correcta e consequente é a marcha do comboio reformista.

8. Antes, acreditávamos que era possível criar consensos através do diálogo e do entendimento entre as partes. Hoje o “diálogo” tornou-se um vírus diáfano que faz parte da mentalidade daqueles que nada querem mudar.

9. Antes a política era o pluralismo das ideias. Hoje é uma ideia distorcida de pluralismo.

10. Antes, havia os trabalhadores que era preciso integrar nos processos de mudança e camadas carenciadas e excluídas que era preciso ajudar a desenvolver. Hoje, o que é preciso é dar umas migalhas aos desgraçados, ameaçá-los com o desemprego e mostrar o combate feroz aos “parasitas” da administração pública para se conseguir calar o povo e até ter o seu apoio.

11. Antes, a imagem de um líder (ou primeiro-ministro) era um importante complemento da sua acção política. Hoje o trabalho político é um complemento menor da “imagem” de um primeiro-ministro.» - Assina
Elísio Estanque no seu Boa Sociedade.
Acrescentar-lhe-ia apenas mais um, só para chegar à dúzia:
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12. Antes havia que ter conhecimentos para se exibir um diploma; agora o importante é ter um portátil e um diploma para exibir conhecimentos.

Escapa a esta lógica de contrastes: durante o Estado Novo, os homens da situação eram colocados à frente das repartições públicas; hoje, também.

Alto lá! Beatos mas não santos!

«Vaticano rejeita canonização dos pastorinhos

O Vaticano não reconhece o milagre apresentado para a canonização dos pastorinhos de Fátima, Jacinta e Francisco Marto. Os peritos da Santa Sé estão insatisfeitos com as provas apresentadas. »

Um revés no negócio da região? Não creio. A Fátima vai-se, ponto. E este ir vai continuar. Agora o que há a fazer é não perder a fé e rezar. Rezar muito, esfolar os joelhos e continuar a ir. Pode ser que se produza o milagre e alguém os faça santinhos, não era mau para o negócio.
Mas saber que se idolatra um vulgar pastor, ou dois, ou quantos sejam, imaginar os milagres da vida dura que levam, da multiplicação das caganitas de cabra, dos dias a fio sem tomar banho… deve ser duro e amolece a fé mais empedernida. Mas isto só se se desperdiçar o tempo de oração a pensar em detalhes. Oremos, pois! Deus é grande e há-de ouvir.

Que crescimento

«Em 2006, os lucros das 500 maiores empresas não financeiras (não inclui nem os bancos nem as seguradoras) a funcionar em Portugal somaram 5.817 milhões de euros, o que representa, em relação a 2005, quando os lucros atingiram 3.488 milhões de euros, um aumento de 66,8%. Em 2006, os vencimentos dos trabalhadores da Administração Pública aumentaram 1,5%, e a subida nas remunerações dos trabalhadores do sector privado foi somente de 3,1% (em toda a economia, o aumento das remunerações no nosso País foi apenas de 2,4%, segundo o Banco de Portugal). Se considerarmos um período mais longo (2003-2006), a subida dos lucros das 500 maiores empresas atingiu 150,2%, pois passaram de 2.325 milhões de euros para 5.817, enquanto o aumento verificado nas remunerações foi apenas de 6,4% na Administração Pública e de 13,3% no sector privado. Durante este período, a taxa de inflação aumentou 11%, o que determinou uma redução importante do poder de compra das remunerações nominais. Portanto, a diferença é impressionante entre o crescimento dos lucros e o dos salários, o que contribuiu para o agravamento das desigualdades.»

Motivo de contentamento para alguns, uma injustiça para outros. O que é certo é que foi enorme a diferença entre o crescimento dos lucros das empresas não financeiras (66,8%) e o crescimento dos salários (2,4%) e entre o crescimento dos salários no sector privado (3,1%) e no sector público (1,5%).
Os números evidenciam qual a orientação na condução das políticas económicas que tem vindo a ser seguida e para quem têm revertido os benefícios do fraco crescimento económico que delas resultam. Explicam ainda o encerramento de fábricas e lojas, o desemprego, a crescente precariedade laboral e o retrocesso civilizacional observável pelas perdas sucessivas em matéria de direitos sociais.
Fará sentido um crescimento deste tipo, conseguido à custa do bem-estar dos cidadãos e cujos benefícios são recolhidos apenas por alguns? E, caso a distribuição desses benefícios fosse menos desigual, não estaria aí um factor de aumento do crescimento económico? Se a resposta à segunda questão resulta quase óbvia (maior poder de compra seria significado de mais fábricas, mais lojas, mais emprego que, por sua vez, seriam significado de mais fábricas, mais lojas, mais emprego, e assim por diante), a segunda questão encontrará a sua resposta dentro de aproximadamente 2 anos, nas urnas de voto. Se fizer sentido este crescimento e a desconstrução social em curso, quem está no poder manter-se-á em funções. Em democracia, é aos cidadãos que cabe decidir quem os representa na condução das políticas através das quais se desenvolve o modelo de sociedade que cada um defende. Quem discordar procurará alternativas, quem concordar dará o seu apoio ao modelo que está a ser seguido e quem se abstiver de exercer a sua escolha fará o favor aos interesses representados pelo modelo vencedor de, ao não se pronunciar contra ele, permitir que seja o escolhido. São estas as regras do jogo democrático e da construção social, às quais ninguém pode escapar, por muito que alguns se convençam de que não são uma peça deste xadrez e por muito que muitos, embora queixando-se que a vidinha vai mal, rejubilem com o cada vez mais dos outros e com o seu cada vez menos.

Orelhas de Burro


Skank - "Resposta" (1998)



Skank - "Te Ver" (1994)