quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A lei da trolha

Dois dos pilares em que assenta a competitividade cavernosa de uma larga franja da classe de empresários portugueses, conhecida pela sua baixa formação e pelo consequente modelo de empresa que defendem, são a fuga ao fisco e o fim de direitos laborais elementares num país desenvolvido. Na imprensa de hoje pode ler-se que começam a perceber que não podem insistir no primeiro, mas que continuam a insistir no segundo.

«
Cerca de metade das 4.002 empresas ameaçadas com inspecções por parte do fisco após terem apresentado resultados negativos em dois anos consecutivos – 2004 e 2005 – apresentou lucros ou contas equilibradas no exercício de 2006, avança esta quarta-feira o Jornal de Negócios. »

«
O presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP) quer que os despedimentos sejam mais fáceis. Ludgero Marques diz que seria uma forma de as empresas serem mais saudáveis.»

BCE: uma história de fracassos e contradições

Fomo-nos habituando, nos últimos anos, a subidas sucessivas na taxa de juro de referência do Banco Central Europeu. A justificação oficial foi sempre a mesma, pressões inflacionistas de médio e longo prazo, que o BCE supostamente ia corrigindo através daquele instrumento de política monetária. E se, de facto, ninguém viu a tal inflação, todos vimos uma escalada da cotação do euro em relação ao dólar, e fomos deixando de ver os saldos das nossas contas bancárias a níveis que evitassem uma constante ginástica orçamental, em doses servidas mensalmente a toda a família.

Entretanto, no início de Agosto, estoira a crise no mercado subprime, objecto de uma postagem
aqui no PB. O BCE esquece-se de todas as pressões inflacionistas e reage energicamente injectando liquidez no mercado, para evitar males maiores. Mas aqui começam as contradições. O efeito de aumentos da taxa de juro de referência e de injecção de liquidez nos mercados monetários sobre a inflação são opostos: o primeiro é negativo e o segundo é positivo, aliás como pode ler-se nesta passagem de um texto com a justificação oficial da última subida da taxa de juro de referência para os 4%, disponível no site do Banco de Portugal:

«
O valor de referência para o crescimento monetário deverá ser consistente com - e contribuir para alcançar - a estabilidade de preços. Os desvios do crescimento monetário verificados em relação ao valor de referência assinalam em circunstâncias normais riscos para a estabilidade de preços. Além disso, o valor de referência para o crescimento monetário deve ter em consideração o crescimento real do produto e as alterações à velocidade de circulação.»

Finalmente, contrariando a lógica de actuação recente do BCE, durante o dia de ontem a Reserva Federal dos EUA reduziu a sua taxa de juro de referência em 50 pontos base, numa aposta clara no crescimento e no aumento do emprego. “Boas notícias”, leu-se na imprensa, pela resposta em forte alta verificada nas bolsas. Sê-lo-á para as bolsas e para a economia americana, sim, mas não para a competitividade, emprego e crescimento na zona euro, pela pressão cambial em alta sobre a cotação da moeda europeia que resulta da descida operada pela Fed.

Perspectivando a reacção do BCE, ela é uma incógnita, quer pelas contradições na sua actuação nos tempos mais recentes, quer pela indiferença com que tem reagido aos sinais de crise na economia real, muito graças à falta de pressão por parte dos executivos dos estados-membro, quer ainda pela posição oficial, que retirámos do mesmo texto, relativamente a objectivos de política cambial. E, se um recuo na trajectória da taxa de juro de referência constituirá a admissão do fracasso das políticas até aqui seguidas, insistir nessas políticas seguramente que terá consequências sobre a competitividade e o emprego europeus, que não poderão ser eternamente alimentados através de recuos nos direitos laborais e regalias sociais dos cidadãos europeus. A taxa de juro tem, pois, de baixar também na zona euro.

«
Embora a adopção da taxa de câmbio como objectivo intermédio se não justifique numa grande economia relativamente pouco aberta ao exterior como é a da área do euro, o nível relativo das taxas de juro tem uma influência directa sobre o nível da taxa câmbio do euro. As condições de remuneração das aplicações em euros desempenham, na verdade, um papel determinante nas decisões de afectação de carteira entre divisas que efectuam os agentes económicos.»

A feira da Euribor

«Uma simples ronda pelos "sites" na Internet e serviços telefónicos do BES, BCP e Santander Totta permite concluir que, se a remuneração dos depósitos indexados à taxa europeia fosse paga anteontem, o valor a tomar como referência era o da Euribor tal como ela é calculada internacionalmente, ou seja, numa base de 360 dias. No caso, por exemplo, da Euribor a 12 meses, essa taxa seria de 4,685%. Ora, se esses mesmos bancos estivessem a fazer as contas para apurar quanto dinheiro teriam a receber de um cliente por um crédito à habitação indexado precisamente à mesma taxa, já diriam que a Euribor a 12 meses era calculada numa base de 365 dias, elevando-a aos 4,750% - mais 0,065 pontos percentuais, o que implica um agravamento de 1400 euros num hipotético crédito de cem mil euros a 30 anos, a "spread" zero.
(…)
A lei estará mal escrita, como defende o Banco de Portugal, ou é perfeitamente clara, como diz a Deco? (…) » in
JN

Seja qual for a resposta à questão formulada no artigo do JN, há aqui duas posições de princípio que sobressaem: uma, a gula dos três bancos citados e, outra, a passividade do antes banco central e agora apenas autoridade de supervisão do sistema financeiro, o Banco de Portugal. O resultado é este, a desconfiança do consumidor na sua relação com um sistema bancário semelhante a uma feira, em que há que ter um olho posto no burro e outro no cigano.

Porquê tanta pressa?

«O Ministério Público está a tentar tudo por tudo para salvar a "Operação Furacão", a maior investigação judicial portuguesa a empresas suspeitas de envolvimento em operações de fraude e fuga ao fisco e branqueamento de capitais.

A operação arriscava-se a levar um tiro de morte com a entrada em vigor do novo Código de Processo Penal (no CPP). A redução dos prazos para inquérito previsto no novo CPP - que entrou em vigor no sábado passado - implicaria o acesso imediato dos arguidos (através dos seus advogados) à investigação. Tal iria permitir-lhes, por exemplo, requerer novas diligências, muito demoradas, as quais, no caso de não poderem ser levadas a cabo nos prazos impostos por lei, poderiam desencadear a anulação do processo. (…)» in
Diário de Notícias

Benfica: Champions League #1

Foi um jogo morno e com pouca história, o que assistimos ontem en San Siro, entre um AC Milan que não teve que carregar muito no acelerador para marcar dois golos (Pirlo e Inzaghi) e um Benfica que denotou a inexperiência de um plantel onde abunda a juventude e que se ressentiu da ausência dos titulares indiscutíveis do centro da defesa Luisão e David Luís e do patrão do meio campo defensivo, o insubstituível Petit. Ainda assim, o Benfica foi capaz de enviar uma bola ao poste, em remate do paraguaio Cardozo logo a seguir ao primeiro golo italiano e, na última jogada da partida, reduzir a desvantagem para 2-1, fixando o resultado final com golo de Nuno Gomes.
Na história do jogo ficam ainda a recepção emocionante com que os adeptos italianos brindaram Rui Costa e para os aplausos que ecoaram num estádio cheio que, em pé, prestou tributo ao actual Sr. Benfica quando foi substitído por Nuno Assis aos 87 minutos, um regalo de Camacho.

Ficha do jogo (Video aqui)

AC Milan – Dida; Oddo (Bonera, 80 m), Nesta, Kaladze e Jankulowski; Gattuso, Pirlo e Ambrosini; Seedorf (Emerson, 74 m) e Kaká; Inzaghi (Gilardino, 83 m).

Suplentes não utilizados: Kalac, Favalli, Simic e Brocchi.

Benfica – Quim; Luís Filipe; Edcarlos, Miguel Vítor (Gilles, 72 m) e Léo; Di Maria, Maxi Pereira, Katsouranis, Rui Costa (Nuno Assis, 87 m) e Cristian Rodriguez; Cardozo (Nuno Gomes, 62 m).

Suplentes não utilizados: Butt, Nélson, Romeu Ribeiro e Bergessio.

Marcador: 1-0 por Pirlo (8 m); 2-0 por Inzaghi (23 m); Nuno Gomes (92m)

Cartões: amarelos para Cardozo (60 m) e Inzaghi (66 m).

Primeira Jornada – Grupo D

Milan 2-1 Benfica
Shakhtar Donetsk 2-0 Celtic

Orelhas de Burro