«Para Luís Amado são "óbvias" as razões que levam o Governo português e o Presidente da República a não receberem oficialmente o Dalai Lama, Prémio Nobel da Paz, na sua segunda visita a Portugal. Luís Amado não se refere, claro está, às razões de agenda evocadas por José Sócrates ou Cavaco Silva. Fala das razões políticas e económicas que estão na base desta indisponibilidade. (…) Uma questão completamente diferente é a das lojas chinesas que Maria José Nogueira Pinto quer retirar da Baixa de Lisboa. (…)»
Em vez da imposição de regras, como o respeito pelos mais elementares direitos humanos, laborais e ambientais, a ue preferiu vergar-se aos interesses das grandes multinacionais que operam em países como China e Índia, utilizando, para consumo doméstico, um discurso cheio de chavões como “competitividade”, “flexibilização” e “contenção salarial”. Os efeitos da abertura dos mercados fizeram-se sentir de forma diferenciada, consoante o grau de especialização tecnológica e solidez das economias.
Portugal, frágil, estrebuchou. Com a globalização sem regras vieram o desemprego, a precarização no mundo do trabalho, a perda de poder de compra dos portugueses e, com eles, o encerramento de fábricas e lojas. Estas, em menor número, concentraram-se em grandes catedrais de consumo e, nas baixas das cidades de todo o país, assistiu-se a um fenómeno de substituição de representações de grandes marcas por lojas que comercializam produtos de baixo valor, ao alcance de todas as bolsas mas que só contentam quem aufere rendimentos baixos.
É este segmento de mercado, liderado por chineses e indianos, com produtos importados directamente dos seus países de origem, que envergonha agora toda uma classe que se vergou ao peso económico do gigante chinês. É esta exposição de pobreza e empobrecimento crescente do país e a ausência do glamour das grandes marcas e dos produtos de luxo com que terão que conviver e, pior que tudo, que verão os convidados ilustres, ricos, congéneres dos nossos governantes bem vestidos, em contraste com a boa marca das suas fatiotas e carros. Uma cópia à escala da realidade dos países de ilustres convidados e sempre bem-vindos como os ditadores José Eduardo dos santos, Robert Mugabe ou Ben Ali, só para dar três exemplos que, como pode ver-se, contrastam com o mal-vindo Dalai Lama.
De súbito aparece em cena Maria José Nogueira Pinto, que tenta, por todos os meios, varrer a vergonha para debaixo do tapete, da nobre baixa para o Martim Moniz. Tarefa possível numa China com regras muito próprias, mas impossível num espaço com regras próprias de um Estado de Direito, aquelas que a Europa não exigiu aos chineses: leis específicas “para lojas chinesas” são xenófobas, proibidas, para horror dos convidados e vergonha dos anfitriões. Quiseram os chineses, eles aí estão. Ricos ou pobres, todos sentiremos a sua presença. Será a célebre "vingança do chinês"?
Sugestão: um livro por dia
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*As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia, de Miguel Real*
*Romance*
*(reedição D. Quixote, 4ª ed, 2019)*
*"O autor usa a graf...
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