sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Era uma vez.... o consumo sem salários e sem estabilidade no emprego

O António decidiu imitar a concorrência e proceder a uma reestruturação na sua empresa, por forma a aumentar os lucros e a sua competitividade. A fórmula usada na reestruturação em pouco diferia das usadas nas restantes empresas. Consistia, basicamente, em reduzir os custos com o pessoal. Assim, este foi renovado, foram renegociados os contratos de trabalho (mais horas e menor salário) e os novos funcionários foram contratados com salários mais baixos. Os resultados foram espectaculares: menos funcionários, as mesmas horas de trabalho mensal, a mesma produção e uma redução de custos com salários de 20%.

Naquele dia o João chega a casa e dá a má notícia à mulher. O patrão tinha-lhe proposto o mesmo que o patrão dela há 2 meses: se quisesse ganhar o mesmo salário que até aí, teria agora que trabalhar mais horas diariamente. Mesmo assim tinha tido mais sorte que o vizinho, o Ricardo, que tinha sido dispensado e estava agora em maus lençóis. Logo agora, que tinha comprado uma casa tão cara, via-se na situação de não ter com que a pagar. Nada de grave, porque os bancos tinham criado uma solução para casos como o dele. Sempre ajudava a pagar a casita, embora a taxa de juro fosse mais alta (15%), era só por uns tempitos.

A Maria tinha umas poupanças. Farta de depósitos a prazo com taxas de juro desinteressantes, um dia vai ao banco e oferecem-lhe um produto novo com uma super taxa. Ela já tinha ouvido falar disso, parece que servia para financiar créditos de pessoas em má situação financeira. Desempregados e gentalha fracassada desse género. A Maria não hesita e aplica todas as suas poupanças nesse tal fundo. Afinal, sempre eram 7% ao ano.

Passa-se um ano. O Ricardo não consegue arranjar trabalho. A todas as empresas onde bate à porta tinha acontecido o mesmo que à empresa que o despedira. Ainda por cima a taxa de juro da habitação não parava de subir. O melhor era devolver a casa e acabar com o inferno. Era-lhe, de todo, impossível pagar o empréstimo, o período de subsídio de desemprego acabava naquele mês.

E foi então que, no mesmo dia, uma multidão de Ricardos se depara com a situação de não poder pagar os encargos com os seus empréstimos e devolve as suas casas. Nos dias seguintes, iguais a esse, outras multidões de Ricardos se seguiram à primeira. E outro dia se lhes seguiu, em que uma multidão de Marias soube pelos jornais que se quisesse levantar os seus fundos de investimentos, o banco lhe diria que não podia. No mesmo dia que uma multidão de Antónios viu a cotação das acções das suas empresas cair a pique.

“Coisa impossível!” – praguejou o nosso António – “Vá-se lá entender este mercado, os lucros até dispararam!” O nosso João ouve-o e responde-lhe que o consumo sem salários ainda não tinha sido inventado. O António, firme, irrita-se com tal arrufo - parecia sindicalista! - e fá-lo juntar-se à multidão de Ricardos. Tinha começado o novo plano de reestruturação da empresa do António, que faria disparar os lucros e recuperar o valor da cotação em bolsa.

« O banco francês BNP Paribas congelou três fundos que investem no mercado hipotecário, alegando que os activos estão, neste momento, subavaliados. Esta medida reavivou os receios nos mercados mundiais quanto à evolução do mercado hipotecário de alto risco ("subprime") e está a penalizar todas as bolsas europeias. (
continua