sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Orelhas de Burro


O rei bufa de calor

A metáfora da mão invisível de Adam Smith, que habita o imaginário do pensamento neo-liberal, é, em geral, interpretada como representando a ideia de que o "mercado" seria uma instituição capaz de "transformar" o auto-interesse individual em benefícios sociais sem a necessidade de intervenção da "mão visível" do Estado. A este cumpriria apenas garantir a ordem institucional, administrar a justiça e, claro, o papel de árbitro das condições de concorrência, intervindo quando nela são detectadas imperfeições, por forma a que do bom funcionamento do mercado e da concorrência entre agentes individuais resulte o bem comum. Este é um dos pressupostos mais básicos do liberalismo.

Em Lisboa, dada a imperfeição do mercado “especulação imobiliária”, com preços fixados artificialmente e tão altos que possibilitam aos agentes imobiliários manterem casas por vender durante um tempo infindável, o bem comum saiu afectado, todos o notam. A desertificação da cidade é uma realidade hoje inegável, fruto do abandono da classe baixa e da classe média, empurrada pelos preços altos para a periferia, onde encontram habitação a preços comportáveis pelos seus rendimentos familiares. O fenómeno não é de hoje e, ainda assim, nada se tem feito. Até agora.

Uma das formas possíveis de corrigir a imperfeição de concorrência que permite a fixação de preços especulativos consiste em fixar um preço máximo que não possa ser ultrapassado. Por exemplo, uma autarquia concede a um construtor uma licença de construção em determinado lote de terreno e, em troca, para evitar a especulação, fixa um tecto máximo no preço de venda ao agente imobiliário. Normalmente, com o mesmo objectivo de evitar a especulação, fixa-se também um período no qual o comprador não pode revender o imóvel e a obrigatoriedade da sua utilização como habitação principal, não fosse o objectivo desta política contrariar a desertificação.

Foi basicamente nisto que António Costa e José Sá Fernandes se puseram de acordo, reservando uma parte do mercado para funcionar sob preços controlados. Evidentemente que haverá quem perca com o acordo, os especuladores imobiliários, e, como é natural quando alguém perde, sobretudo quando esse alguém se move tão bem nos meandros do poder local como entre os opinion maker, assiste-se para aí um movimento de histeria colectiva a condená-lo e rotulá-lo de “bolchevique”, “de esquerda”. Não o vejo nem como uma coisa nem como a outra, aliás, como vimos, a sua legitimação pode fazer-se mesmo à luz da cartilha neo-liberal. Vejo-a, sim, como a atitude de dois candidatos, eleitos pelos cidadãos, a agir em benefício dos cidadãos e com objectivos para uma cidade que se quer povoada. Coisa rara e que não lembraria nem ao diabo, no país em que o rei vai nu e em que é raríssimo que alguém se lembre de o vestir, apesar de todos o saberem nu. Naturalmente que agora, mal habituado, o rei bufa de calor, apesar de vestido apenas a 20%.

Pó!

Na minha empresa precisámos de 1 funcionário para uma promoção de vendas, a ter lugar brevemente e que terá a duração de dois dias. Tratando-se de trabalho temporário, mesmo temporário, lembrámo-nos de recorrer a uma dessas maravilhas do mercado que "dão um trabalho e não um emprego". Para os dois dias, para 14 horas (7+7), pediram-nos entre 120 e 180 euros. "Chulice!", pensámos. E "pó...!" com eles.
Posta a ideia de parte, quisemos saber se a chulice era dupla. Pusemo-nos na pele de alguém que precisa de fazer umas carocas para ganhar uns cobres extra e telefonámos a perguntar o valor hora que receberíamos. Ficámos a saber que a empresa mais barata (a dos 120 euros) paga aos seus “colaboradores” 3,5 euritos por hora (49 euros pelas 7 horas) e a mais cara (180 euros) 4,5 euros (63 euros). Gratos pelas informações e… pó...!