terça-feira, 24 de julho de 2007

Ler os outros: Cinco dias

«O presidente que se declara ‘instância não própria”

(…) Disse Cavaco: “Quando a legislação não é aplicada, os cidadãos podem recorrer a instâncias próprias, ao sistema de justiça”;”[É] às instâncias próprias, judiciais, que compete analisar se há ou não cumprimento da lei e, se não há, aquilo que deve ser feito”.

Assim, à partida, fica-se com a ideia de que o que terá sido perguntado a Cavaco é que opções tem uma madeirense que queira interromper a gravidez nas primeiras dez semanas, de acordo com a lei que ele próprio promulgou. Se foi essa a pergunta, ficamos então a saber que para o presidente a opção será colocar um processo (a quem? Ao hospital que nega a interrupção? Ao governo regional? Ao Estado? Ao destino?) — e, naturalmente, esperar pelo resultado. Umas semanas, uns meses, uns anos — não há pressa e, de caminho, terá nascido mais uma criança, que tanta falta faz a um país com tão mísera natalidade (isto se a mulher não abortar clandestinamente, o que a colocará, então, em condições de ser ela a processada, para além de lhe pôr em risco a saúde, mas isto são minudências).

Claro que a pergunta também pode (e deveria) ter sido: ‘Senhor presidente, o que acha da recusa do governo regional da Madeira em aplicar a lei?’

Não sabemos. Mas sabemos, sem sombra de dúvida, que Cavaco decidiu não condenar a posição do Governo Regional. E declarar-se como ‘instância não própria’ para a sua resolução.
Assina Fernanda Câncio no Cinco Dias (ler o resto)

Tecnologia & sucesso

«Perguntas de primária para alunos do 9.º ano

Meia dúzia de ‘alunos’ e um ‘professor’ demonstraram como funciona o quadro interactivo. O ‘professor’, funcionário do Ministério da Educação, chamava alguns ‘alunos’, à vez, para resolver problemas no quadro. Nos monitores nas secretárias, surgia a imagem criada no quadro.

Nas perguntas de resposta fechada, bastava carregar num dos botões de um joy-stick sem fios. Os ‘alunos’ estudam entre o 3.º e o 9.º anos – alguns dos problemas colocados na demonstração eram do Ensino Primário, pelo que foi fácil resolvê-los. Alguns até de costas voltadas para o quadro conseguiram responder certo. Afinal, foi uma empresa que se “propôs para fazer a demonstração”, explicou a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, reconhecendo não saber se as crianças foram recrutadas num ‘casting’. “É um aspecto de pormenor”, disse.»

Para o baú de recuerdos

Mais uma relíquia para o baú de memórias de um Governo com prioridades mediáticas, mais um “pormenor irrelevante”, segundo Maria de Lurdes Rodrigues. Alguém se lembrou de agendar a apresentação do plano tecnológico para as escolas em tempo de férias e logo outro alguém se lembrou que não há crianças nas escolas durante as férias. Podia lá ser! Afinal o que é uma escola sem crianças?
Mas estava escrito no destino que aquele seria o dia para o salto, o país não podia esperar mais. Tinha que haver uma solução, de preferência, de mercado. Então alguém teve outra ideia, pagar a uma meia dúzia de criancinhas, daquelas com ar tecnológico, das que sabem mandar mensagens com o telemóvel e brincar com a playstation (das espertas). E assim foi. Lá se recorreu ao trabalho infantil – note-se que ir à escola deve ser o trabalho infantil – e lá se satisfez a urgência da apresentação, cortando-se preciosas semanas ao nosso atraso de décadas e abraçando o futuro. Daqui a uns anos, que ninguém se esqueça que podíamos estar umas semanas mais atrás no nosso desenvolvimento tecnológico e que, se atalhámos caminho, a alguém o devemos: a José Sócrates, à sua fiel Maria de Lurdes e, claro, a estas adoráveis criancinhas. À data já serão todas engenheiras (*).



(*) com curso reconhecido pela Ordem dos Engenheiros e pagas a 30 euros.