sexta-feira, 13 de julho de 2007

A semana, de relance (4)

Acendi a televisão. Era um programa, imparcial, sobre as eleições em Lisboa. Prometia. O convidado para fazer os comentários era o sociólogo Manuel Vilaverde Cabral. Em fundo, o comício do vencedor anunciado, António Costa. Depois, o comício de António Costa e em fundo, os comentários de Vilaverde Cabral. Depois, cada vez mais em fundo, os comentários e análises de Cabral e o comício de António Costa, com o convidado especial José Sócrates. E depois de 20 minutos assim passados, apaguei a televisão, sem ver nada sobre qualquer dos outros candidatos.
Foi assim a semana nos media, foi assim a campanha. Uma formiga atropelada por atravessar a rua fora da passadeira e lá aparecia António Costa a dizer das suas sobre formigas e, claro, sobre trânsito. Em fundo, um ou dois dos demais candidatos, afinal os media são plurais e independentes. Duas pombas soltaram três valentes caganitas sobre o cabelo de uma senhora “bem” no Marquês, que berrava que nem uma capada ao ver o estrago sobre o seu penteado magnífico, notícia choque de silly season de um qualquer jornal radiofónico, e lá aparecia, por coincidência, António Costa a dizer das suas sobre pombas e, claro, sobre problemas ambientais em Lisboa. Em fundo, um ou dois dos demais candidatos. Costa, inevitavelmente, não fosse ele o vencedor. Costa, o vencedor, não fosse ele o inevitavelmente escolhido por rádios e televisões. Já ganhou, vai ganhar.

A semana, de relance (3)

Outro destaque da semana vai inteirinho para as estatísticas demográficas do INE, publicadas esta semana, que dão o alerta quanto à natalidade em Portugal, a mais baixa de sempre e uma das mais baixas de todo o mundo. De acordo com aquele organismo, em 2006 houve menos 4106 nascimentos que em 2005, uma queda de 3,75% (tinha sido de 2,9% entre 2004 e 2005), tendência que, a manter-se, projecta uma perda de um quarto da actual população até 2050.

Como a prática da interrupção voluntária da gravidez no SNS apenas começou na semana passada, o argumento daqueles fervorosos defensores da vida, “pois, o aborto!”, cai por terra e, provavelmente, as causas económicas e a insegurança no trabalho não serão, de todo, de ignorar-se.
Quanto a políticas de incentivo à natalidade, deixo um cheirinho do que foi feito na Alemanha, cujo número de nascimentos por mulher em idade fértil é, tal como em Portugal, de 1,37. A peça fala de outros países em que se sabe que o mercado não tem filhos e onde se fala, também, dessa tal de flexigurança, na versão segura. (ler
aqui)

A semana, de relance (2)

Um segundo destaque vai para a notícia, desmentida por Henrique Granadeiro, de uma carta que lhe teria sido escrita por Marques Mendes para favorecer a empresa Fix. A acusação partiu do PS que, na semana que antecede as eleições para a CML, descobriu tudo.
Achei estranho que Fernando Negrão não tenha saído a terreiro em defesa do seu líder, negando qualquer tentativa de interferência daquele na maior empresa portuguesa de electricidade.

A semana, de relance (1)

A semana começou com a notícia do negócio milionário, proporcionado pela reestruturação das Administrações Regionais de Saúde (ARS), que possibilitará que a conferência de facturas e receitas passe a ser feita por um privado. Um contrato de 30 milhões de euros que cairá que nem ginjas aos donos da empresa adjudicatária do concurso (?) público que será aberto.
Como informação adicional, para quem não o saiba, os sistemas contabilísticos do sector público e do sector privado não são iguais e a especialização em contabilidade pública não é imediata. Um pequeno obstáculo facilmente ultrapassável pela eficiência de uma força viva do mercado, premiado por um 30 seguido de uma enormidade de zeros. Ficará assim comprovado que o outsourcing tem mesmo vantagens, note-se que se perderia esta oportunidade de negócio caso o serviço continuasse a ser assegurado no seio do cinzento sector público. Tudo indica, por isso, que este exemplo de eficiência se repetirá nos tempos mais próximos e haverá novos euromilhões do mesmo tipo.