segunda-feira, 18 de junho de 2007

O fracasso e a modernidade

Quando uma empresa se torna ingerível, perante a admissão da incapacidade para reverter a situação e torná-la viável, ditam o bom senso e as leis do mercado que, das duas, uma: ou o empresário transfere a gestão e/ou propriedade da empresa a quem saiba geri-la ou, no caso de não agir a tempo, a empresa abre falência. Nas duas situações o empresário deixa de o ser – empresário – e resulta óbvio o fracasso.
No paradigma de governação dominante actualmente não se passa o mesmo. O governante admite que se sente incapaz para promover uma gestão pública eficiente e, tal como no sector privado, transfere a sua gestão e/ou propriedade para um terceiro. Apesar disso, ao invés de fracasso, a ideia que fica é a de gloriosa modernidade e sagacidade política. Outra diferença é a de que, ao contrário do empresário, que deixa de o ser, o governante continua em funções convencido do dever cumprido. Promoverá uma política de saúde sem ser dono das unidades hospitalares, uma política de ensino superior sem ser dono das universidades.

Era precisamente aqui que queria chegar, às 99 páginas e 184 artigos da
Proposta de Lei do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, aprovada no Conselho de Ministros de 14 de Junho para submeter à Assembleia da República, que prevê a transformação das Universidades em Fundações sujeitas a regras de direito privado.

Viagem a um mundo totó

(Des)engenheirices II

A noticia que correu a blogosfera este fim-de-semana foi a da constituição como arguido de António Balbino Caldeira, autor do blog “Do Portugal Profundo”, o homem que puxou o fio do novelo “engenheirices e desengenheirices” de José Sócrates. Começa a parte II da novela que já enjoava, talvez com os detalhes não revelados na Parte I. Uma surpresa, porque Sócrates seria o maior interessado em deixar cair no esquecimento o tema que agora renasce.

Expressamos aqui a nossa solidariedade para com o António, não seria um qualquer que teria a coragem e o engenho para fazer o trabalho que ele fez. Votos de continuação de bom trabalho, a coragem seguramente não lhe faltará.

Anedotas em contra-mão

No tempo das anedotas do Samora havia uma em que, após lhe terem dito que nos países desenvolvidos se conduzia pela esquerda, aquele dá a seguinte ordem ao ministro responsável pelo trânsito: “Camarada, a partir de segunda-feira todos os carros circulam pela esquerda. Se a medida for bem acolhida, então na semana seguinte os camiões passam também a circular pela esquerda.”

Não tem muita piada, bem sei. Tal como hoje, passados 20 anos, em Portugal pode ler-se sobre uma ministra que foge com o rabo (*) à seringa, após ter colocado uma TLEBS também em sentidos contrários:
ler aqui. Até quando lhe permitirão conduzir em contra-mão?

(*) Não seríamos tão cínicos ao ponto de usar de diminutivos para uma coisa que se vê tão grande.

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (1)

Mário Soares foi orador na sessão de abertura da “Universidade de Verão”, promovida pela Federação Distrital de Setúbal do Partido Socialista, subordinada ao tema “O Socialismo e o futuro”. Na intervenção que fez disse “coisas de outros tempos que não se coadunam com os tempos modernos”, como se diz agora quando faltam argumentos válidos que fundamentem uma contraposição, e fez lembrar um PS do qual resta muito pouco. Vou destacar algumas das passagens mais importantes da sua intervenção. Ao mesmo tempo que as lia, ia tentando lembrar-me de alguma personalidade entre os históricos do PS que pudesse servir de referência ao actual PS de José Sócrates. Fiz o mesmo quanto às referências ideológicas e, tal como quanto às personalidades, apenas me lembrei do deserto e de Mário Lino.

“A palavra socialismo não está hoje muito em moda, há que reconhecer isso, mas não é preciso ser profeta para vos garantir que, mais ano, menos ano, vai voltar a estar em moda e com força. (…). Basta compreender o estado em que se encontra o mundo, as desigualdades a que conduziu a globalização desregrada, para se perceber o que aí vem: descontentamentos em cadeia, revoltas contra as gritantes desigualdades sociais, confrontações, conflitos, quem sabe mesmo inesperadas revoluções”.
Mário Soares comentou a “riqueza ostensiva e arrogante” a par da “pobreza em constante progressão” e sublinhou que “a pobreza e as desigualdades sociais não são fatalidades. A culpa é do sistema injusto que nos rege. (…) O capitalismo financeiro especulativo, sem preocupações sociais, nem ambientais, sobretudo sem valores éticos, não tem interesse em suscitar a vontade politica de luta a sério contra as desigualdades. Os únicos objectivos que lhes interessam são o lucro pelo lucro. O sucesso a qualquer preço. A actual situação no mundo pode conduzir a uma crise civilizacional e é aqui que a consciência socialista vai reaparecer em força, porque um mundo melhor é possível”

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (2)

"O colapso do sistema soviético, em 1989, veio alterar a ordem do mundo e, com o fim da guerra fria, os Estados Unidos sentiram-se vencedores e têm vindo a comportar-se como donos do mundo, querendo impor a universalização da democracia liberal. (...) Durante os anos que precederam a viragem do século, os Partidos Socialistas Europeus, enquanto estiveram maioritariamente no poder, deixaram-se influenciar pelo neo-liberalismo. Erros gravosos que estão a pagar muito caro, como é exemplo a derrota socialista em França”
Criticou a intervenção americana no Iraque, manifestou as suas preocupações com a guerra no Afeganistão, que pode causar problemas à NATO, e a intervenção, sem justificação, de Israel no Líbano. “A União Europeia, apesar de não ter seguido a América nas suas politicas agressivas, foi omissa. (…) Para que a União Europeia possa ter um papel de moderadora no mundo actual terá que criar mecanismos para falar numa única voz”.

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (3)

“É necessário responder às expectativas das pessoas e resolver os seus problemas. (…) Os cidadãos estão fartos de promessas não cumpridas, desconfiam dos políticos, o que é triste”. Alertou os políticos para terem consciência de tudo isto, “procurem não ser demagogos, tentem não ser autoritários e arrogantes. (…) Os socialistas precisam demonstrar que as suas vidas são a prova dos seus ideais.”

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (4)

Sobre as relações entre a classe política e o mercado, disse que “a politica é uma das actividades mais nobres, tem que ser prestigiada junto das massas populares. (…) Pessoas com consciência cívica afastam-se da política e, se os melhores se afastam da política, quem fica a perder é a comunidade”.

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (5)

“O Governo PS reduziu o défice, mas criou descontentamentos e agravaram-se as desigualdades sociais”. Nesse sentido considerou que os desafios que se colocam ao actual Governo, liderado pelos socialistas, são em primeiro lugar – “ir ao encontro das pessoas e construir um diálogo com os Sindicatos”, com a classe média e meios intelectuais, em segundo lugar, realizar uma excelente Presidência Europeia, “lançando ideias novas e insistindo nas antigas como a Estratégia de Lisboa”.
“Há que promover reformas sociais que assegurem a sustentabilidade do modelo social Europeu, reformas que se preocupem com a inclusão social, que reduzam as desigualdades, nomeadamente, com a implementação da “Estratégia de Lisboa”, viabilizando o desenvolvimento económico através de mais inovação e mais educação. (…) Espero que a Estratégia de Lisboa seja retomada na nossa presidência. (…) Recordem-se os excelentes resultados da sua aplicação na Finlândia.”

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (6)

“Com o 25 de Abril, as pessoas deixaram de se considerar súbditos e passaram à categoria de cidadãos e não querem perder esse estatuto”.

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (7)

Mário Soares defendeu o alargamento do papel do Estado como regulador da sociedade, salientando que isto é “o mínimo que um socialista pode e deve exigir de um governo que se reclame do socialismo”. Uma das matérias em reflexão foi a flexisegurança, referindo que este é um conceito de direita e que tem algumas dúvidas sobre este conceito, salientando que é uma palavra que “não soa bem” e cujo significado o deixa “muito desconfiado”.

“Coisas de outros tempos”, por Mário Soares (8)

Mário Soares criticou aqueles que se consideram “donos das secções do Partido Socialista” e sublinhou que um partido não pode ser “um centro de interesses”. “É importante que os partidos tenham alma, que se discuta, que se liguem as bases ao topo, que se desenvolva a consciência politica.”