Mário Soares foi orador na sessão de abertura da “Universidade de Verão”, promovida pela Federação Distrital de Setúbal do Partido Socialista, subordinada ao tema “O Socialismo e o futuro”. Na intervenção que fez disse “coisas de outros tempos que não se coadunam com os tempos modernos”, como se diz agora quando faltam argumentos válidos que fundamentem uma contraposição, e fez lembrar um PS do qual resta muito pouco. Vou destacar algumas das passagens mais importantes da sua intervenção. Ao mesmo tempo que as lia, ia tentando lembrar-me de alguma personalidade entre os históricos do PS que pudesse servir de referência ao actual PS de José Sócrates. Fiz o mesmo quanto às referências ideológicas e, tal como quanto às personalidades, apenas me lembrei do deserto e de Mário Lino.
“A palavra socialismo não está hoje muito em moda, há que reconhecer isso, mas não é preciso ser profeta para vos garantir que, mais ano, menos ano, vai voltar a estar em moda e com força. (…). Basta compreender o estado em que se encontra o mundo, as desigualdades a que conduziu a globalização desregrada, para se perceber o que aí vem: descontentamentos em cadeia, revoltas contra as gritantes desigualdades sociais, confrontações, conflitos, quem sabe mesmo inesperadas revoluções”.
Mário Soares comentou a “riqueza ostensiva e arrogante” a par da “pobreza em constante progressão” e sublinhou que “a pobreza e as desigualdades sociais não são fatalidades. A culpa é do sistema injusto que nos rege. (…) O capitalismo financeiro especulativo, sem preocupações sociais, nem ambientais, sobretudo sem valores éticos, não tem interesse em suscitar a vontade politica de luta a sério contra as desigualdades. Os únicos objectivos que lhes interessam são o lucro pelo lucro. O sucesso a qualquer preço. A actual situação no mundo pode conduzir a uma crise civilizacional e é aqui que a consciência socialista vai reaparecer em força, porque um mundo melhor é possível”