terça-feira, 5 de junho de 2007

Normaizinhos normalizados

Com o intuito de lançar um debate sobre Arte, Beleza e contextos, o Washinghton Post, no passado dia 12 de Janeiro, pôs um dos violinistas mais famosos do mundo a tocar numa estação de metro da cidade de Washington, L’Enfant Plaza, em hora de ponta. A estação não foi escolhida ao acaso, é frequentada por uma classe média-alta apreciadora e habituada a pagar bem para assistir a espectáculos de música dita erudita. Às 7.51 da manhã, vestido de jeans e boné de baseball, colocado ao pé de um cesto de lixo, Joshua Bell tocou 6 peças clássicas durante 43 minutos. Nem ele, nem o seu Stradivarius do Século XVIII, de 3,5 milhões de dólares, conseguiram arrancar muito mais do que pura indiferença às 1097 pessoas que passaram por si e os ouviram.

Lembrei-me de várias coisas ao ler o artigo linkado no início deste post. Daquela pose de entendido de certos amantes da arte, que sempre dizem o que se espera ouvir deles. Daqueles críticos de vinhos que nunca falham nas suas apreciações, de catálogo ao lado e de luz bem acesa, não vá o diabo tecê-las e confundirem um tinto com um branco. Das rádios que se ouvem por aí, impossíveis de reconhecer pela diferença na música que passam, cada uma mais igual que a outra. Da tonalidade toda-a-gente do cinzento dos carros. Das listas de blogs recomendados por essa blogosfera fora, com assinaláveis semelhanças e muito poucas diferenças entre todas elas. De meia dúzia de opinion makers, donos de uma verdade orientada para a audiência.
Onde diabo ficou o arriscar? Seguimos os nossos gostos, cultivamos gostos próprios ou gostamos do que os outros nos mandam gostar? Uma sociedade que não arrisca na novidade será sempre uma sociedade de normaizinhos normalizados, onde fazer e dizer o que os outros esperam é a chave do sucesso. Um rebanho onde o cego pode ser critico de pintura, onde o idiota profere as maiores enormidades e suscita o aplauso geral, onde o engravatado e bem falante, medíocre e vazio de ideias, pode ser governante. Onde, tal como no metro, a qualidade e a genialidade passam despercebidas porque, "curror!", até podia parecer mal... e o lixo ali tão perto.

Informação séria e isenta

«Inocente, vítima de uma cilada e várias vezes ameaçado, injuriado e agredido pela Polícia Judiciária (PJ) de Coimbra. Foi assim que António Costa se apresentou, ontem à tarde, ao colectivo de juízes da Figueira da Foz, presidido por Jorge Loureiro, auxiliado pelos juízes Miguel Veiga e Gonçalo Barreiros.» DN

O título de capa do DN poderia bem ser “António Costa, assassino em série, responde pelos seus crimes», promovendo-se a confusão de quem lesse as gordas expostas nos quiosques de todo o país entre este António Costa e o António Costa candidato Socialista à CML, desvirtuando-se assim a função de informar de um jornal. Seria, por isso, reprovável.

No entanto, se acontecesse não seria inédito. Há dias, podia ler-se no Correio da Manhã, com honras de capa, «Fisco penhora Sá Fernandes». Também não era o candidato do Bloco de Esquerda à CML, mas quem lesse ficava com essa ideia.

Observem-se as particularidades deste último exemplo de jornalismo isento. Se clicar
aqui, o primeiro resultado da pesquisa é a pérola jornalística referida acima. Hoje ainda se lê o que lá estava:

Curioso será verificar que, ao clicar, a notícia desapareceu misteriosamente. Sabemos que lá esteve, tanto pelos comentários de alguns leitores felizes com o que acabavam de ler, como pela referência do Portugal Diário. Será que alguém roubou o texto da notícia? Talvez possa ter sido alguma criança a quem não tenha sido ensinado que em caca não se mexe.

Repórter buzina

Ouvia, há bocado, o jornal das 9 na Antena 1. O espaço de antena da notícia do buzinão na Ponte 25 de Abril, em protesto contra o episódio do deserto de Mário Lino, foi completamente ocupado pela repórter escalada para o local para fazer a sua cobertura, preocupadíssima em justificar a barulheira de buzinas com a sua presença. Segundo ela, os automobilistas buzinavam porque viam que ela estava ali. O buzinão era o dela e ela não se cansava de o buzinar aos ouvintes. No Público, a música relatada era bem distinta. (ver aqui)