quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

A competitividade "flexigurante"

Tem-se falado muito em flexigurança e na necessidade imperiosa de flexibilizar os despedimentos como forma de tornar a nossa economia mais competitiva. Torna-se, por isso, oportuna a consulta do Código de Trabalho, para sabermos do que estamos a falar.

O nosso Código do Trabalho prevê uma indemnização de “Um mês de retribuição de base e diuturnidades por cada ano completo de antiguidade, com o mínimo de três meses” no caso de despedimento colectivo. No caso de despedimento individual, a nossa legislação prevê indemnizar o trabalhador por todos os danos patrimoniais e não patrimoniais decorrentes da ilicitude do despedimento; reintegrá-lo no seu posto de trabalho sem prejuízo da categoria e antiguidade, quando o empregador não alegar que não há condições para a relação de trabalho (microempresas); pagar as retribuições que o trabalhador deixou de auferir desde 30 dias antes da data de propositura da acção até à decisão do tribunal, descontando-se a este valor o subsídio de desemprego que o empregador deve entregar à SS e desconta-se também o valor recebido em virtude do despedimento.
É isto que o empregador tem de pagar no caso de lhe apetecer despedir um qualquer trabalhador sem causa que o justifique. Será demasiado?

Que tipo de emprego se cria e que competitividade se ganha ao “flexibilizar” isto? Será justo ser o Estado a pagar por inteiro o capricho do patrão a quem lhe deu um súbito apetite de despedir? Deverão os portugueses perder o direito a uma vida estável, com trabalho estável e relações de trabalho baseadas na boa fé? Estas são algumas das questões centrais em todo este processo. Não ser produtivo, ser desinteressado, ser desobediente são algumas das razões objectivas previstas no actual Código de Trabalho para o despedimento com justa causa, sem qualquer indemnização. Requer apenas a competência do empresário ou entidade empregadora para instaurar um processo disciplinar que formalize esse despedimento. Fica acima o link para o documento e aqui o convite à sua leitura, apenas desse modo se poderá formular uma opinião fundamentada sobre o que está em causa.

Vermelho e Branco

Apresentamos hoje duas formas de roubar. A primeira, a forma suja, em tons de vermelho vem no JN:

«O Millennium bcp está a instalar um sistema inovador nas máquinas multibanco (ATM) que inutiliza as notas sempre que os terminais forem roubados. Quando a caixa automática sofrer um impacto forte ou for deslocada, o sistema espalhará tinta pelos cacifos das notas, manchando o dinheiro de vermelho. (…)»

A segunda vem no DN, branquíssima. Branco mais branco não há.

«Exigir valores mínimos para a abertura de uma conta à ordem ou aplicar-lhe custos de manutenção superiores aos permitidos por lei são práticas recorrentes na banca portuguesa, de acordo com um estudo a nove bancos, efectuado pela revista Dinheiros & Direitos de Março/Abril, da Deco. Para esta associação de defesa do consumidor, trata-se de "graves entraves à contratação" de uma conta à ordem no regime de serviços mínimos, uma legislação criada em 2000 e à qual alguns bancos aderiram voluntariamente. (…) Por exemplo, no Millennium bcp, o custo de manutenção de conta pode atingir 6,14 euros por ano, com o cartão Free, ou 10,64 euros, com o cartão Electron (lei impunha um mínimo de 3,86 euros em 2006, ou seja, 1% do salário mínimo nacional)

Do "Orgulhosamente sós"

«A anunciada despromoção das Urgências do Hospital de Chaves desencadeou uma onda de revolta entre os transmontanos
Mais de cinco mil pessoas bloquearam ontem o trânsito que liga Chaves à fronteira com Espanha, em protesto contra a reestruturação prevista nas Urgências dos hospitais da região. Um dos populares chegou a erguer uma bandeira espanhola, perante os aplausos gerais.(…)» in CM

«
Populares e militares da GNR voltaram ontem aos confrontos em Valença quando cerca uma centena de pessoas protestaram, em várias artérias da vila, contra a exclusão do concelho da rede de urgências. (…)» In DN


«
A precipitação com que foi colocada na agenda do Ministério da Saúde (MS) a discussão da reestruturação da rede de urgências ameaça tornar-se num erro fatal para o ministro Correia de Campos. Numa altura em que as trocas de acusações com autarcas tomaram o lugar aos argumentos, são unânimes as vozes, de agentes da saúde a políticos, mesmo no próprio PS, que falam em prematuridade. Por muito razoável que seja considerada a proposta conhecida, a rede de urgências não deveria ser anunciada sem haver respostas alternativas no terreno. Ou seja, uma rede de transportes de emergência adequada e cuidados primários reorganizados e articulados com os hospitalares.

Tecnicamente correcto

Apesar de considerarem a proposta da Comissão Técnica de Apoio ao Processo de Requalificação das Urgências "tecnicamente correcta", médicos e enfermeiros alertam para tudo o que falta fazer antes de pensar em encerrar serviços de urgências. Para o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), padece de ambição na rede do interior e não reflecte a realidade do país. "Mede distâncias entre sedes concelhias mas não valoriza as aldeias", diz-nos Pedro Nunes, para quem "este relatório não se compreende sem estar montado um sistema de transportes" que o complete. Mesmo diapasão na Ordem dos Enfermeiros (OE), que aguarda uma reunião com o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).

Ora nem este poderá, para já, adiantar nada, arredado que está de todo este processo. Fonte do INEM admitiu ao JN não estar o instituto, sequer, a par dos últimos andamentos de todo o processo no MS. Tão-pouco quis adiantar os planos futuros da emergência médica, remetendo a questão para Correia de Campos.

USF atrasadas

Para lá do transporte, a bastonária dos Enfermeiros, Maria Augusta de Sousa, pergunta pela reorganização dos cuidados primários e a criação das Unidades de Saúde Familiar (USF), única capaz de dar uma resposta que alterasse de facto o perfil das urgências em Portugal. "Estamos numa fase em que a implementação das USF está mais lenta do que seria previsível".

Na verdade, apenas 48 USF estão a funcionar, na sua maioria afastadas do interior do país. Das 141 candidaturas que entraram na estrutura de missão que as acompanha, 73 estão aprovadas, equivalendo a um ganho assistencial de 89 mil utentes. Contudo - e apesar de o ministro ter argumentado com a prioridade das USF a instalar no Minho quando foi confrontado com o protesto contra a instalação de uma urgência básica em Monção e não em Valença, que tem actualmente um serviço de atendimento permanente no centro de saúde -, o próprio responsável da estrutura, Luís Pisco, alerta para a necessidade de "separar claramente os cuidados primários de uma rede de urgências". As USF, diz, "não vão fazer as vezes das urgências". Apenas organizarão a resposta evitando que casos não urgentes vão parar aos hospitais. Fundamentada ou não, a reacção das populações "é incontrolável", lembra a bastonária da OE, pelo que deveria haver alternativas a mostrar-lhes.

Manuela Arcanjo, ex-ministra da Saúde socialista e que tentou também reorganizar as urgências, resume simplesmente apontando a opção estratégica de Correia de Campos. "Decide e depois logo se vê". A proposta, diz, apareceu "de repente, sem grandes explicações e preparação", estratégia para evitar agitação. Ora, carece de respostas alternativas - ou essas não têm sido passadas à opinião pública, diz a ex-ministra, que afirma, contudo, "confiar" que o ministro esteja "bem assessorado" e tudo se resolva em bem.

Decisão em Junho é erro

"É cedo", prefere dizer claramente o deputado socialista Ricardo Gonçalves, membro da comissão parlamentar da Saúde, para quem a sua presidente, a também ex-ministra da Saúde Maria de Belém, preferiu remeter quando o JN a contactou. O deputado, eleito por Braga, louva o espírito de democracia "aberta" evidenciado pela divulgação da proposta de rede de urgências, mas lamenta-a. Não deveria ser conhecida porque antes da sua discussão falta, diz como os outros, organizar tudo o que está a montante de uma urgência. Mais uma vez, os cuidados primários. A tomada de uma decisão política em Junho, diz, "não deveria acontecer". »