quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Abracadabra! Um passe de mágica e o Ámen português

Os dados do desemprego divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística são os piores dos últimos 21 anos, só encontram paralelo no longínquo ano de 1986, o ano da adesão à então CEE. Mas se os números já por si configuram um cenário negro, a forte subida dos 7,4% no 3º trimestre de 2006 para os 8,2% registados no final do ano pioram-no ainda mais. Não obstante o exposto, a reacção do Governo surpreende, tanto pela ligeireza da sua abordagem, como ainda pelas soluções apresentadas.

Confrontado com os dados do INE, o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, José Vieira da Silva, considerou que o aumento do desemprego no quarto trimestre «é um momento e não uma tendência».

São 445 portugueses que ficam diariamente sem trabalho, nada de preocupante, apenas um momento. A deslocalização de empresas é, então, um momento e não uma tendência. Ainda no momento de Vieira da Silva não estarão incluídos, por exemplo, os 1200 trabalhadores despedidos da OPEL, os trabalhadores da GESTNAVE a quem este Governo propôs a rescisão por “mútuo” acordo ou os 3000 e tal estagiários da função pública que este Governo de esquerda reformista se prepara para dispensar.

A tendência deverá estar, então, nas soluções apresentadas. A tendência será o combater do desemprego com mais desemprego, basta a palavra mágica do momento: flexigurança. Ela estará sobre a mesa das negociações amanhã em sede de conselho de ministros do emprego da União Europeia. Os representantes dos estados-membro deverão subscrever as recomendações da Comissão Europeia para aprofundar a chamada Estratégia de Lisboa, o que, no caso português, passa por uma reforma da legislação laboral de modo a facilitar os despedimentos individuais. "Os trabalhadores têm de ser capazes de mudar facilmente e com confiança de um emprego para outro", disse o comissário europeu Vladimir Spidla, esta é a solução oficial da União para responder aos desafios da globalização, os números para ele são também apenas um momento. Abracadabra! Um passe de mágica e o Ámen português. Bastará acreditar.

DN Humor

Desconhecia que o DN tinha uma nova secção humorística. Mas tem, bastante imaginativa, e abaixo republicamos o ponto alto desta peça do melhor humor, escrita pelo humorista de serviço, Vasco Graça Moura (vem lá a dizer “escritor”),que em poucas linhas diz umas quantas graçolas bem alinhavadas. Como dizem os argentinos, “¡estuvo barbaro!”.Só faltou mesmo dizer que se Marques Mendes não existisse o reinado de Sócrates seria uma Páscoa à sexta-feira.

“(…) Marques Mendes tem sido um líder inteligente e firme, agindo sem impaciências imediatistas e preocupando-se em consolidar a posição do PSD no tecido político e social do País. Recebeu a chefia do partido em condições particularmente desfavoráveis e conseguiu credibilizá-lo em pouco tempo. Apresentou propostas alternativas e/ou complementares às do Governo, fazendo-o no momento certo. E se, quanto à justiça, conseguiu estabelecer um pacto, não deve esquecer-se a oportunidade do seu trabalho incansável quanto à Segurança Social, à saúde, à educação, ao emprego, ao equilíbrio das contas públicas, ao aumento das despesas do Estado a despeito do aumento das receitas, etc., etc. Marques Mendes, nas suas intervenções, tem sabido atacar as razões por que se vive pior, por que a vida está cada vez mais cara, por que os indicadores negativos aumentam lá onde, se a governação fosse correcta, deveriam estar a descer. (…)”