sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

O referendo da despenalização

O espectáculo mediático criado à volta do referendo tem favorecido o voto no “Não” de duas formas: em primeiro lugar, a cobertura dada à posição da igreja católica – pudemos assistir a várias entrevistas com bispos e ontem com o cardeal patriarca – sem cobertura equivalente dada aos movimentos que defendem o “Sim”. Depois, transformou-se o referendo no “referendo do aborto”, desviando o debate daquilo que realmente se referenda, a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Sou, como julgo que a maior parte dos portugueses o é, contra o aborto e ninguém aborta porque sim. Mas não é isso que se referenda, e sim se faz sentido aplicar uma pena àquelas mulheres que se sentem compelidas a abortar.
Por defender uma paternidade desejada e responsável, por ser um adepto da liberdade individual na escolha do próprio destino e por ser contra a situação actual, em que a penalização da interrupção voluntária da gravidez empurra as portuguesas de recursos mais baixos a praticá-la em condições que muitas vezes as condenam à morte e em que as portuguesas que podem pagar condições dignas são empurradas a alimentar as fortunas de quem fornece o serviço em clínicas privadas clandestinas, sou pelo Sim. Com a vitória do Sim teremos uma sociedade mais justa, e esta é, quanto a mim, a questão central. E, quer ganhe o Sim, quer ganhe o Não, continuaremos a ter tanto o aborto, como adeptos da apropriação das consciências alheias.

Saúde de mercado

Vale a pena ler este post do Blog “Saúde SA”, sobre o acesso à saúde na adorada pátria do Santíssimo Mercado.
O que actualmente se defende em Portugal tão frevorosamente, como se de uma fé se tratasse, não é aquilo que os americanos viveram e renegam, a experiência de um flagrante fracasso. Nós vamos ter muito mais sorte, porque aprendemos com os erros deles, é preciso é ter fé. Não se esqueçam que os americanos não têm, como nós, a Nossa Senhora de Fátima a velar por toda a Nação.


“Nos EUA 47 milhões de cidadãos, 1/6 da sua população, não tem qualquer cobertura de saúde. Esta situação é desastrosa não só do ponto de vista social como também económico. Poucos cuidados preventivos obrigam a um maior consumo de cuidados curativos (os cidadãos s/cobertura têm direito a cuidados de emergência gratuitos) e consequentemente a um crescimento dos custos em saúde (e dos prémios de seguro).

A situação parece estar a mudar graças ao chamado efeito Romney, o ex governador do estado de Massachusetts, que em Abril de 2006 lançou um plano de saúde universal que permite a todos os habitantes deste estado a aquisição de seguros de saúde (até Julho 2007).
Recentemente, Schwarzenegger lançou um sistema de cobertura universal semelhante, baseado em seguros obrigatórios para os habitantes do estado da California: “If you can't afford it, the state will help you buy it, but you must be insured.”
Também a senadora Hillary Rodham Clinton abriu a sua campanha presidencial na semana passada com o anúncio da criação de legislação que prevê o alargamento do programa de saúde universal aos jovens com menos 18 anos.

Pese embora algumas boas notícias, os cidadãos americanos continuam decepcionados com o seu sistema de saúde devido aos elevados custos e baixo desempenho. Os EUA gastam o dobro per capita em cuidados de saúde relativamente aos países europeus e os seus resultados como a mortalidade infantil e a esperança de vida, estão alinhadas com a média europeia.link

Os maus resultados do sistema de saúde dos EUA são explicados pela maioria dos autores devido a problemas em relação à competitividade: «Competition in health care takes place along the wrong dimensions. Today, competition is structured to shift costs, to leverage purchasing power, and to restrict choice and services — none of which are designed to increase the value of the health care that we purchase.»

Alguns indicadores surpreendentes do sistema de saúde dos EUA: 44 a 98 mil mortes anuais devido a erro médico; 90 mil mortes anuais devido a infecções hospitalares; Infecções adquiridas por transfusões de sangue, constitui a oitava maior causa de morte; tempos de espera das urgências elevados, traduzidos em penoso sofrimento para os utentes devido ao atraso registado na efectuação do diagnóstico e tratamento.

Entre nós, as recentes medidas como a criação de taxas de utilização, redução progressiva da comparticipação de medicamentos; outras medidas que estão em estudo, como a actualização das taxas moderadoras acima da inflação, criação de seguros voluntários, poderão vir a constituir sérios obstáculos ao acesso dos portugueses aos cuidados de saúde.”