segunda-feira, 29 de outubro de 2007

"Estudos" e bitaites

“Há funcionários públicos a mais e os funcionários do público são menos eficientes que os do privado”. Foi a primeira coisa que ouvi, hoje de manhazinha, dito com a entoação solene que lhe deu locutor que apresenta o noticiário da rádio pública, selado com a garantia de um estudo coordenado por Roberto Carneiro e com a chancela da Universidade Católica. A mentira foi repetida mais uma vez, quando terminou a ronda pelos outros títulos. De novo a mesma voz solene e, de novo, o “Há funcionários públicos a mais e os funcionários do público são menos eficientes que os do privado. São as conclusões de um estudo da Universidade Católica.” Só depois disse que o estudo era uma sondagem de opinião: “cerca de 75 por cento entre 300 inquiridos pela Católica acham que há funcionários públicos a mais e que estes são menos produtivos que os do sector privado”. Acham. O maravilhoso mundo do bitaite, recolhido entre uma amostra de apenas 300 alminhas, que está muito longe do que o dito jornalista disse e é o contrário deste outro estudo, fora do reino do bitaite: «O relatório sobre competitividade do Fórum Económico Mundial é uma vergonha para os gestores e empresários portugueses e um elogio às instituições públicas. Portugal desceu do 31.º lugar para o 34.º entre 125 países fundamentalmente por causa do mau funcionamento das instituições privadas. Afinal, a fraca imagem do País deve-se em grande parte ao sector privado.»
Procurei depois a notícia e encontrei-a no DN. De novo, o título não coincide com o que vem depois: «
Estado funciona pior que o sector privado», que seria a conclusão desejada mas que não foi a que foi obtida.
Três observações finais: a primeira, a de que o dito estudo foi encomendado pelo INA (Instituto Nacional de Administração, um organismo público que tem na investigação uma das suas razões de existir e que, em vez de realizar o estudo em causa, pagou-o a terceiros. A segunda, a de que um estudo destes só se faz com o objectivo de avaliar a margem de manobra de um Governo a preparar eleições, que aposta
190,4 milhões de euros em estudos, pareceres, projectos e consultadorias. Seria aconselhável usar amostras mais significativas, com universos de 300 inquiridos a única conclusão fiável é a de que o dinheiro enterrado no estudo foi muito mal gasto. Finalmente, sobre a função de informar da Antena 1 e do DN, que prestaram um bom serviço ao darem o “recado” como puderam.

4 comentários:

NuNo_R disse...

bOAS...

De vagarinho se começa a desinformar as pessoas
e a incutir-lhes subliminarmente que o "privado" é sempre melhor...

Depois quando tudo setiver privatizado, o pessoal se lembrará que afinal, se grande parte dos serviços fossem estatais seria melhor...
Mas o que pudemos fazer se não alertar o Povo para essa situação, não é!?

ABR...PROF...

Anónimo disse...

Depois escandalizam-se quando alguém diz que o rei vai nu. Foi o que fez o José Rodrigues dos Santos... venham-me cá dizer que não é assim?

joaopft disse...

Em tudo isto há grande estupidez e ignorância da história. O Sector Público e o Estado desempenham um papel fundamental, pois recolhem para si próprios precisamente aquelas funções que os privados não querem fazer. Os privados, pelo menos os bem geridos, andam no mundo para fazer lucro, e por isso externalizam o mais possível despesas sociais e ecológicas, que o Estado depois não tem outra alternativa senão assegurar, sob pena de a sociedade entrar em colapso. Esta privatização das funções do Estado dará em tragédia, na medida em que os privados tentarão, a todo o custo, desfazer-se das responsabilidades sociais que necessariamente herdam quando se apoderaram de serviços públicos. Depois não se queixem com o resultado. A coesão social não é só uma ideia bonita; é uma apólice de seguro (dos poderosos).

Maria Lisboa disse...

Este estudo apenas tinha uma finalidade!

Teixeira dos Santos, como se não estivesse a par dele e por milagre a sua vinda a público não coincidisse com o 5.º Congresso Nacional da Administração Pública, onde ele ia botar faladura aproveitou para concluir que o estudo não é mais do que um reforço às medidas do governo!

Que coincidência!

Diz ele:

"Os cidadãos querem mais e melhor e que se gaste menos", afirmou o ministro, dizendo que esta conclusão do estudo "confirma o diagnóstico" que o governo fez para a reforma da administração pública.
"É isso que pretende com a reforma da administração pública", acrescentou o governante.

http://www.rtp.pt/index.php?article=304693&visual=16

O que não deixa de surpreender, para além da miséria da amostra é a sua composição.

"Do estudo participaram 53 dirigentes intermédios da Administração e 300 cidadãos, com idades entre os 30 e os 39 anos, uma faixa etária que foi seleccionada por ser das que mais contacta com os serviços públicos."

http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?id=872142

É esta a faixa etária que mais contacta os serviços públicos?! A que propósito? Não temos todos que contactar os mesmos serviços, tenhamos a idade que tivermos? Não estamos todos sujeitos a ter que nos servir destes serviços?

1ª Pergunta: não será este o escalão etário em que existem mais "boys", não será este o escalão etário em que se encontra uma geração que encontrou nas empresas a sua fuga ao serviço público e por isso tudo o que vem dele não presta?

2ª Pergunta: será que o serviço público não funciona porque os funcionários não produzem? ou srá que as chefias não gerem? será que isto não funciona porque de cada vez que há uma mudança governamental, se mudam as chefias todas, para meter os boys amigos, alegando que os cargos são de confiança política? ou será que não funciona porque a cada mudança governamental e consequente mudança de chefias mudam as leis e as regras do jogo, tornando impossível o funcionamento de qualquer sector? ou será, ainda, porque em muitas repartições se funciona à mão, ou quando existem computadores estes são do século passado? ou será porque na maioria das repartições se funciona em condições de trabalho que ninguém do sector privado imagina existir?

Peço desculpa, a 2ª pergunta são muitas, mas são quase todas parte da mesma... e nem falei da miséria de vencimentos comparados com os do privado...