quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

O exercício do auto-elogio

Esmagada pela subida de preços e pela pressão dos impostos, directos e indirectos, a sociedade civil assistiu a uma mensagem de Natal de José Sócrates a roçar a ficção.

Dias depois do Tribunal de Contas denunciar, inequivocamente, muitas dúvidas em relação ao cumprimento das metas orçamentais para 2005, o primeiro-ministro, em tom delicodoce, assumiu a redução do défice para 4,6%,
em 2006.

Certamente, em termos de opinião, seria muito mais fácil acreditar e fazer acreditar que a palavra do governo é sagrada. Todavia, ninguém pode ignorar as sucessivas mentiras dos últimos governos, de esquerda e de direita, em relação às contas públicas.

As surpresas não ficaram por aqui. Durante a mensagem, o primeiro-ministro ainda teve tempo para o auto-elogio em relação à evolução da economia e à criação de 57 mil postos de trabalho, o que constitui um insulto para os cerca de 500 mil desempregados.

De uma vez por todas, é preciso falar claro. Ninguém pode ficar indiferente ao debitar constante de discursos e mais discursos que apenas servem para tentar iludir a realidade.

A segunda mensagem de Natal de Sócrates é para esquecer. A melhoria do clima de confiança não enche a barriga dos portugueses. O chefe do governo, num momento de sinceridade política, ainda acabou por assumir que Portugal «tem ainda um longo caminho pela frente».

É verdade. O país está longe de ter ultrapassado as dificuldades, que resultam das políticas escandalosas dos últimos vinte e cinco anos. O líder do Executivo bem pode tentar dourar a pílula com falas mansas, mas mais tarde ou mais cedo os portugueses vão cobrar todos os sacrifícios que lhes têm sido exigidos.

O principal responsável pelo governo de maioria socialista, em 2007, tem de apresentar muito mais do que indicadores cor-de-rosa. Nem a tardia remodelação governamental, cada vez mais iminente, poderá servir de álibi para justificar a falta de resultados. De tanto exigir e de tanto prometer, José Sócrates está cada vez mais perto de provocar uma monumental desilusão.

Afinal, tudo poderia ser diferente. Mais sério e mais responsável politicamente. Bastaria começar a dizer toda a verdade aos portugueses. E trabalhar mais e falar menos.