sexta-feira, 17 de novembro de 2006
Uma questão de justiça
Estudo desengavetado
Há uma semana trouxemos aqui a notícia de um estudo engavetado, denunciado em conferência de imprensa por Bettencourt Picanço (STE e hoje confirmada. Para além dos números, o realce é posto na variável “agradabilidade dos resultados” que, se não verificado, confere um futuro promissor a qualquer estudo numa qualquer gaveta de um ministério.
“Os funcionários públicos auferem, em média, salários mais baixos do que receberiam se estivessem a trabalhar em empresas do sector privado. Esta é uma conclusão transversal a todo o estudo realizado pela consultora internacional Capgemini, por encomenda do Ministério das Finanças. Desde o lugar de topo na administração, director--geral, aos cargos menos qualificados, o resultado da comparação é quase sempre o mesmo: o Estado enquanto patrão paga menos do que as empresas.
E as diferenças não são pequenas. É fácil encontrar nas centenas de tabelas comparativas deste relatório de quase 300 páginas variações salariais a favor dos trabalhadores do sector privado na casa dos 50%, 70% e mesmo superiores a 100%.”
Nota: existe um estudo, mais agradável, efectuado pelo Banco de Portugal e com resultados diametralmente opostos. Sem querer entrar na questão de qual deles é mais credível, apesar da independência da auditora internacional, ambos foram pagos com dinheiro dos contribuintes e apenas um deles reflecte a realidade.
Um icon dos nossos tempos
"O lambe-botas
O lambe-botas é viscoso, sebento, rastejante, sinuoso, peganhento. Ele é o suspensório do poder. Por toda a parte, o lambe-botas insinua-se, faz-se presente, atravessa-se, estica-se em bicos de pés. Crê que é competente, e é medíocre, defende a avaliação de mérito, candidatando-se a todas as promoções de interesses, à conta de nepotismo. Agora é candidato a adjunto do subchefe e depois a professor titular.
O lambe-botas é omnipresente, joga na sombra, actua em todos os palcos. O lambe-botas é subserviente, submisso, capacho, camaleão e salta-pocinhas, muda de partido conforme os ventos mais a favor.
Na história reza que Salazar se serviu dos lambe-botas. Aliás, nunca como então tal expressão se adequou tanto à relação servil com o chefe. Talvez por isso Salazar não largasse as botas.
O lambe-botas não se extinguiu nem foi eliminado. Pulula por aí, como insecto parasita que suga quem e como pode. A dedicação sem limites faz do lambe-botas o autêntico pilar dos poderes, do mais mesquinho poder na mais humilde secção do escritório, da oficina, da fábrica e da repartição pública ao mais elevado e sagrado poder das chancelarias e ministérios.
O lambe-botas é espião, é informador, é delator. Hoje, adaptado aos tempos modernos e à moda, não usa gabardina nem se desloca de "carocha" como quando era agente daquela polícia secreta que dizem que só dava uns abanões a tempo. Eram outros tempos, esses, de fascismo, ou como nos querem agora fazer crer de: "autoritarismo salazarista". Fórmula eufemista de chamar outro nome aos bois, qual tira-nódoas da história... Hoje, nestes nossos tempos hodiernos, ele, o lambe-botas anda por aí de novo, encostado aos chefes – alguns destes, lambe-botas promovidos a tempo; outros, simples sabedores da extrema, inacabável utilidade do lambe-botas.
É vê-lo, ao lambe-botas, enfiado em tudo o que promete ascensão. Nos "media"ditos de referência, escreve e fala não para o público, mas directamente para o patrão. O artigo, a reportagem, as perguntas da entrevista são estudadas para fazer esse mimo aos senhores dos três ou quatro grupos que dominam a comunicação social. E se o entrevistado é progressista, honesto, honrado e comunista, ainda por cima, então vale tudo, má-criação, ofensa, pouca-vergonha. (...)"
E o leitor, já viu algum lambe-botas por aí?
