segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Com o Humanismo no coração

“(…)Sócrates elogiou a postura dos Estados Unidos, realçando o que considera ser a tradição de tolerância deste país.

«Quanto à visão humanista de defesa de direitos humanos não encontro melhor exemplo do que os Estados Unidos para na sua política externa valorizarem estes dois pontos», sustentou.

José Sócrates adiantou ainda que o respeito por aqueles valores «estão no coração e na Constituição» dos norte-americanos.”

Uma Europa a duas vozes e um silêncio

“Uma Europa a duas vozes recebeu, ontem, a condenação à morte de Saddam, com Londres a destacar-se no entusiasmo dos comentários. "Saúdo o facto de Saddam Hussein e de os outros acusados terem comparecido perante a justiça e prestado contas pelos seus crimes", declarou a ministra dos Negócios Estrangeiros britânica, a primeira responsável europeia a reagir. Isto sem sequer referir que a União Europeia é contra a pena capital. Essa posição seria, posteriormente, motivo de um comunicado da presidência finlandesa da UE.

No texto, lembra-se precisamente que a União repudia a pena de morte "em todos os casos e em todas as circunstâncias", não constituindo este excepção. Ainda assim, enfatiza-se que, "nos últimos anos, a UE condenou de maneira sistemática as violações extremamente graves dos direitos do homem e do direito humanitário internacional cometidas pelo regime de Saddam Hussein".

Longe, em Waco, no Texas, foi um George W. Bush indisfarçavelmente satisfeito que comentou a sentença. Assim: "Este processo é um marco nos esforços do povo iraquiano para substituir a lei de um tirano pelo Estado de direito." E disse mais: "É uma grande vitória para a jovem democracia iraquiana e o seu Governo constitucional." De seguida, entrou no avião que o haveria de levar a mais um comício eleitoral, a 48 horas das legislativas nos Estados Unidos.

Um registo efusivo só comparável ao do Irão, que, através do porta-voz do respectivo Ministério dos Negócios Estrangeiros, sentenciou ser esta a "pena mínima" a aplicar ao homem que, entre 1980 e 1988, se lançou numa guerra sem quartel contra os vizinhos persas.” In DN Online

A diplomacia portuguesa, mais uma vez, por omissão, presta vassalagem aos EUA, negando a tradição histórica portuguesa quanto à pena de morte. Se fosse respeitado o princípio da representatividade democrática do eleitorado, o repúdio seria a posição esperada e exigível: não está em causa a condenação de Sadam pelos crimes cometidos, está em causa uma posição de princípio relativamente à pena de morte que, na sociedade portuguesa, é de condenação.
Temos, então, mais uma vez a diplomacia europeia a demonstrar a habitual total desarticulação em questões em que seria importante uma resposta a uma só voz e uma diplomacia portuguesa silenciosa que, pelo menos a mim, em nada me envaidece. Como não condenar uma festa proporcionada por uma condenação à morte?