“Uma Europa a duas vozes recebeu, ontem, a condenação à morte de Saddam, com Londres a destacar-se no entusiasmo dos comentários. "Saúdo o facto de Saddam Hussein e de os outros acusados terem comparecido perante a justiça e prestado contas pelos seus crimes", declarou a ministra dos Negócios Estrangeiros britânica, a primeira responsável europeia a reagir. Isto sem sequer referir que a União Europeia é contra a pena capital. Essa posição seria, posteriormente, motivo de um comunicado da presidência finlandesa da UE.
No texto, lembra-se precisamente que a União repudia a pena de morte "em todos os casos e em todas as circunstâncias", não constituindo este excepção. Ainda assim, enfatiza-se que, "nos últimos anos, a UE condenou de maneira sistemática as violações extremamente graves dos direitos do homem e do direito humanitário internacional cometidas pelo regime de Saddam Hussein".
Longe, em Waco, no Texas, foi um George W. Bush indisfarçavelmente satisfeito que comentou a sentença. Assim: "Este processo é um marco nos esforços do povo iraquiano para substituir a lei de um tirano pelo Estado de direito." E disse mais: "É uma grande vitória para a jovem democracia iraquiana e o seu Governo constitucional." De seguida, entrou no avião que o haveria de levar a mais um comício eleitoral, a 48 horas das legislativas nos Estados Unidos.
Um registo efusivo só comparável ao do Irão, que, através do porta-voz do respectivo Ministério dos Negócios Estrangeiros, sentenciou ser esta a "pena mínima" a aplicar ao homem que, entre 1980 e 1988, se lançou numa guerra sem quartel contra os vizinhos persas.” In
DN OnlineA diplomacia portuguesa, mais uma vez, por omissão, presta vassalagem aos EUA, negando a tradição histórica portuguesa quanto à pena de morte. Se fosse respeitado o princípio da representatividade democrática do eleitorado, o repúdio seria a posição esperada e exigível: não está em causa a condenação de Sadam pelos crimes cometidos, está em causa uma posição de princípio relativamente à pena de morte que, na sociedade portuguesa, é de condenação.
Temos, então, mais uma vez a diplomacia europeia a demonstrar a habitual total desarticulação em questões em que seria importante uma resposta a uma só voz e uma diplomacia portuguesa silenciosa que, pelo menos a mim, em nada me envaidece. Como não condenar uma festa proporcionada por uma condenação à morte?