sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Venha a nós

Formam um grupo curioso. Debaixo duma capa de idoneidade e desinteressado patriotismo, conferidos pela denominação de origem controlada “Compromisso Portugal”, arrogam-se ser a voz de una sociedade civil silenciada que anseia colocar-se, a si e ao país, ao seu serviço. O seu inimigo número 1, o Estado, consome recursos que podiam ser de todos (eles) e uma Constituição que confere demasiados direitos aos portugueses e que, por isso, lhes limita a acção em prol do interesse nacional.
Então, contra os canhões marchar, marchar! Promovem reuniões periódicas onde dizem uns números, vindos sabe Deus de onde, de gente que está a mais e que há que despedir, para tornar Portugal um país com proporcionalmente menos funcionários públicos na população activa que a Meca do liberalismo, os States. apontam soluções como a da privatização de tudo, com oferta de serviço voluntário de gestão desse novo sector emergente. Propõem um modelo de Segurança Social como a que faliu no Chile e Estados Unidos, nos anos 90, o abandono da solidariedade social entre gerações e entre classes. Reivindicam a urgência de uma redução do IRC, que beneficiaria a todos (eles). Eles aí estão de novo, os amigos do Beato.

“Os cerca de 500 gestores e empresários que se reuniram na segunda convenção do Compromisso Portugal e que reivindicam para si a voz da sociedade civil gastaram um dia inteiro a falar do que o Estado deve fazer.

Sublinharam que o Estado deve despedir 200 mil funcionários. Que o Estado deve modificar radicalmente o actual sistema de Segurança Social. Que o Estado deve descer os impostos sobre as empresas. Ou seja, passaram o dia a dizer não o que podem fazer pelo país, mas o que o Estado pode fazer para tornar melhor a vida dos empresários e gestores. Convenhamos que é de menos.

O Compromisso Portugal foi certamente uma lufada de ar fresco quando apareceu. Mas dois anos depois há uma sensação de «déjà vu». Lamentam-se que das 30 propostas que apresentaram há dois anos só duas foram adoptadas. Não é surpresa. Foram todas dirigidas também ao Estado. Não estava, portanto, nas suas mãos a sua concretização.

Há dois anos havia também mais gente no Beato. Recorde-se que, na altura, era o PSD que dirigia o país. Será que o menor afluxo se deve agora a uma menor proximidade ao poder de plantão?

Dos anteriores rostos principais do Compromisso Portugal, um é agora presidente de uma empresa maioritariamente pública, outro vendeu a espanhóis a empresa que liderava, outro saiu do país para ir dirigir um banco no estrangeiro e o quarto é claramente um líder.

Foi ele que fez o discurso de abertura, onde para além de apontar um conjunto de reformas que o Estado deve fazer, falou também dos múltiplos desafios que os empresários portugueses têm de enfrentar. Mas foi uma voz isolada no Beato. É ele, contudo, que tem mais condições para vir a ser o grande líder desta geração, até porque, paralelamente, pode apresentar um indiscutível sucesso empresarial como vice-presidente da Logoplaste. Chama-se Alexandre Relvas e tem 48 anos.

Finalmente, importa destacar outra voz no Compromisso, a de José Maria Ricciardi, presidente do BESI. Muito realista, disse que não é boa ideia liberalizar os despedimentos com a classe empresarial que temos, que considerou de fraca qualidade média. Não resolve nada lembrar isso?

Pois não. Mas mostra que há quem viva com os pés na terra e que não acha que o problema do país reside única e exclusivamente no Estado.” In Expresso