Para que serve uma Autoridade da Concorrência que é desautorizada por um Governo quando as suas decisões não são do seu agrado? Que poderosos interesses moverão um ministro que se expõe ao ponto de desautorizar a Autoridade da Concorrência? Que Governo é este que diz que sacrifica os interesses dos consumidores em defesa da competitividade de uma empresa? Afinal, a quem representa este Governo?
O seguinte artigo do Jornal de Negócios sintetiza as questões acima expostas, às quais não será estranho o tema do post anterior, a promiscuidade de interesses entre o poder político e interesses privados. Não me vou alongar mais, o artigo é plenamente esclarecedor e concordo inteiramente com ele.
“O assunto é sério. Muito sério. Porque não é um negócio que está em causa. É o entendimento do Governo sobre o seu papel no futuro das empresas portuguesas. E o entendimento é: as empresas precisam de crescer para ganhar escala competitiva e o Governo deve intervir para facilitar esse caminho.
Mesmo que isso sacrifique os interesses do consumidor.
Foi isto que o Governo disse ontem, ao anular a decisão da Autoridade da Concorrência que impedia a concentração entre a Brisa e a Auto-estradas do Atlântico. O Ministério da Economia usou a bomba atómica na primeira vez que tal lhe foi pedido. Decidiu contra o regulador.
Manuel Pinho não se vai livrar de ouvir que desautorizou Abel Mateus pondo em causa as liberdades da regulação independente e até de insinuações de favorecimento ao grupo Mello. E Sócrates será apelidado de trair os princípios de concorrência que tão fervorosamente já defendeu. Mas essas não são as questões essenciais. O essencial é que o Governo considera que o crescimento da Brisa, uma empresa privada e cotada em Bolsa, é um assunto de interesse económico nacional e que isso é mais importante que a concorrência.
Frise-se: Manuel Pinho não contestou os argumentos da AdC. Nem podia, por lei, fazê-lo. O que fez foi dizer que o prejuízo para o interesse nacional da não fusão era superior ao seu benefício para a concorrência.
A lei portuguesa de Concorrência é das mais amplas na Europa quanto à admissão de recurso extraordinário. É uma carta em branco e o ministro pode fazer quase o que quiser. Foi o que fez.
Fez mal. Mesmo que o chumbo de Abel Mateus fosse contestável (e foi contestado nesta mesma coluna!), o Governo não deve escrever direito por linhas tortas.
A decisão política de Manuel Pinho é subjectiva. Ele próprio o reconhece. E essa subjectividade tem consequências. Porque fragiliza a temerária posição da AdC. Isso é mau. A AdC é um bebé, está a dar os primeiros passos e não falta quem a queira aniquilar pela via possível: a política.
Mas isso não seria importante se o Governo tivesse razão. Não tem razão. Tem opinião. A razão não foi para aqui chamada, não há fundamentação suficiente. Há uma decisão subjectiva.
Muitas empresas vão agora bater à porta do Ministério da Economia. Fica a mensagem de que em sectores sensíveis e com canais de acesso facilitados ao ministro, as arbitragens de Mateus resolvem-se na secretaria. Porque todas as empresas podem invocar a mesma necessidade de ganhar dimensão para terem escala competitiva e não serem compradas por estrangeiros. E Manuel Pinho terá dificuldade em explicar porquê a Brisa e não outras. É de interesse nacional que o BCP compre o BPI porque assim fica forte e menos vulnerável a ser comprado por estrangeiros? A Sonae pode dispensar remédios na OPA à PT porque o ministro pode preferir ter Belmiro do que Alierta à frente da maior empresa portuguesa?
Nós também temos opinião. A nossa opinião foi discordar do chumbo de Abel Mateus. A nossa opinião é de que Manuel Pinho não tem razão. O crescimento da Brisa não é mais importante para o País do que a concorrência.
Este caso tem, no entanto, um mérito: mostra que, no momento da verdade, muitos arautos do mercado livre não resistem a proteger as empresas portuguesas dos interesses estrangeiros. Sobre este Governo, estamos esclarecidos.” In Jornal de Negócios
O seguinte artigo do Jornal de Negócios sintetiza as questões acima expostas, às quais não será estranho o tema do post anterior, a promiscuidade de interesses entre o poder político e interesses privados. Não me vou alongar mais, o artigo é plenamente esclarecedor e concordo inteiramente com ele.
“O assunto é sério. Muito sério. Porque não é um negócio que está em causa. É o entendimento do Governo sobre o seu papel no futuro das empresas portuguesas. E o entendimento é: as empresas precisam de crescer para ganhar escala competitiva e o Governo deve intervir para facilitar esse caminho.
Mesmo que isso sacrifique os interesses do consumidor.
Foi isto que o Governo disse ontem, ao anular a decisão da Autoridade da Concorrência que impedia a concentração entre a Brisa e a Auto-estradas do Atlântico. O Ministério da Economia usou a bomba atómica na primeira vez que tal lhe foi pedido. Decidiu contra o regulador.
Manuel Pinho não se vai livrar de ouvir que desautorizou Abel Mateus pondo em causa as liberdades da regulação independente e até de insinuações de favorecimento ao grupo Mello. E Sócrates será apelidado de trair os princípios de concorrência que tão fervorosamente já defendeu. Mas essas não são as questões essenciais. O essencial é que o Governo considera que o crescimento da Brisa, uma empresa privada e cotada em Bolsa, é um assunto de interesse económico nacional e que isso é mais importante que a concorrência.
Frise-se: Manuel Pinho não contestou os argumentos da AdC. Nem podia, por lei, fazê-lo. O que fez foi dizer que o prejuízo para o interesse nacional da não fusão era superior ao seu benefício para a concorrência.
A lei portuguesa de Concorrência é das mais amplas na Europa quanto à admissão de recurso extraordinário. É uma carta em branco e o ministro pode fazer quase o que quiser. Foi o que fez.
Fez mal. Mesmo que o chumbo de Abel Mateus fosse contestável (e foi contestado nesta mesma coluna!), o Governo não deve escrever direito por linhas tortas.
A decisão política de Manuel Pinho é subjectiva. Ele próprio o reconhece. E essa subjectividade tem consequências. Porque fragiliza a temerária posição da AdC. Isso é mau. A AdC é um bebé, está a dar os primeiros passos e não falta quem a queira aniquilar pela via possível: a política.
Mas isso não seria importante se o Governo tivesse razão. Não tem razão. Tem opinião. A razão não foi para aqui chamada, não há fundamentação suficiente. Há uma decisão subjectiva.
Muitas empresas vão agora bater à porta do Ministério da Economia. Fica a mensagem de que em sectores sensíveis e com canais de acesso facilitados ao ministro, as arbitragens de Mateus resolvem-se na secretaria. Porque todas as empresas podem invocar a mesma necessidade de ganhar dimensão para terem escala competitiva e não serem compradas por estrangeiros. E Manuel Pinho terá dificuldade em explicar porquê a Brisa e não outras. É de interesse nacional que o BCP compre o BPI porque assim fica forte e menos vulnerável a ser comprado por estrangeiros? A Sonae pode dispensar remédios na OPA à PT porque o ministro pode preferir ter Belmiro do que Alierta à frente da maior empresa portuguesa?
Nós também temos opinião. A nossa opinião foi discordar do chumbo de Abel Mateus. A nossa opinião é de que Manuel Pinho não tem razão. O crescimento da Brisa não é mais importante para o País do que a concorrência.
Este caso tem, no entanto, um mérito: mostra que, no momento da verdade, muitos arautos do mercado livre não resistem a proteger as empresas portuguesas dos interesses estrangeiros. Sobre este Governo, estamos esclarecidos.” In Jornal de Negócios
