quinta-feira, 1 de junho de 2006

Ossos do ofício

É notório e pacificamente aceite que o jornalismo actual segue uma linha editorial super mediática. Às vezes, porém, o show não corre conforme o esperado.

Exemplo 1
Exemplo 2
Exemplo 3
Exemplo 4
Nos exemplos 2 e 3, caso os entrevistados fossem pais envolvidos na árdua tarefa de colaboração na melhoria do sistema de ensino de seus rebentos, aos quais fosse pedida opinião sobre os seus professores, conforme medida ministerial anunciada, o sistema melhoraria significativamente?

Vale a pena ler "Avaliação e opinião"

Indicado por um amigo, o blog “Véu da Ignorância” foi uma agradável descoberta. Incluímo-lo na nossa lista de blogs recomendados e transcrevemos o post abaixo, que vale a pena ler.

Avaliação e opinião

"O Ministério da Educação (ME) quer que os pais passem a participar na avaliação do desempenho dos professores dos filhos, necessária para a progressão na carreira dos docentes. Segundo a proposta de alteração do Estatuto da Carreira Docente (ECD) que o Ministério apresenta hoje à comunicação social e aos sindicatos, cada encarregado de educação individualmente vai fazer uma avaliação do trabalho dos professores que dão aulas aos seus filhos, uma apreciação que será depois tida em conta, juntamente com outros factores, para a subida de escalão por parte dos docentes."

Estou fora deste debate e não conheço os pormenores da proposta para além do que tenho lido nos jornais. Em teoria, considero que faz todo o sentido os pais terem alguma coisa a dizer sobre a forma como se desenrola o processo educativo. Recorrendo às clássicas três categorias usadas por Albert Hirschmann para estudar os processos de funcionamento e de mudança nas organizações - voice, exit, and loyalty -, a escola não deve ser apenas um espaço onde as relações de loyalty devem ser hegemónicas (onde os professores teriam, por definição, "sempre razão"), nem onde a exit seja a primeira opção (onde "quem esteja mal, que se mude", a posição liberal por excelência), mas onde a voice dos diferentes intervenientes e interessados deve poder ser articulada, ouvida, e tomada seriamente em consideração - e os pais pertencem seguramente a este rol de actores.

Agora convém ter algum rigor nas palavras usadas: falar em "avaliação" dos professores pelos pais significa que existe algum instrumento usado por estes para avaliar se o desempenho do professor é 'bom', 'razoável', 'mau', etc. Se não houver esta medida comum, então não estamos no plano da "avaliação", mas da "opinião". Isto, atente-se, não significa que a opinião dos pais não deva ser ouvida; a qualidade do processo educativo é de extrema importância para o futuro dos seus filhos, e o que os pais possam ter a dizer sobre as diversas dimensões do processo educativo deve ser ouvido atentamente. Se há um défice nesta área, então que se corrija. Mas opinar não é a mesma coisa que avaliar. A opinião pode ser absolutamente individual, subjectiva, incoerente, infundada e, em casos limite, manifestamente desastrosa (e se isto é empiricamente a excepção ou não, só a investigação o poderia revelar). Já a avaliação obriga à construção e uso de critérios minimamente objectivos/intersubjectivos que garantam a coerência e validade interna e externa do julgamento feito. E isto, parece-me, não é pêra doce - é importante que não se negligencie isto.

Se a educação é demasiado importante para ser entregue exclusivamente aos professores, também é importante que se tenha cuidado com a relevância atribuída a um certo "achismo" (o reino do "eu acho que...") a que a avaliação do professores pelos pais pode levar. A não ser que se pretenda substituir uma suposta mediocridade por outra mediocridade.” In “Véu da Ignorância

O populismo vai dando o mote da governação Sócrates. Enquanto reinar o "achismo", vamos por muito mau caminho. Reconheça-se, porém, a coerência na sua lógica de acção, rumo ao desmantelamento de tudo o que sejam serviços públicos e de tudo o que signifique estabilidade no emprego.