quarta-feira, 3 de maio de 2006

Tempo dos Mais Velhos

Neste video ficamos a saber, entre outras coisas, que crescemos mais para cima que para baixo do umbigo. Aqui.

Robin dos Bosques, versão neo-liberal

Pedro Rolo Duarte escreve hoje no DN um artigo intitulado “Dois países num só”:

"(...) Eu ouvi o debate e concordo com José Sócrates: a circunstância de os bancos serem lucrativos e eficazes na forma como rentabilizam os seus activos não pode ser crucificada, como se fosse um crime cuja pena é traduzida em taxas e impostos para cobrir as deficiências do sector público... Por pouco Louçã não defendia que é melhor não ser profissional em Portugal, sob pena de se ser tributado pela competência.

Ridícula, por ser tão óbvia, esta inversão da realidade, ao bom estilo neo-liberal. É evidente que não se tributa ninguém por ser eficiente, muito menos por ser bom profissional e competente. Já o mesmo não acontece com o lucro, que deve e tem de ser tributado, numa lógica de redistribuição, para atenuar as desigualdades referidas em passagens seguintes do artigo em que, em tom de crucificação, como se o Portugal da pobreza fosse culpado de o ser, pobre, e como se o Estado não tivesse responsabilidades em atenuar estas desigualdades de forma sustentada.
A banca tem um regime de tributação mais favorável que os restantes sectores, este é que é o facto em questão. E uma tributação mais baixa justifica-se em sectores estratégicos que passam por dificuldades e cujo desenvolvimento é de interesse nacional. Os bancos, por si só, são rentáveis, não necessitam de ajuda. É precisamente o outro Portugal que refere que a necessita. É para isso que pagamos impostos, é para isso que os bancos devem pagar impostos, sem um regime de favorecimento injustificável. O Portugal pobre não desaparecerá por existir um sector bancário forte, conseguido à custa de favores fiscais o sector bancário ficará mais forte se o Portugal pobre deixar de ser tão pobre.

"Mas, por outro lado, podem perceber-se as palavras de certa esquerda, que não são muito diferentes das palavras que se ouvem na rua, quando há qualquer coisa de absurdo, de chocante mesmo, nas páginas dos jornais e suplementos de economia, e se revelam choques frontais entre realidades dentro do mesmo país. Um exemplo apenas: na mesma semana em que o Banco Mundial, no seu World Development Report, afirma que Portugal é o país da Europa onde se regista a pobreza mais extrema, sabe-se que os lucros dos três maiores bancos privados nacionais (BCP, BES e BPI) chegam, apenas no primeiro trimestre de 2006, aos 377,8 milhões de euros.

Ou seja, no mesmo país convivem duas economias: uma não pára de crescer e de apresentar resultados – a outra parece condenada ao fracasso e deixa-nos na cauda da Europa em quase tudo, da tecnologia ao endividamento, da pobreza à literacia. Este paradoxo do mundo real dá que pensar – não no sentido de pôr os bancos lucrativos a "pagar" a crise, como pretendia Louçã, mas de perceber que não temos aqui, apenas, dois cálculos aritméticos puros e pragmáticos. Nada disso. Estamos face a duas realidades, dois mundos que convivem no mesmo território, duas formas de viver e encarar os dias, dois pólos sociais cada vez mais afastados, criando os seus abismos, fronteiras e muros. Isto é, duas populações para um só Portugal.

Um dia, Portugal não terá Norte nem Sul, não terá litoral nem interior – terá condomínios fechados de um lado, e raivas acumuladas do outro. É isso, e apenas isso, que revelam estas notícias que parecem paradoxais, quase absurdas, mas não são mais do que as suaves brisas que antecedem os temporais.”

De uma beleza estética extrema, este final de artigo. Faz-me lembrar o Robin dos Bosques, mas ao contrário… As raivas acumuladas não se resolvem senão com uma redistribuição, eficiente.