sexta-feira, 21 de abril de 2006

Orelhas de burro

De “Contigo me voy” (2006), o oitavo álbum de originais de Rosario (Flores), “El Beso” , nas palavras da própria, “Es el primer single y una de las últimas canciones que se incorporaron al álbum. Es un tema de Raúl Paz con un swing tumbao gitanito, de esos que a mí me gustan.”
Da minha parte, posso dizer-lhes que a mi también me gustó! (
ver vídeo) ¡Muy buen fin de semana para todos!

Representatividade PB

O tema forte desta semana, a nossa realidade parlamentar, foi suscitado pela impossibilidade de realizar votações na AR, na véspera do início das mini férias da Páscoa, quando se constatou a ausência de 120 dos 230 eleitos e mereceu as reacções mais variadas a mais este episódio triste e rocambolesco.

A imagem dos nossos representantes e a sua qualidade, quer quanto a conhecimentos técnicos, quer mesmo quanto à falta de ética nas suas condutas, ficaram evidenciadas. Referindo-se aos parlamentares, Pacheco Pereira chegou mesmo a dizer que "são pessoas que nunca, num país civilizado, deveriam ser deputados". "Um líder de bancada parlamentar", confidenciou Lobo Xavier, "só tem confiança em 20% do seu pessoal, ou seja, naqueles que têm um mínimo de qualidade.", esta última afirmação, no mínimo, é estranha, uma vez que é sabido que a lógica de ascensão daqueles personagens dos nossos dias a que chamaremos "deputados-nódoa", os que se afirmam a favor, contra ou pela abstenção sobre matérias que desconhecem, limitando-se a seguir indicações da liderança da respectiva bancada, se rege por essa prática.

Como se não bastasse a crise de qualidade, a falta de ética e a suspeição, que tivemos oportunidade de satirizar neste espaço, na nossa “
Singela homenagem ao político Moderno” e que resulta do facto de muitos dos nossos deputados acumularem essa função com outras de gestão de entidades públicas ou privadas, entrando-se em terrenos obscuros. O tema da exclusividade dos deputados foi defendido pelo constitucionalista Jorge Miranda: “Cada vez mais defendo a exclusividade parlamentar que, ligada à limitação de mandatos, dará uma garantia de independência”. Concordamos.

O episódio da falta de quórum foi também aproveitado como argumento para a defesa da alteração do nosso sistema eleitoral com a introdução de círculos uninominais, que o episódio, também triste e indecoroso para a nossa democracia, mas já longínquo e esquecido pela maior parte, do orçamento do queijo limiano, que expôs uma das fragilidades de tal sistema, o populismo, suplantou qualquer contra-argumentação que sustentasse tal alteração. Não cremos que seja esse o caminho a seguir, para além do populismo, um sistema de círculos uninominais, que possibilitaria a eleição de "heróis locais", como Fátima Felgueiras e afins, bipolarizaria ainda mais o espectro politico-partidário, acabando com os pequenos partidos, logo, diminuindo a representatividade.

Como que numa fuga para a frente, é aprovada a imposição da quota de 30% de mulheres nas listas a sufrágio. Também não é por aqui o caminho, não é por uma lista ter mais ou menos homens ou mulheres que a sua qualidade aumenta. E o nosso problema principal é precisamente esse, uma crise de qualidade, para a qual contribuem decisivamente aqueles… bem, estes mesmo, da
citação de Bertolt Brecht:

“Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.".
Nós acrescentaríamos também o “político nódoa”, também filho desta mediocridade da falta de quórum de cidadãos no debate político e no exercício de cidadania, plenamente representada no parlamento. Por mais alterações legislativas desejáveis que ocorram, a sociedade não se muda por decreto, é aqui que há que actuar e concentrar esforços. Enquanto não haja uma evolução social, a representatividade parlamentar que resulta do sistema actual continuará o retrato fiel das omissões da nossa sociedade dos brandos costumes.