sexta-feira, 7 de abril de 2006

Orelhas de Burro

Nick Hornby escreveu "High Fidelity", livro que serviu de argumento ao filme de John Cusack com o mesmo nome. Da sua excelente banda sonora, extraimos este "Fallen For You" de Sheila Nicholls. Uma balada na nossa proposta desta semana, aqui.

Nota: não dispensa consulta prévia de planeamento familiar.

Diplomacia de princípios, diplomacia dos cifrões

A diplomacia é o instrumento de política externa por excelência, é através dela que os países se projectam fora das suas fronteiras. Neste particular, a diplomacia portuguesa tem-se historicamente pautado por ser uma diplomacia de princípios, defendendo além fronteiras valores como a democracia, a liberdade, os direitos humanos, não cedendo um milímetro na sua defesa de forma intransigente, nunca perdendo de vista tais princípios, não os subordinando a interesses de natureza económica. Foi assim em tantos e tantos momentos da história, também foi assim em Timor, onde a diplomacia de princípios portuguesa triunfou perante outras diplomacias de natureza predominantemente económica, onde o interesse pelo negócio do petróleo lhes tolhia os movimentos e lhes impunha silêncios, calando-as perante constantes violações de direitos humanos por todos conhecidas.

Longe do extremo a que se chegou em Timor, Angola não é exemplo nenhum nem em democracia, nem em respeito de direitos humanos. Ao contrário, as violações tanto de direitos humanos como de princípios elementares de democracia são de todos conhecidas, a corrupção faz fortunas entre os governantes e seus apaniguados. Alguém ouviu alguma palavra ou viu algum gesto de José Sócrates em defesa dos valores acima referidos? Será que os interesses de certos grupos económicos que vêem em Angola um mercado apetecível gritam mais alto que direitos humanos, democracia, liberdade, justiça? E, para além do que ganham os empresários que apostem em negócios que sejam fruto desta visita, o que ganha cada cidadão português com o silêncio de Sócrates? Este representa todos os portugueses ou apenas os empresários com interesses em Angola?

Salvaguardando as proporções, talvez estejamos aqui perante um alinhamento da nossa política externa aos mesmos valores que presidiram aos negócios da UE e Estados Unidos com a China que, em defesa de grupos económicos com interesses naquele mercado, abriram as fronteiras aos produtos chineses, provocando desemprego e expondo empresas, produtos e trabalhadores dos seus espaços internos a uma concorrência desleal e inadmissível: em vez de se obrigarem esses países a desenvolverem as suas democracias, as condições de trabalho e direitos sociais dos cidadãos, ao contrário, o nivelamento é feito por baixo e é nos países desenvolvidos que são promovidas medidas de precarização das relações laborais, aumento do horário semanal de trabalho e de achatamento salarial. Será isto legítimo? Quem tem a ganhar com a subalternização de valores e princípios a interesses económicos particulares? Qual a legitimidade democrática desta conduta, a quem representam as diplomacias, os cidadãos dos respectivos países ou os empresários dos mesmos?