Quarta-feira, 23 de Novembro de 2005

Avança o Burro


Os dias que vivemos evidenciam o acentuar de uma crise social em Portugal, que auguram tempos difíceis. O pessimismo generaliza-se, as pessoas sentem que quase nada funciona bem, rareiam soluções viáveis que não penalizem e beneficiem sempre os mesmos, os indicadores de desenvolvimento e bem-estar social caem sucessivamente.
A crise no nosso sistema judicial, que identifico como um dos maiores factores de instabilidade - grave ao ponto de pôr em causa direitos elementares dos cidadãos portugueses e condicionar o investimento privado no nosso país e, como tal, o seu nível de emprego e desenvolvimento, condiciona qualquer esforço de reversão da crise generalizada que se faz sentir. A esta juntam-se outros factores como uma classe política sem brilho e incapaz de apontar um caminho definido rumo ao desenvolvimento, rendida a interesses instalados e a lógicas de manutenção do poder, falida de ideias, de conhecimentos técnicos e da realidade do país e vendida a modas neo-liberais lesivas e causadoras de inevitáveis retrocessos ao nível dos direitos e regalias sociais dos portugueses quando o contrário, a sua defesa intransigente, servindo a causa pública, são a razão da sua existência e eleição. Um sistema fiscal descontrolado, ineficiente e ineficaz, incapaz de controlar a evasão fiscal e de fazer da política fiscal um instrumento de promoção da equidade e justiça sociais. Uma administração pública gerida por clientelas políticas sem capacidade de gestão e que dela se servem como se fosse sua propriedade que urge reformular e reformar, uma comunicação social rendida à ditadura das audiências, audiências essas muitas vezes mais preocupadas com os acontecimentos da família real inglesa que com os seus próprios direitos. Uma população desinformada, iliterada, com fraca cultura política e de cidadania, abdicando de direitos básicos como o preenchimento de um livro de reclamações ou de participação em eleições.
Este retrato não ficaria por aqui, muito mais haveria para dizer, muito mais se poderia dizer sobre este país do “desenrasca” - “O País do burro” - onde quando o burro não puxa a carroça não anda. É o que tentaremos fazer com a criação deste blog, sem pretensões e à medida das nossas limitações de tempo e vontade e com a sua participação. A razão deste post é apenas a de introdução, de fazer a carroça começar a andar. Já começou.

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