quarta-feira, 29 de julho de 2015

O leão é que não


A morte de um exemplar de uma espécie protegida, um leão, famoso, símbolo nacional do Zimbabwe, é uma das notícias que agitam estes dias. Por toda a parte se lêem abordagens absolutamente estéreis, exteriorizadas ao sabor do instinto e da vontade de superar as anteriores nas adjectivações e nos insultos. Não serei mais um a chover no molhado com explorações da vertente emotiva deste que, sim, realmente é um de muitos episódios de uma tragédia de dimensões globais sem fim à vista. Parece-me que será incomparavelmente mais proveitoso abordar a justificação dada por aquele que foi identificado como o autor do crime, um dentista norte-americano que se escuda atrás de uma hipotética cobertura legal da barbaridade que assume desenvolver como hobby. O homem, cujo nome ninguém recordará daqui a um par de semanas, jura que pagou para obter todas as licenças que delimitam essa legalidade. Resumindo, o senhor é mais um que dá férias à consciência quando acha que a lei lho permite.

Será muito cómodo circunscrever esta forma de pensar a um caso e aproveitá-lo para alimentar o auto-conceito de boas pessoas, muito melhores do que aquele sacana daquele americano, que todos procuramos projectar quando alinhamos na onda de indignação que, ainda bem, a atrocidade em causa desencadeou. Mas olhemos bem para quem se indigna e para a tal mola que a morte de um leão fez disparar.

Temos um salário mínimo completamente legal que, ao condenar milhões a uma existência de privações, faz de Portugal uma das várias reservas de mão-de-obra barata ao dispor dos caçadores de fortunas que queiram aproveitar a liberdade para explorar que lhes é garantida por lei para organizarem os seus safaris do empreendedorismo. E a mola não mexe. Vivemos subjugados por tratados europeus 100% legais que dão aos credores de dívidas, que os próprios se encarregam de ajudar a crescer a coberto da sua lei, o direito a exigirem às suas vítimas que, em vez de canalizarem o que ainda há para darem de comer às suas crianças e de tratarem os seus doentes, desviem o que já não há para pagarem os juros agiotas que se formaram à sombra do poder de legislar que tais senhores se atribuíram a si próprios. E a mola volta a não se mexer.

Definitivamente, a indignação instantânea que se incendeia com notícias sobre caça ao leão não se vê arder com a mesma intensidade com a enxurrada de notícias sobre a caça ao homem que nos vai esvaziando o presente e roubando o futuro. A esmagadora maioria que se manda ao ar ao saber da morte de um leão reparte-se nas intenções de voto que renovarão o poder de legislar a uma, duas ou eventualmente a todas as três forças partidárias que deram legalidade a uma austeridade muito selectiva que desde 2008 roubou 3,6 mil milhões aos salários para oferecer 2,6 mil milhões ao capital. A caça legalizada ao trabalhador, ao velho, ao desempregado, a tudo o que seja público, às nossas pensões de reforma futuras, à Educação dos nossos filhos, ao SNS, às condições de trabalho e aos salários dignos tem ordem para continuar. Não critico ninguém por se revoltar com o espectáculo bárbaro de um leão morto para dar largas ao instinto de um anormal que não sabia o que fazer a 50 mil euros, mas parece-me que se essa indignação toda que hoje se vê por aí não passasse de mera alienação, uma indignaçãozeca de plástico inconsequente e sem sabor a nada, dela sobraria o suficiente para dar por terminada a caça ao coelhinho que se vai cozinhando a si próprio entretido com historietas macabras de dentistas e leões. A culpa também é sempre dos outros.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Euro: uma saída à francesa


Depois da humilhação que os partidários do sim concertaram com os radicais do nim para punirem exemplarmente o povo que ousou usar a democracia para os enfrentar com um gigantesco NÃO, ainda resta por aí alguém convencido de que, tal como se esforçam para nos fazer crer os nossos europeísmos convictos, andamos a fazer sacrifícios para alguma coisinha que valha a pena? Se não retiraram qualquer conclusão da série  interminável de revelações da responsabilidade daquele que, por mais rica que seja a argumentação dos apanhados, é o órgão fiscalizador deste que juram ser um país muito diferente da Grécia, de contas públicas falsificadas em mais de 11 mil milhões de euros para esconder que a despesa continua em derrapagem apesar de todos os cortes na vida de tantas pessoas, de uso ilegítimo de descontos da ADSE para outros fins que não o da saúde de quem os realiza e de toda a espécie de proveitos ilícitos – na linha da tradição herdada dos Governos anteriores – nas vendas ao desbarato de património que deixou de ser de todos os que o construímos para fazer engordar a classe de rendeiros do país, ou se estes últimos quatro anos os empurram para um projecto ainda mais "arrojado" na liberdade que dá aos patrões de despedirem sem justa causa nem indemnização, que nos põe a consumir no presente o dinheiro das nossas reformas futuras, as notícias que nos chegam da Europa dão-nos mais um sinal sobre a justa recompensa que o melhor povo do mundo fez por merecer ao longo da década e meia que dura a aventura do euro: Hollande propõe que o euro tenha um núcleo duro composto por apenas seis países com direito  a decidirem e, 19-6=13, treze colónias com direito a obedecerem-lhes. Começam finalmente a assumir que o euro não é para todos, e objectivamente não é, e que consideram que há países de primeira e países de segunda, cabendo aos de primeira decidir sobre como é que os de segunda os farão enriquecer, a assunção do que já acontece apesar de ser o contrário da solidariedade sobre a qual assenta todo o projecto europeu. A proposta de Hollande é mais um sinal de que este euro e de que esta Europa que apenas nos aceita se empobrecermos para enriquecer quem eles mandam já começou a implodir. Com sondagens que dão uma tão confortável maioria ao arco que se acotovela na disputa do poder de lhes obedecer e atestam a desorganização de uma esquerda incapaz de mobilizar um NÃO que necessita de intérpretes que entusiasmem, são muito boas notícias. Se sair do euro nestas condições, por vontade própria, é praticamente impossível, a saída de um euro que deixe de existir será mais do que obrigatória... A menos que, por vontade do nosso centrão, ao euro aconteça o mesmo que ao acordo ortográfico.

sábado, 18 de julho de 2015

Gostei de ler: "É perigoso ficar já "farto" de falar da Grécia"


«Eu sei que está toda a gente farta da Grécia, de ouvir notícias sobre a Grécia, de falar da Grécia. O sistema mediático tem este efeito de rápido cansaço e gera também a vontade de passar para outra coisa ou outra causa. Para além disso, tudo parece já estar decidido e não vale a pena chover no molhado. Vale, vale.

Depois há a sensação de derrota dos filo-helenos, seja dos políticos pró-Syriza, seja dos admiradores mais dos gregos do que do Syriza. Todos partilham uma sensação incómoda porque mistura sentimentos de traição, humilhação, derrotismo, impotência, tudo coisas pouco amáveis para a auto-estima.

Ainda pior é ver a alegria dos que, ao lado de personagens como Dijsselbloem, gozam a sua vingança contra Varoufakis que, de todo não respeitava o holandês pedestre, e contra os gregos que tiveram o arrojo de votar “não”. Digamos que é o clube português dos fans de Dijsselbloem, que festeja a vitória em artigos nos locais certos, nas redes sociais e nos comentários, numa espécie de jogo de futebol contra o clube português dos fans de Varoufakis, no qual, imagine-se a brilhante inteligência, incluem… António Costa.

Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. O problema é que sabem: querem manter-se no poder e prosseguir um programa de revanche social e política contra os que desde o 25 de Abril lhes roubaram o direito natural de mandar.

É por isso que me é inaceitável o argumento salomónico que muitos socialistas usam para se justificar, atribuindo “culpas” ao governo grego e à “Europa”, umas concretas e com alvo, as outras abstractas e genéricas, como se o resultado final se devesse ao modo como os gregos se comportaram nas negociações e não à recusa sempre sistemática dos alemães e do Eurogrupo em negociar fosse o que fosse, com o apoio dedicado dos socialistas. Os gregos podem ter feito todas as asneiras possíveis, que isso não justifica o que se passou. Mesmo os meses que durou isto tudo, não foram os meses necessários para negociar qualquer coisa, mas os meses necessários a colocá-los entre a espada e a parede e por fim vergá-los. Nunca, jamais, em tempo algum, poderia ter sido de outra maneira, porque nunca quem manda desejou que fosse de outra maneira.

Muitas das propostas gregas logo de início eram bastante moderadas (recordam-se de como os fans de Dijsselbloem disseram que os gregos tinham vergado como Hollande…), mas a perigosidade evidente de um governo como o do Syriza obter qualquer ganho de causa era inaceitável para governos como o português e o espanhol, e era uma bofetada para os socialistas colaboracionistas. A questão nunca foi conduzir bem ou mal as negociações, mas o facto de, por imposição da Alemanha, se ter sempre decidido que não havia acordo com os esquerdistas do Syriza.

Os alemães e os seus acólitos tinham um programa de humilhação, com um acordo que foi afinal escrito pelo Syriza a branco, para eles o reescreverem a preto. O acordo com a Grécia, na realidade um diktat, só tem uma lógica: obrigar os gregos a engolir tudo o disseram que não desejavam. Não tem lógica económica, nem financeira, tem apenas uma lógica política de humilhação. Querias isto? Pois levas com um não-isto. Foi assim que foi feito o chamado acordo.

E não me venham com o argumento de “confiança”, por parte de governantes como Merkel, Rajoy e Passos Coelho que apoiaram Samaras e a Nova Democracia até ao fim, sabendo que apoiavam um governo corrupto e oligárquico, coisa que o Syriza nunca foi acusado de ser. Esse governo “confiável” literalmente evaporou centenas de milhares de milhões de euros e permitiu que a Grécia, endividando-se até ao limite, funcionasse como tapete rolante para reciclar a dívida dos bancos franceses e alemães para os contribuintes europeus. E não me falem de “confiança” face a um acordo-diktat em que ninguém acredita, em que ninguém “confia” e que assenta no poder e no cinismo.

É uma exibição brutal de poder, que coloca a Grécia a ser governada de Bruxelas e Berlim, por gente que vai decidir os horários das lojas ao domingo, quem pode ter uma farmácia, como funcionam as leitarias e as padarias, e quem pode conduzir ferrys para as ilhas. Mas há mais: são revertidas decisões constitucionais de tribunais gregos e, como em Portugal se fez, mudanças legais para acelerar despejos, expropriações, falências e para retirar aos trabalhadores direitos sindicais e de negociação.

Depois há Schäuble, mas isso é outro nível das coisas, aquelas que vale a pena discutir. O que é que se assistiu nos últimos dias? Várias coisas que já são seguras e outras que estão em desenvolvimento.

Comecemos pelas “regras”. Como se sabe os gregos foram acusados de violar as “regras” do euro, e uma fila de pequenos governantes limitados enchiam a boca com as “regras”. Ora se há processo que violou desde o início as “regras” da União foi o modo como foi conduzido o caso grego. Nenhuma das três instituições europeias, o Conselho, o Parlamento e a Comissão assumiu o seu papel neste processo, substituídas por uma entidade informal, o Eurogrupo, e dentro do Eurogrupo pela palavra e posições alemãs que sempre decidiram o que se fazia e o que não se fazia.

A União Europeia não são os dezanove, a que se podia subtrair um, a Grécia, ficando dezoito. São vinte e oito, o que significa que nove estados que não têm o euro como moeda ficaram de fora. Um deles foi o Reino Unido, completamente marginalizado de uma discussão que foi muito mais longe do que apenas a política monetária do euro, mas foi um dos mais importantes momentos da história política da União. Mais: algumas decisões tomadas no Eurogrupo implicam fundos comunitários sobre os quais o Reino Unido também tem direitos, e ninguém se deu ao trabalho de telefonar a Cameron para o envolver nas discussões e nas decisões. A marginalização do Reino Unido é um grave precedente para o referendo que se vai realizar sobre a pertença à União Europeia.

Isto significa que o Conselho, que reúne os chefes de governo da União, com euro ou sem euro, e o Parlamento, cujo protagonismo os europeístas gostam tanto de exaltar, assistiram sem qualquer papel à crise grega. O mesmo se pode dizer da Comissão sempre subalternizada pelos alemães e os seus aliados como pouco fiável na dureza que queriam impor aos gregos. A Comissão, depositária dos Tratados, assistiu à violação desses mesmos Tratados pela Alemanha e o Eurogrupo, sem pestanejar ou, se pestanejou, como alguns afirmam, ficou por aqui. Aliás a marginalização da Comissão é institucionalizada no acordo imposto à Grécia, que implica a participação obrigatória do Fundo Monetário Internacional, uma instituição de fora da União, com quem passa a partilhar o “controlo” do resgate. Esta foi, mais uma vez, uma imposição alemã.

Não, eu não sou salomónico. Reconheço que os gregos cometeram muitos erros, mas recuso-me a colocar esses erros no mesmo patamar do que lhes fizeram. E o que lhes fizeram, uma mistura de vingança e humilhação, mostra bem o que a “Europa” hoje é. De há algum tempo para cá, já sabíamos o que ela estava a deixar de ser, a Europa dos fundadores, construída a favor da paz e pela solidariedade.

Hoje não foi a senhora Le Pen que foi dizer aos eleitores que devem ser egoístas se são ricos e submissos se são pobres. Foram Passos Coelho e Cavaco Silva, em Portugal, foi Rajoy em Espanha, foi Dijsselbloem na Holanda, foi Merkel na Alemanha, foram partidos e governantes como os antigos Verdadeiros Finlandeses, que até há pouco tempo eram esconjurados pelos europeístas e agora são eles que dão o tom à “Europa”.

Os estragos deste egoísmo não vão desaparecer e um dia virão bater à nossa porta. Não é difícil imaginar como. Também nós esperamos “crescer” nos próximos anos com os fundos comunitários, uma dádiva dos países que são contribuintes líquidos, ou seja, dos contribuintes alemães. Só por ingenuidade é que nós pensamos que o mesmo argumento que é usado para os gregos não pode virar-se contra nós. Não fazemos parte dos “preguiçosos” do sul? Por que razão um honesto e trabalhador operário especializado numa fábrica da Renânia-Vestfália vai ter que pagar dos seus impostos para esses portugueses que “vivem à nossa custa” quando um seu companheiro alemão da Pomerânia ganha metade do que ele ganha?

A Caixa de Pandora está aberta. E Pandora era grega.» – José Pacheco Pereira, no Público.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Lições gregas (continuação): o IV Reich


Sempre me inquietou saber que houve milhões de judeus que, durante o III Reich, mesmo conscientes do que lhes iria acontecer poucos minutos depois e apesar de saberem que o seu número superava largas dezenas de vezes o dos seus carrascos, avançavam para as câmaras de gás para morrerem sem se revoltarem contra metralhadoras em número suficiente para matar alguns mas largamente insuficiente para matá-los a todos. Há relatos de que, de quando em vez, havia um ou outro que se revoltava e era prontamente abatido porque a esmagadora maioria dos restantes não aproveitava para se lhe juntar e ajudar a fazer crescer um motim que, para ter alguma probabilidade de ser bem sucedido, teria que contar com o sacrifício e com a coragem da maioria que preferiu convencer-se que ia apenas tomar um duche para não arriscar perder, no máximo, uns minutos de vida para que houvesse quem se salvasse da morte certa que a resignação de todos a todos garantiu.

E inquieto-me outra vez. Setenta anos depois, alguém se lembrou de substituir metralhadoras por dívida, judeus por gregos e Deutschland por Europe para dar uma nova versão ao Reich. A última semana serviu para clarificar o que tinha ficado por clarificar. Quem manda na Europa e no euro é a Alemanha embora todos jurem “Europe über alles”. A Alemanha gaba-se de ter uma colónia chamada Grécia que está disposta a trocar por Porto Rico com os Estados Unidos. A política oficial da Europa é a pilhagem que a Alemanha dite independentemente do que possa acontecer aos pilhados, ao euro e ao projecto europeu. Os saqueadores não se importam nada se cada euro que consigam extorquir for obtido retirando o pão da boca a uma criança ou poupando no analgésico que humaniza a morte a um doente terminal.

Ficou demonstrado que quem ouse recusar continuar a ser destruído por esta pilhagem não pode contar com a solidariedade nem mesmo de outros países alvo da mesma pilhagem, lá está, porque “Europe über alles” ou, traduzido em bom português, porque quem governa esses países tem direito ao seu quinhão do produto do saque. E que governante europeu que ouse afrontar a vontade alemã, em vez de respeito pelas escolhas democráticas que esteja largamente mandatado para representar, deve contar com um grupo coeso de alemães e alemãezinhos que tudo fará para retaliar sem medir consequências, pelo que nunca por nunca deverá deixá-los muito à vontade relativamente à sua eventual saída do euro, sob pena de ser precisamente essa a bomba atómica que terá apontada à cabeça para o fazer aceitar entrar na câmara de gás e adiar a morte certa mais algum tempo.

Tsipras teve tudo para evitar a humilhação histórica que todos presenciámos na última semana. Teve o povo consigo, primeiro nas eleições em que o poder lhe foi confiado, depois no referendo que convocou para renovar essa confiança, uma aposta ganha que lhe rendeu uma vitória que nem o mais optimista imaginaria poderia saldar-se tão esmagadora como acabou por acontecer. Teve seis meses para tomar as medidas necessárias para programar a saída ordenada do euro que recusou desde o início. Confiou estar a negociar com gente minimamente responsável e não com terroristas. Ignorou a guerra que lhe foi movida para o desgastar internamente que culminou na decisão do BCE de fechar a torneira da liquidez que precipitou tudo. Arranjou maneira de perder em toda a linha. E perdeu.

Resta saber se e o que é que a outra parte ganhou e por quanto tempo. Todos os cidadãos europeus estiveram de olhos postos na Grécia. Se a maioria compreendeu que permanecer no euro não é o tal duche de beleza com que os judeus se convenciam a avançar ordeiramente para a câmara de gás, se com este desembarque fracassado na Normandia a maioria percebeu que o euro é a moeda única da austeridade e que esta Europa é a versão IV do imperialismo alemão, talvez daqui a 70 anos alguém escreva umas linhas de regozijo sobre o que é nosso dever fazer para acabar o mais depressa possível com a loucura de um Führrer de saias apeado antes de conseguir impor definitivamente o seu império da pobreza generalizada pela escravatura do trabalho precário e dos salários baixos que começou a construir sobre os escombros de uma Europa do bem-estar que trouxe a paz e garantiu prosperidade aos europeus nas décadas que se seguiram ao fim do III Reich.

A magna carta desta IV edição chama-se Tratado de Lisboa. Temos estado na linha da frente em tudo o que no futuro será recordado como muito mau, oxalá saibamos posicionar-nos na mesma linha da frente também no que se recordará como bom. Temos responsabilidades acrescidas para nos fazermos recordar por outra coisa que não um “eles avançaram ordeiramente para a pobreza, perderam tudo, até mesmo a democracia que custou tantas vidas a conquistar”.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A ressaca grega


Ontem uma bebedeira de democracia, hoje a ressaca. Os comentadores do regime dividiram-se nas reacções, umas mais cautelosas, outras mais raivosas, a maioria ainda mais imaginativa do que é costume, o Não grego deixou-os mesmo a nadar, ainda mais porque os patrões da Europa hoje perderam o pio e os contadores de histórias ficaram sem nada a que agarrar-se.

No arco do sim, cautelas e pele de galinha. Pedro Passos Coelho optou por dar-se uma imagem de serenidade, afinal parece que ontem não aconteceu nada e o euro está aí para lavar e durar. António Costa entreteve-se a tentar justificar a posição que mais uma vez não tomou   e a descolar-se das vergonhas socialistas que os seus camaradas por essa Europa fora nos serviram ao longo da última semana. E Paulo Portas jurou que irá repetir quantas vezes for preciso que Portugal não é a Grécia e, confirmação de que não tinha mesmo nada para dizer, aproveitou para insinuar que António Costa só não apoiou o Não por qualquer coisa ali algures entre a timidez e a irresponsabilidade que caracteriza qualquer homem de esquerda. Ainda há quem o considere de esquerda. Costa devia ter agradecido mas não o fez.

Finalmente, do lado do não, muita comoção, alguma contenção verbal por parte de Jerónimo de Sousa a certificar o embaraço causado por mais uma atitude a todos os títulos deplorável de um KEE que não quis juntar-se ao não ao terrorismo financeiro, muitas vivas à coragem e à dignidade do povo grego, mas pouco mais. Decepcionou-me constatar mais uma oportunidade perdida. Podiam ter aproveitado para, à boleia da vitória da democracia na Grécia, trabalharem juntos sobre o efeito de contágio que aquele rotundo não teria se, por exemplo,  lançassem a ideia de um referendo que perguntasse aos portugueses se aceitam continuar a ser espremidos durante as próximas duas ou três décadas para pagar uma dívida gerada por uma regra que, ao proibir que o BCE ceda liquidez directamente aos estados como exigem os alemães, nos põe a pagar juros milionários a intermediários financeiros que sem essa regra   perderiam o direito aos milhares de milhão que lhes garantimos anualmente. Não o fizeram.

Sinceramente, gostava que nas próximas eleições pudesse confiar o meu voto a um partido que fosse bastante mais do que apenas o menos mauzito de todos e de não me sentir obrigado a fazê-lo porque não votar é o favor que não quero fazer aos três que nos puseram neste buraco. Gostava de poder celebrar vitórias nossas em vez de comemorar as vitórias dos outros. Fico muito contente com o que têm conseguido o Syriza e o Podemos na Grécia e em Espanha. Mas eu sou português...

domingo, 5 de julho de 2015

O dia em que a Europa começou a mudar


Domingo, 5 de Julho de 2015, o dia em que os gregos mostraram a todos os povos europeus que é dizendo NÃO à chantagem dos opressores que se diz SIM à esperança dos oprimidos. Contra tudo e contra todos, apesar da campanha de terror com que foram bombardeados toda a semana, mais de 61% dos gregos que votaram no referendo de hoje quiseram dar-nos uma lição de coragem e de dignidade e fizeram-no: “Digam aos portugueses que na Grécia lutamos também por vocês”. A partir de agora o medo do amanhã vai continuar presente mas estará bem mais repartido. Boa noite, senhora Merkel. Boa noite, senhor Hollande. Boa noite, tecnocratas. Boa noite rafeirada pequena. Boa noite, senhores jornalistas/inventores de sondagens/comentadores às ordens do terrorismo financeiro. Vocês sabem que a partir de agora nada será como foi até aqui. É a vossa vez de terem medo também.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

À espera de Domingo: radiografias da submissão e outros contos


Não, a fila que se vê na foto que ilustra este que lêem não se formou para levantar dinheiro num multibanco e muito menos foi tirada na Grécia. Podia ter sido tirada em Espanha, onde também se espera mais de meio ano por uma colonoscopia, Mas também não. Foi tirada em Portugal, numa das clínicas privadas com acordo com o SNS onde, quando abrem as marcações, centenas de pessoas aparecem de véspera para terem direito a fazer o exame por até 48 euros. Em clínicas sem esse acordo, o exame pode custar mais de 200. Uma ressonância magnética, outro exame que está a ser fortemente racionado, custa mais de 400. E, custem 200, 400 ou até mais, estes exames existem para poupar as vidas e muito sofrimento àqueles que necessitam de fazê-los para rastrear doenças oncológicas potencialmente mortais em fases mais avançadas em que os tratamentos custam dez, vinte, centenas de vezes mais do que 200 ou 400 euros. O Governo condena à morte e ao sofrimento um número indeterminado de portugueses quando decide poupar 200 ou 400 em testes complementares de diagnóstico para gastar milhões em tratamentos oncológicos. Para além de ser um crime sem nome, é também um péssimo negócio se a lógica seguida for a da mera aritmética.

Regressando à foto, há quem umas vezes se lembre de dizer que somos todos – Charlie – ou todos e todas, depende da liturgia da congregação, noutras que somos todos gregos, neste momento ser grego é o que está a dar, amanhã logo se vê, outros ainda que nem uma coisa nem a outra, pertencem a uma massa amorfa que nunca diz nada. São diariamente convocadas acções que pretendem expressar solidariedade aos gregos. E muito bem, eles merecem-na, souberam organizar-se colectivamente, conseguiram pôr-se de pé e enfrentar o invasor que se apoderou do país. Mas nada disto tem significado algum se nos esquecermos que somos portugueses, se a solidariedade que manifestarmos aos outros for a solidariedade que não nos oferecemos a nós próprios e, sobretudo, se não percebermos que é nessa solidariedade que praticamos pouco que está a explicação de como uma minoria reduzida mas coesa tem conseguido subjugar uma maioria cuja vontade se dilui no individualismo de cada um.

Foi esse individualismo inconsciente e ignorante, que aquela foto ali em cima retrata tão bem, que nada fez quando o dinheiro dos nossos impostos começou a ser desviado da Saúde que era suposto financiar para pagar juros multiplicados por uma regra artificial, sem par em nenhum outro banco central, que impede o BCE de ceder liquidez directamente aos estados e, dessa forma, nos faz reféns de um sector financeiro que rentabiliza as nossas vidas e o nosso sofrimento especulando no mercado com a maior das naturalidades. Foi esse individualismo que se encolheu ao desinvestimento que foi desmantelando o SNS ao mesmo tempo que o foi concessionando a clínicas privadas onde os utentes que um dia fomos hoje fazemos filas intermináveis de clientes de um negócio tornado lucrativo pelos nossos impostos: “eu hoje não estou doente, sou um tipo saudável e até tenho que chegue para pagar um seguro de saúde, logo, não sou eu que tenho que me preocupar com o SNS que é de todos. "E eu que não tenho, que sozinho nada posso, resta-me sujeitar-me e obedecer."

Na Grécia, o cenário é o mesmo. “Eu hoje não posso levantar mais do que 60 euros no multibanco, quero lá saber de quem tem multibanco mas não tem 60 euros, de quem não tem nem multibanco nem 60 euros, de quem tem multibanco mas deixará de ter 60 euros caso vença o “sim” no referendo do próximo Domingo”. Foi sobre este individualismo, tão permeável a provocações que põem  trabalhadores contra trabalhadores e velhos contra novos, que a atrás referida minoria coesa e organizada resolveu trabalhar fechando a torneira da liquidez à Grécia na Sexta-feira passada. Se aqueles que menos têm e aqueles que mais têm a perder cederem à chantagem ou ficarem em casa no próximo Domingo, e todos sabemos como os abstencionistas são todos iguais e como os abstencionismos servem sempre os mais fortes, o directório europeu conseguirá não apenas derrubar um Governo que tudo fez para defendê-los e ao seu país e colocar um qualquer bonequinho do multibanco no seu lugar como ainda estancar o efeito de contágio da – para eles – praga democrática a outros países à mercê da sua voracidade à prova de escrúpulos.
Que vença o "não", muito pelos gregos mas sobretudo por todos nós, portugueses e não só, individualistas e desorganizados, logo, obedientes, que ainda não somos gregos por  mero tacticismo e conveniência. Mas já faltou mais.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Gostei de ler: "Uma semana vertiginosa para uma contagem decrescente"


O anúncio-surpresa do referendo apanhou toda a gente desprevenida. Schauble, que há pouco mais de um mês tinha sugerido a hipótese em estilo fanfarrão, critica agora a iniciativa porque teme o seu efeito. Lagarde afirma que a escolha não tem objecto. Ontem, Schultz e Juncker, mais uma plêiade de figurões, anunciaram a sua campanha eleitoral para grego ver.

Começou portanto a contagem decrescente.

Hoje, a Grécia não pagará ao FMI. O que não tem consequências legais imediatas: durante duas semanas, andarão cartas para lá e para cá a constatar o evidente. A Grécia não poderá recorrer a fundos do FMI, mas a porta estava fechada desde o verão passado, nada de surpreendente. Em todo o caso, é um ponto de viragem.

Virá então a campanha. Manifestações e emoção. Com os bancos fechados (excepto os balcões que vão abrir para pagar aos pensionistas) e os multibancos com movimentos limitados a 60 euros, ninguém terá dúvidas de que é uma escolha fundamental, num sentido ou noutro.

A campanha será então assim: Merkel contra Tsipras. Como o Partido Socialista e todo o centro, mais a direita, votaram contra o referendo, esses serão os embaixadores de Merkel. O Partido Comunista apelou ontem ao voto nulo, é-lhe indiferente se o programa da troika é aprovado ou rejeitado. E a Aurora Dourada, o partido nazi, defende a manutenção no euro.

Do lado do governo, só há duas vantagens nesta campanha. Uma, vai pagar os salários e as pensões a tempo. Duas, a escolha é entre o Partido do Medo e o Partido da Grécia. Será isso suficiente para vencer? O medo poderá fazer pesar a balança para a humilhação, apresentada como segurança, ou resistirá a dignidade, apresentada como a opção democrática responsável? Só domingo se sabe, mas o medo costuma vencer quando não há grandes movimentos telúricos na sociedade.

Para já, o Sim parte maioritário. E tem condições para reforçar a vantagem, atendendo à instabilidade acentuada pelo fecho dos bancos; o apelo da dignidade nacional pode ser menos congregador, mesmo num país que reduziu o seu rendimento nacional em 25%, do que o receio pelas poupanças. Para mais, a incerteza do que aconteceria depois de uma rejeição da austeridade também joga a favor do Partido do Medo. A fronda internacional ainda mais: o BCE jogou no referendo, ao decidir não liquidar os bancos (a assistência financeira mantém-se mas não assiste) mas não lhes dar os euros necessários para operarem (o que obrigou o governo a fechar os bancos desde 2ªf). Lagarde, agora, admite uma negociação mais cordata – se o Sim ganhar. Dijsselbloem repete o mesmo. Com o Sim, a Europa promete ser dialogante e até bondosa.

O problema é que o voto será contado, mas a consequência não será. De facto, a escolha em si parece fácil: entre aceitar (Sim) ou rejeitar (Não) o ultimato da troika. Tudo claro. Mas o difícil é que não se sabe o que vem depois, ganhe o Sim ou ganhe o Não.

O voto Sim deixaria tudo em aberto. Ninguém sabe o que vem depois. Vejamos: se o Sim vencer, ou o governo se demitirá, provocando novas eleições, ou aplicará as medidas do ultimato. A possibilidade de eleições imediatas só seria evitada se houvesse maioria para suportar um governo tecnocrático, como no passado, e resultou sempre mal. Além disso, exigia o acordo do Syriza, que tem maioria neste parlamento, o que parece inaplicável. Em contrapartida, o Syriza aplicar as condições do ultimato será impossível (Varoufakis sugeriu tal hipótese, um dos seus excessos dos últimos dias: nem os credores aceitariam nem o Syriza teria condições para tal desvario). Resta a possibilidade de novas eleições. Mas poderá o centro e a direita ganhá-las? As sondagens davam a Nova Democracia, a direita, com 13%, menos de metade do que obteve há cinco meses, e o Partido Socialista com votação residual. Para completarem o ultimato, precisam de uma vitória eleitoral.

Para quê? A resposta não é inédita, essa coligação trará o terceiro resgate. E depois virá o quarto ou o colapso de uma economia exangue: continuar a cortar salários e pensões depois do que já sofreram os gregos, para prometer saldos primários como a Alemanha nunca teve nos seus melhores tempos de prosperidade, é uma ignomínia.

Outra incógnita se houver eleições: qual será a nova proposta eleitoral do Syriza e o seu impacto? Não é coisa pequena. Não pode ser outra negociação sobre a dívida, não houve nenhuma enquanto o partido conduziu o governo e não foi por não ter proposto e tentado. Se alguma coisa ficou evidente, foi o que são as autoridades da União Europeia e do Euro.

Por outro lado, pior ainda, um novo governo que negoceie um novo programa com a troika precisará não só de ter a aprovação do parlamento grego como do parlamento alemão e de outros (o que pode ser muito difícil na Finlândia, por exemplo) e, em todo o caso, de todos os governos da zona euro. Um imbróglio.

Com a hipótese mais difícil da vitória do Não, o ultimato é rejeitado. Mas também não se sabe o que vem depois. Não é fácil que seja uma nova ronda de negociação, só Varoufakis parece acreditar nisso: ninguém antecipa Lagarde, Schauble e Draghi reunidos de novo com o mesmo governo grego e a aceitaram o que sempre rejeitaram, essa reestruturação da dívida com a qual só Obama parece concordar. Se é verdade que o golpe imposto com o ultimato era simplesmente motivado pela intransigência da União Europeia contra um governo que não seja da cor de Merkel, então a conversa nunca regressa ao ponto de partida. A Grécia só terá a opção da saída do euro, imprimindo dracmas para poder pagar salários e pensões, porque o BCE vai liquidar os bancos quando se lhes esgotar a liquidez. E aí o Syriza tem uma dificuldade, é que nem se preparou tecnicamente nem discutiu com a população essa alternativa. Terá que improvisar, onde era preciso que houvesse planos de contingência detalhados. Eles têm sido preparados por alguns sectores na esquerda, sobretudo dentro do próprio Syriza, mas não fazem parte da plataforma do partido e da sua direcção. Vai ser precisa uma resposta clara, contundente, com um plano de operações de curtíssimo prazo, se o Não ganhar. E não se pode voltar a cometer o erro de pensar que os chefes da Eurozona querem o bem de todos ou sequer uma negociação de boa fé.

Contagem decrescente? Sim, para domingo. Mas ninguém sabe nem pode saber o que acontecerá na segunda feira. Nem muito menos depois deste tempo vertiginoso, quando à esquerda se pensarem as lições deste golpe em curso e à direita se tomarem medidas para que isto nunca mais possa voltar a acontecer.» – Francisco Louçã, no TME.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Cavaco: a calma de um líder que inspira confiança


Titanic, versão 2015. A Europa afunda com grande estardalhaço e cenas absolutamente comoventes. Numa delas, o capelão Junker , o tal que aqui há meses admitiu que a Europa pecou contra os gregos, diz-lhes agora que os ama muito e por isso lhes pede que votem no sim que dá liberdade à Europa para continuar a pecar mais e mais. A timoneira Merkel mandou o barco ao fundo e agora queixa-se que tem os pés molhados: “se o euro fracassar, a Europa também fracassará”. Nisto, entra em cena o grumete Cavaco a dizer que o mundo anda todo enganado: "eu penso que o euro não vai fracassar, é uma ilusão o que se diz. A zona do euro são 19 países, eu espero que a Grécia não saia, mas se sair ficam 18 países". 19-1=18. Brilhante. Tanta barulheira e afinal era só isto. Como mais uma vez se comprova, da soma de duzentos Cavacos não se obtém nem meio Presidente da República.  Estamos completamente entregues à bicharada.

sábado, 27 de junho de 2015

Lições gregas )continuação): coragem, democracia, esperança


A regra aplica-se também a piratas, a malfeitores e a delinquentes em geral. Adulto que o seja, que tenha crescido interiormente, sabe perfeitamente que nunca é grande ideia deixar as crianças abusar. Elas abusam, abusam, abusam, e só param quando são paradas. Assim foi a História da Grécia durante os últimos anos, assim tem sido a nossa também. Mas a da Grécia começou a mudar há uns meses com a eleição do novo Governo.

Os piratas/malfeitores/crianças que mandam na Europa pensavam que podiam continuar a abusar, abusar, abusar como antes. O novo Governo grego foi avisando, avisando, avisando, e eles, convencidos que continuavam a lidar com os delinquentes/piratas/malfeitores dos últimos Governos gregos, foram insistindo em tentar abusar um pouco mais. Até ontem.

Abusaram tanto que o novo Governo grego foi obrigado a Pará-los anunciando uma consulta popular. Os gregos irão decidir se querem que os seus destinos continuem a ser decididos por crianças/delinquentes/piratas que exigem que sejam exclusivamente os seus pobres e remediados a pagar uma dívida que cresceu para enriquecer a casta de milionários que os delinquentes/tiranetes/saqueadores querem manter à margem de qualquer contribuição para a sociedade que os enriqueceu, se querem continuar a permitir que a tropa de credores continue a ignorar a sua vontade soberana, a amarfanhar a sua democracia, a destruir a sua economia.

Para não dar grande margem à propaganda do medo dos delinquentes/malfeitores/ditadores, o referendo foi marcado para dia 5 de Julho, já daqui a oito dias. E, ainda sem conhecer o veredicto dos gregos, o Governo de Alexis Tsipras já soma pelo menos três vitórias.

A primeira é a vitória da coragem que demonstrou como não estão agarrados ao poder.

A segunda é a vitória da democracia que relembrou a todos os povos da Europa que se souberem escolher também há políticos que não se embriagam com o poder, que não rasgam o contrato eleitoral que lhes vale esse poder e que o mesmo poder não é absoluto, corresponde a um mandato de representação de uma vontade individual e colectiva expressa pelo voto.

E a terceira é a vitória da esperança  que renovaram ao seu povo ao mostrarem-lhes novamente que o país finalmente é Governado por gente de bem  que lhes proporciona a possibilidade - que mais nenhum povo da Europa tem – de serem eles próprios a aplicarem o correctivo que as crianças/saqueadores/ditadores merecem.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Gostei de ler: "PS - Produto e Serviço"


«António Costa e o Partido Socialista já esqueceram Lisboa mas Lisboa não os vai esquecer. Quem se lembra do “oásis” de Pedro Santana Lopes na Figueira da Foz não pode agora deixar de pensar nos novos oásis que António Costa deixa na capital do país. E o oásis é sempre uma miragem e é sempre seco...

O oásis da Lisboa liberal é a seca profunda de quem já não consegue acompanhar o aumento das rendas e não lhe resta outra solução senão o “ir para fora cá dentro”. E são pessoas, são mais umas centenas de lojas, mercados e pequenos negócios… fim da linha, porque as rendas são sempre mais altas e afinal, bonito é vender cafés a 1,5€ num café trendy no Mercado da Ribeira. Não tem estilo nenhum vender um molho de bróculos ao senhor Marco do bairro de Santos… (já em Berlim se avança com a criação de um teto para as rendas)

O oásis liberal é a criação de escalões sociais de usufruto da cidade e a poluição como instrumento de seleção. Enquanto o menino Martim Afonso Albuquerque de Mello pode andar de BMW - 2.800cc - todo o dia em Lisboa o Tó Mané dos Olivais foi bloqueado fora da cidade com o seu Peugeut de 1999. Ao mesmo tempo, os navios de cruzeiro e de carga colocam a cidade de Lisboa com níveis de poluição atmosférica “muito elevados”, segundo a Quercus, mas os transeuntes do turismo são importantes e vêm cá deixar algum dinheiro nas cadeias de hotéis. E os tuk-tuk ensurdecedores, e os táxis, e as carrinhas e camionetas das empresas de transportes? Poluição? Caos rodoviário? …na liberdade do dinheiro não se pode tocar, é a nova democracia.

O oásis liberal é vender a história e a cultura a quem tenha dinheiro, como produto ou serviço. E se por acaso o Tó Mané dos Olivais não pode entrar em Lisboa com o carro, já o João de Santo António dos Cavaleiros pode. Tem sorte porque tem um Clio dos novos – 2004! E aí vem o João visitar o Castelo de São Jorge. Ou talvez não… São 8,5€ a visita do João. O João vem com a família? Perfeito, temos um desconto ótimo para famílias: 20€ e podem entrar no marco histórico da capital e do país. Ah! Que infelicidade, tem salário baixo ou a companheira desempregada? Enfim, pode ver de fora João, também é bonito.

O oásis liberal é selecionar as pessoas e educá-las na exclusão. Porque o Fernando de Alfama, que é mesmo, mesmo de Lisboa, está a caminho do Miradouro do Elevador de Santa Justa. Ainda há pouco tempo foi lá ao café, pois desde que fosse a pé, não pagava. Oh Nando, que azar, agora não há café e alguém decidiu que só sobe e só espreita quem a moedinha deixa (1,5€). Mas não fiques triste Nando, afinal, podes ir para casa e ver no teu computador a visita virtual 3d! É o máximo! Aproveita, é grátis!

O oásis liberal é o oásis do Partido Socialista, o mesmo do Partido Social Democrata. O oásis liberal é uma cidade que se quer para hoje, para que produza dinheiro hoje e para ser usufruída por quem tenha dinheiro hoje. Se não há transportes de qualidade, se não há mobilidade, se não há proteção ambiental,… se tudo isto significa o consumir da própria cidade, a sua destruição enquanto lugar de vida, de história e de culturas, não é assim tão grave.

Afinal, o oásis liberal é transformar tudo num produto e num serviço, e a cidade também. Nem PS nem PSD desafiarão esse dogma, nem aqui, nem em lado nenhum porque eles próprios se tornaram nisso: num produto e num serviço.» – Rui Maia, no esquerda.net.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Mais um dia em cheio


Apesar de ainda faltar o principal, um compromisso de reestruturação de uma dívida impagável nas actuais condições, sem a qual o máximo dos máximos que se poderia retirar de um entendimento seria um adiamento da saída da Grécia do euro, ontem parecia haver um princípio de acordo entre dois lados de um mesmo problema que, com cedências de parte a parte, empregando a expressão infeliz da senhora Lagarde, negociavam aparentemente “como adultos uma solução minimamente satisfatória para todos.

Mas hoje as aparências começaram a dissipar-se depois do comunicado emitido pelo Governo grego para denunciara recusa de algumas propostas gregas que, mais tarde, uma fonte do Financial Times identificou ter partido do FMI e ficar a dever-se ao desagrado suscitado pela proposta grega de pôr os que mais têm a pagar a austeridade que até agora foi paga por pobres e remediados: o FMI exige que os impostos propostos para as empresas sejam retirados, colocando antes o ónus nos trabalhadores e nos pensionistas, a velha agenda de reconfiguração social neoliberal da qual não abdicam nem mesmo na iminência de uma ruptura de consequências difíceis de prever sobre o futuro do euro e da própria União.

E fica tudo à vista. Os “adultos” jogaram sujo. o Governo grego assumiu a responsabilidade de se expor ao desagrado do seu suporte parlamentar ao ceder até no que era impensável ceder. Enquanto isso, os “adultos” andaram a recrear-se com elogios públicos ao que sempre quiseram recusar com o objectivo de desgastar o apoio interno, que para seu desgosto até tem aumentado, dos gregos a um Governo que finalmente é capaz de representar os interesses do seu país. Ao mesmo tempo, na calada das negociações, os elogios transformaram-nos em pressão, uma pressão que serve o mesmo objectivo de expor o Governo grego à erosão da sua base de apoio. Se dúvidas havia sobre o lado onde mora o radicalismo e a irresponsabilidade, hoje elas dissiparam-se. Nos próximos dias saberemos até onde vai o descaramento destes "adultos" que não levantaram qualquer objecção ao saberem que hoje a TAP e o Oceanário foram oferecidos a privados. Tudo corre bem quando o que é de todos pinga doce onde deve sempre pingar doce.

A verdade é que em Portugal reina um clima de amena paz social e que os ofertantes até vão à frente nas intenções de voto dos portugueses. Foi apenas mais um dia em cheio.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A casta treme


O auto-proclamado “europeísmo convicto” anda numa fona a tentar demonstrar que o Governo grego cedeu. Realmente, temos que concordar que cedeu. Não no essencial e não tanto como estes desassossegados pretenderiam, mas cedeu. E ainda não sabemos se a corte da senhora Merkel cederá ou não mas, pelo teor das posições que assumiram publicamente, também podemos dar como dado adquirido que cederá. A tão pouco tempo de eleições, só isto, a constatação de que quando há vontade política que os obrigue   a ceder eles cedem, a demonstração de que na Europa é possível negociar com cedências de parte a parte, seria capaz de pôr de calcinhas na mão três partidos  que sempre aceitaram de calcinhas na mão qualquer porcaria que lhes fosse vagamente sugerida pelo directório europeu. Se não negociaram não foi porque na Europa era mesmo assim. Foi mesmo assim porque eles nunca negociaram.
Mas há mais razões para se alvoroçarem. É olhar para um par de medidas inscritas na proposta grega e compará-las com o que as comissões liquidatárias do país que uns e outros encabeçaram têm feito por cá ao longo da última década e meia.
Por exemplo, em matéria de contribuições para a Segurança Social suportada pelas empresas e tributação dos seus lucros, os gregos prpõem um aumento da primeira e a criação de uma taxa de 12% sobre lucros acima de 500 mil euros. PSD, PS e CDS admitem haver problemas de sustentabilidade da Segurança Social mas estão de acordo quanto à necessidade de reduzir a TSU às empresas e, com os rendimentos do trabalho sujeitos à maior carga fiscal de todos os tempos, os três do arco aprovaram uma redução da tributação dos lucros que, tal como a redução da TSU que defendem, beneficia as empresas tanto mais quanto maior for a sua dimensão. Os gregos querem pôr os que mais têm a pagar o que os nossos três quiseram sacar aos que menos têm. E o directório que sempre lhes aplaudiu o que tiraram aos pobres para darem aos ricos ou aceita ou arrisca-se a dar um passo com consequências imprevisíveis quer para a moeda única, quer também para o projecto europeu.
Afinal, havia alternativas. Sempre houve. Eles é que diziam que não. E em Outubro serão julgados nas urnas. O que é que irão inventar para explicar as velhacarias que andaram a fazer na última década e meia? Pois é. Tremam agora, é a vossa vez.

Gostei de ler: "A loja dos 300 da Europa"




Imaginemos que aparecia um maluco que se oferecia para comprar uma ovelha que depois pagaria com o produto da venda da sua lã. Qualquer pastor recusaria tal negócio com duas ou três gargalhadas. Imaginemos que aparecia agora um esperto sem dinheiro a oferecer-se para comprar o Benfica com o dinheiro do produto da venda de dois ou três jogadores do actual plantel. É difícil de imaginar, não é? Nem um maluco mesmo maluco estaria disposto a arriscar-se a levar um enxerto de porrada com uma oferta destas. Já com a TAP, a EDP, a Fidelidade ou com qualquer outra empresa pública a coisa muda de figura. Estão a fazer-se negócios assim, há quem esteja a ficar com o que era de todos por tuta-e-meia ou até mesmo sem ter que pagar rigorosamente nada. Os pastores zelam pelas suas ovelhas. Os benfiquistas adoram o seu Benfica. Os portugueses desprezam o seu país.


«Ainda me lembro da primeira (e única) loja dos 300 que abriu na minha terra. Ficava ali a seguir ao largo da Câmara, logo depois do talho da Fatinha, e vendia tudo, mas mais barato. Ontem, quando olhei para as capas dos jornais, senti-me a viver numa loja dos 300. Os chineses da Fosun dizem que Portugal é o melhor país da Europa para vir às compras. Não vêm comprar sapatos, nem vidro da Marinha Grande, querem as empresas. Em três jornais distintos aparecem ligados a negócios na saúde, turismo, agricultura e comunicação social. Não para investir ou criar emprego, mas adquirir o que já existe e foi, tantas vezes, criado com o nosso dinheiro.


Percebe-se, o negócio que fizeram com a Fidelidade, que era pública, deixou um sabor a pouco. Foi há um ano que a Fosun se endividou (a 5%) para comprar a maior seguradora portuguesa por mil milhões de euros. Entretanto a Fidelidade usou os seus recursos para emprestar esse valor à Fosun, que precisava de reduzir o endividamento, mas a 3%. E ainda sobraram umas centenas de milhões para comprar imóveis de um outro negócio que o fundo decidiu fazer. A Fidelidade é uma árvore das patacas e dá imenso jeito à Fosun ter um jardim delas. Também dava jeito ao Estado, mas para isso era preciso que não tivesse sido privatizada.


Os chineses da Fosun não são os únicos, nem os primeiros. Se há muito que as fronteiras travam e destratam quem procura uma vida melhor em Portugal e na Europa, o mesmo não se aplica ao dinheiro. Os aeroportos portugueses são, na verdade, franceses, assim como a gestão das duas maiores pontes sobre o Tejo. A eletricidade portuguesa é, na verdade, chinesa. As infraestruturas elétricas nacionais são, na verdade, do Qatar. Os bancos são angolanos, como parte da comunicação social, onde agora também os fundos chineses querem entrar. Irónico, ou perigoso, dada a difícil relação que ambos os países mantêm com a noção de liberdade e democracia.


Mas ainda falta! Falta o Novo Banco, a TAP que vai, em parte, e pelo que se sabe, para o Estado brasileiro. Ainda faltam hospitais, transportes, resíduos e quem sabe, em breve, a água. O Governo esforça-se, apressa os processos e leva o país ao Mundo, em road shows para investidores em que apresenta as vantagens do paraíso português, onde tudo se vende, barato e fácil, com direito a um visto dourado. É prò menino e prà menina.


Que toquem as trompetas e se alegrem as cortes, a estratégia resultou. Portugal entrou no mapa! É a loja dos 300 da Europa.» – Mariana Mortágua, no JN.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Gréxit: série "adiamentos por consenso"


Mais um impasse, mais berros e bocas, mais um adiamento. Também já não será hoje que haverá decisão. Não o que se lê em toda a parte, se a Grécia sai ou não do euro. O que poderia ser hoje decidido seria se a Grécia sairia do euro agora. Porque sairá sempre. Com as condições impostas pelos credores a dívida irá continuar a aumentar, quem fez as contas diz que para 200% do PIB nos próximos quatro anos, este acumulará uma quebra de 40% no final dos mesmos quatro e as “reformas” requeridas pela tropa de Bruxelas voltarão a não servir para mais nada do que tornar o país ainda mais inviável à custa de sacrifícios humanos que já excederam largamente todos os limites da indecência.
A Grécia tem hoje quase metade da sua população (44%) a viver abaixo do limiar da pobreza e, pior ainda, sem condições para conseguir sair dessa situação. O desemprego jovem ultrapassa os 50%. Um terço da população não tem acesso a cuidados de saúde ou a qualquer protecção social. As pensões de reforma acumulam cortes de45%. Os salários encolheram 38%. Mais de 17% da população é incapaz de suprir as despesas com alimentação. A mortalidade infantil aumentou 40%. O que a troika de credores tem dito aos gregos é que se quiserem ficar no euro têm que continuar a permitir que esta calamidade aumente ainda mais. O que os Governos socialistas europeus lhes disseram com o seu silêncio foi que não estão para levar com a porta na cara em Bruxelas por causa deles. O que o Governo grego lhes tem dito, e esperemos que não ceda no essencial, é que finalmente existe um país na Europa que tem um Governo que representa os interesses do seu povo e que, como tal, negoceia em seu nome e não em nome do consenso europeu que até há cinco meses, com a Grécia nas mãos de capachos, estava perfeitamente à vontade para pôr os gregos a pagar com fome os negócios ruinosos que esse sindicato de moralistas foi promovendo para enriquecer os seus protegidos.
E o que todos eles nos mostram, não só aos gregos, a todos, sobretudo a nós portugueses e espanhóis, ambos com eleições marcadas para o final do ano, é que espécie de Europa é esta que arrisca fazer implodir a zona euro e desintegrar a própria UE ao insistir na imposição anti-democrática de uma solução com provas dadas de fracasso para a dívida de um país cuja economia não representa nem 2% do PIB europeu, uma Europa de mandantes e mandaretes que não abdicam de rentabilizar até onde lhes for possível os desequilíbrios macroeconómicos que eles mesmos se encarregaram de impor nos nossos países em seu proveito próprio e da agenda de reconfiguração social que mais lhes convém.
A Grécia abriu-nos as portas da esperança ao proporcionar-nos a nitidez de como o que nos resta é livrar-nos de uma vez por todas de todos eles. Sair do euro será mau e terá custos, permanecer no euro será pior ainda, fará aumentar todos os dias o preço a pagar para ficar. Mas obrigar um país a sair do euro também terá o seu preço a pagar por quem fica. Até aqui a narrativa que andaram a vender foi a de que o “Grexit” seria praticamente indolor para a grande Europa. A Grécia não cedeu e obrigou os valentões a mostrarem o que valem. Na hora de decidir, é ver como os adiamentos se sucedem e todos se encolhem – a senhora Merkel desapareceu das fotos de família – à espera que o tempo se encarregue de acabar de secar a liquidez que cortaram à Grécia. Nenhum se atreve a chegar-se à frente e arrisca ficar na História como o primeiro a assumir que o naufrágio europeu entrou na fase seguinte. Um dia teremos que explicar aos nossos netos como é que nos deixámos pilhar por cobardolas deste calibre.

sábado, 20 de junho de 2015

Gostei de ler: "A Grécia e as lições da austeridade"





«Prossegue o braço de ferro entre o governo grego do Syriza e a troika de topo do capitalismo mundial. Bruxelas, o FMI e Berlim não querem reconhecer o direito a mudar de política a um governo democraticamente eleito depois de derrotar os anteriores interlocutores da troika, responsáveis por uma política económica que levou a Grécia à catástrofe.

 Para Lagarde, Merkel e Juncker (ou o pobre Passos, fazendo-se passar por credor rico), os gregos podem votar o que quiserem desde que os seus governantes os continuem a esmifrar para pagar uma dívida que não contraíram e que só se agravou desde o primeiro dos resgates. Bem pode o insuspeito Financial Times garantir que as propostas do FMI agravarão a recessão e aumentarão para 200% do PIB a dívida grega, que a ameaça agora é: se não aceita, sai do euro, e se sai do euro, sai da UE (Martin Schulz, entrevista ao Guardian, 17.6.2015) — tese curiosa, já que 9 dos 28 países da UE não estão no euro... A chantagem continua, ainda que não tenha conseguido, até agora, esboroar o apoio popular maioritário de que o governo Tsipras dispõe. Mas é esse o objetivo: desacreditar o governo grego, barrar a possibilidade de contágio a outros países, impedir que se rompa com o euroausteritarismo liberal!

Há anos que esta discussão das dívidas (que forçaram a transformar em) públicas se tem feito como se fosse natural, e desejável, que ficasse restrita aos técnicos, aos especialistas, coisas para funcionário europeu ou do FMI, de que só entendem uns poucos economistas. Ou seja, o que sempre acontece com as políticas europeias. Ao cidadão comum solta-se umas tiradas moralistas (“os gregos mentiram!”, “os gregos vivem acima das suas possibilidades: um país corrupto do 3.º Mundo não pode ter uma segurança social à alemã!”), com um toque pseudo-antropológico (“as relações sociais na Grécia estão fundadas sobre o favor, a cunha, a fraude fiscal”) cuja base não é outra que a generalização de preconceitos dignos da conversa de turista rico com toques coloniais. É muito curiosa esta mescla de discurso tecnocrático e de moralismo rançoso, que descreve os gregos como uma família gastadora e desorganizada, habituada a viver à custa da generosidade alheia. Na Grécia, como em Portugal (e em Espanha e na Irlanda), tentou-se “esconder a verdade do público representando uma situação na qual o resgate se apresentou como benéfico para a Grécia, enquanto se promoveu um relato que retratava a população como culpada das suas próprias malfeitorias.”
 
Quem o escreve é a Comissão da Verdade sobre a Dívida Pública nomeada em abril pela presidência do Parlamento da Grécia, constituída por peritos internacionais (ou julgar-se-á que “peritos” são só os FMI e do BCE?) e que apresentou esta semana um relatório preliminar. Contrariando todo o discurso dos nossos governos austeritários, que entendem que não há nada que discutir quanto à legitimidade da dívida (“há que a pagar, ponto final!”), o Parlamento grego criou uma comissão “com o mandato de investigar sobre a criação e o aumento da dívida pública, a forma e as razões pelas quais ela foi contraída, e o impacto que as condições associadas aos empréstimos teve sobre a economia e a população.”

 Concluiu ela que o crescimento da dívida pública grega desde os anos 80 “não se deveu a um gasto público excessivo, que se manteve abaixo do gasto público doutros países da eurozona, mas sim ao pagamento de juros extremamente altos aos credores, um excessivo (...) gasto militar, perda de receita fiscal devido aos fluxos ilícitos de capital, à recapitalização estatal dos bancos privados e aos desequilíbrios criados (…) na conceção da própria União Monetária.” “O uso do dinheiro” que adveio dos dois resgates (2010 e 2012) “foi estritamente ditado pelos credores, sendo revelador que menos de 10% destes fundos se tenham destinado ao gasto corrente do governo.” Em que foram gastos, então? No resgate de bancos privados gregos e europeus: a troika passou dinheiro à Grécia (a juros, claro) para que esta pagasse aos bancos (mais juros). E dessa forma, a Grécia (como Portugal) ficou sob o protetorado de instituições internacionais de que fazem parte mas onde a sua voz não conta para nada, cedendo-lhes toda a sua soberania económica — e, automaticamente, toda a sua soberania nacional! Por água abaixo vai a tese, tantas vezes repetida por Teixeira dos Santos, Gaspar e a ministra dos swaps, de que os empréstimos servem para pagar pensões e a saúde pública, pelo que devemos estar todos agradecidos aos nossos benfeitores...

 
Recorda esta Comissão da Verdade que “vários argumentos legais permitem que um Estado repudie unilateralmente a sua dívida” quando ela é “ilegal, odiosa e ilegítima.” E cita cinco: (1) “a má fé dos credores”, que sabiam que os cortes nos salários, na saúde, na educação e na segurança social “afetariam diretamente as condições de vida e violariam os direitos humanos, que a Grécia e os seus sócios estão obrigados a respeitar, proteger e promover no quadro do direito interno, regional e internacional”, que estabelece, pelo contrário, (2) “a preeminência dos direitos humanos sobre os acordos assinados pelos governos anteriores com os credores ou a troika”. Ao contrário do que era sua obrigação legal, o antigo governo grego e os credores “evitaram avaliar os impactos nos direitos humanos do ajustamento macroeconómico e a consolidação fiscal”.

 (3) “Os acordos contêm cláusulas abusivas, coagindo a Grécia a ceder aspetos significativos da sua soberania”. Por exemplo, ao se ter imposto a “lei inglesa como legislação aplicável” em caso de litígio com os credores, o que permite “evitar invocar a Constituição grega e as obrigações internacionais sobre direitos humanos.” Isto significa que “as partes contratantes atuaram de má fé” e (4) “violaram diretamente a Constituição grega”, pelo que “os acordos não são válidos”.

 Por último, (5) o “direito internacional [reconhece que] os Estados [podem] tomar medidas contra os atos ilegais por parte dos seus credores que firam a sua soberania fiscal (…) e violem a autodeterminação económica e os direitos humanos fundamentais.”


Estados que cobrem a impunidade da banca com recursos dos mais pobres. Para melhor os controlar, regime de protetorado internacional. Se a sociedade se rebela, chantagem e esmagamento da vontade democrática. Eis as lições da austeridade e do caso grego.» – Manuel Loff, no Público.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Brincando aos números: nem a favor, nem contra, antes pelo contrário


Segundo uma sondagem hoje publicada, há 40% de portugueses que simpatizam com a solução austeritária que nos destruiu o país e nos deu cabo das vidas. É realmente fantástico. Quatro em cada dez de nós aplaude o desemprego que tem sido fomentado para fazer baixar os nossos salários, a pobreza que fez aumentar a casta de milionários do país, as empresas públicas vendidas ao desbarato que puseram o país nas mãos sujas de sangue dos novos donos estrangeiros disto tudo, o maior aumento de impostos de sempre que satisfaz os juros agiotas que temos que pagar pelos milhares de milhão que o Governo recebe emprestado para implementar esta agenda de reconfiguração social e transferência concentradora de riqueza.

Somente 43% de nós reprova o que os restantes 40% aplaudem, mas isto perguntado assim, se estão a favor ou contra a austeridade, porque se a pergunta for “qual é o partido que mereceria o seu voto se as eleições fossem hoje”, os três partidos do arco da austeridade somam 75% das intenções de voto, isto é, andarão para aí pelo menos 32% – =75%-43% – de eleitores convencidos que um desses três partidos, saberão eles qual, tem um programa diferente da austeridade contra a qual se manifestaram na resposta à outra pergunta.

Por outro lado, apenas 18% dos inquiridos manifestaram a intenção de dar a força do seu voto a uma das duas forças da esquerda de confiança que tem lutado contra a austeridade, isto é, menos 25% do que os 43% que se manifestaram contra a austeridade na pergunta feita sem partidos. A chave para as duas discrepâncias estará na abstenção: a sondagem diz-nos que apenas 56% dos inquiridos respondeu que exercerá o seu direito de voto.

Bem sei que as contas não se fazem assim mas, coincidência ou não, multiplicando uma abstenção de 44% (100%-56%)) pelos 43% que dizem estar contra a austeridade obtemos 18,9%, valor que está apenas 0,9% acima dos 18% da soma das intenções de voto nos dois partidos anti-austeridade. E se multiplicarmos os 56% de votantes pelos 75% da soma de intenções de voto no arco da austeridade, obtemos 42%, apenas 2% acima dos 40% que se afirmam a favor da austeridade, valor novamente abaixo dos 3% da margem de erro da sondagem.
Será mesmo coincidência ou o descontentamento que se vê por aí dilui-se na abstenção a que muitos recorrem convencidos que estão a punir quem lhes deu cabo da vida?

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Da longa série "cuidado com as comparações, ó Casimiro"


Tal como não há “mais” assassinos e “menos” assassinos, há assassinos, também não há mais corruptos e menos corruptos, há corruptos. E há regimes corruptos e regimes que combatem a corrupção. E regimes que sobrevivem sem combatê-la por haver tantos e tantas que se põem a defender os seus amados “menos” corruptos para se verem livres dos seus odiados “mais” corruptos, como se fosse obrigatório escolher uns ou os outros em vez de os recusar em simultâneo, sendo que recusá-los em simultâneo é o contrário de ficar à porta da loja de braços cruzados a mandar umas bocas e a ver como roubam o que é de todos. É assim que nascem os negócios como o dos derivados do plasma que o excelente trabalho de Alexandra Borges, que a TVI transmitiu nas últimas duas noites, soube retratar tão bem. Estamos lá todos, o prisioneiro 44, os candidatos a prisioneiro 45 e seguintes, a teia de clientelas partilhada por esta casta que nos diz que vivemos acima das nossas possibilidades e todos nós que, a bem ou a mal, lhes alimentamos a fortuna há décadas. Às vezes os corruptos combinam-se para enriquecer à nossa custa. O espectáculo da rivalidade com que nos presenteiam é só para nos dividir. Convém-lhes. Mais pormenores e vídeo aqui.

Rio-me de me ver tão belo neste espelho


«Que as piores propostas têm que se vestir com os melhores sentimentos, essa é uma lição tão antiga como a vida. Em política é mais do que uma lição, é um mandamento. Não se pode propor nenhum avanço de liberalização sem ser em nome da regulação, não se pode privatizar uma empresa de serviço público sem ser em nome da suprema garantia do serviço público. Essa persistente homenagem do vício à virtude requer sempre uma justificação bondosa para proceder à manobra perversa.

De modo geral, a boa regra maquiavélica para o soberano é esta: para impor uma mudança, deve obter a adesão dos mais prejudicados e mesmo o consenso dos defraudados, alegando corresponder aos seus melhores sentimentos. É assim que a política se quer eficaz, em particular quando precisa de alterar as regras de contratos firmados, portanto quando precisa de subverter o que está aceite entre todos.

As reformas do sistema eleitoral são um magnífico caso de estudo da aplicação deste princípio cínico. Para atacar a proporcionalidade, tem que ser em nome da democracia. Para reduzir o efeito do voto de uma parte do eleitorado, tem que ser em nome da sua superior conveniência.

Já aqui argumentei contra os círculos uninominais, uma obsessão de vida de António Costa, e não é tanto dos seus efeitos e justificações que agora trato. Quero só dissecar um dos seus mecanismo de legitimação, o que tem recebido maiores investimentos ao longo de muitos anos: a ideia encantatória de que é preferível acabar com o sistema eleitoral escolhido pela democracia depois de 1974, introduzindo o milagre que dará a cada pessoa o poder de eleger o “seu” próprio deputado.

Esta ideia encantatória recorre a dois arsenais. O primeiro é o da insatisfação ou do aborrecimento: convoca a desconfiança dos partidos, dos seus truques, dos seus continuismos, dos seus labirintos, da sua modorra. O discurso é denunciador e bombardeia os partidos com uma mistura de verdade óbvia (são em geral aparelhos fechados) e de populismo aceso (apontando que o problema do país serão os partidos). É um discurso fácil porque agrada. O segundo arsenal é o da proposta, ainda mais atraente: vou tomar conta da política, a partir de agora sou eu quem decide quem será o candidato pelo partido (as primárias) e, em consequência, serei eu também a decidir quem será o deputado, que responde perante mim (o círculo uninominal).

O primeiro instrumento, a denúncia, é potente. Mas é errado, porque confunde a organização burocrática e os pequenos feudos nos partidos com o resultado da escolha da política, nomeadamente a que pune os cidadãos com estratégias de desigualdade e privilégio social. Na verdade, não é porque os partidos escolhem os seus candidatos que o resultado da política é austeridade, nem será no dia em que os candidatos forem escolhidos em primárias e os deputados em círculos uninominais que a austeridade acaba.

O segundo é ainda mais problemático porque, na verdade, acentua o risco de elitização da política e o seu fechamento no bloco central que nos tem governado. Ao retirarem aos partidos o direito de escolherem os seus candidatos e candidatas, as primárias tornam-se um mecanismo para garantir a imposição do senso comum do centro político e, portanto, do privilégio das oligarquias mediáticas contra as escolhas de colectivos ou grupos militantes (mais à esquerda ou mais à direita). Em consequência, ao determinarem por via dos círculos uninominais que a representação política fica reduzida ao centro e à direita, ao PS e ao PSD, a nova lei eleitoral acentuará, e não corrigirá, as políticas de austeridade e desigualdade, ou seja o desapossamento dos cidadãos.

É de notar que esta estratégia comunicacional é útil aos partidos, a começar pela realização das primárias. Por um lado, elas refrescam a imagem do partido (o PS foi o primeiro a fazer primárias para candidato e isso facilitou que apresentasse o programa mais à direita da sua história). Por outro lado, é um modo eficaz de atracção de simpatizantes, que são convidados a eleições internas, mesmo que desse modo se oculte o debate sobre opções políticas (não foi essa ausência de clareza sobre alternativas que envenenou o debate nas primárias do PS? Não é notável que outro partido faça primárias ainda antes de reunir um prometido congresso para aprovar um programa eleitoral?). É, assim, o triunfo do Princípio Madame Castafiore, escolhe-se os candidatos em concurso de beleza, rio-me de me ver tão belo neste espelho.

Esta estratégia resulta, pelo menos a curto prazo. Tem um salero de novidade, tem boa imprensa, recruta desiludidos com a política, funciona. Mas funciona introduzindo três perversões que agravam a crise da política e essas consequências serão funestas. [continuar a ler]» – Francisco Louçã, no TME.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Submissos nos querem, erguidos nos terão



Certos painéis de alegado debate televisivo têm-me feito repescar nas minhas memórias alguns episódios que me remetem para a matriz cultural onde essas doutas opiniões vão angariando apoios.

Lembro-me, por exemplo, da primeira assembleia de condóminos a que compareci na qualidade de proprietário de uma fracção de um imóvel, quando fui obrigado a explicar à senhora administradora, que pouco antes me disse que aquilo sempre tinha sido uma família   harmoniosa onde ninguém nunca levantou problemas, que eu agora também fazia parte dessa “família” e que não tinha que pedir licença para reivindicar direitos que não dependiam do que ali se decidisse.

Ou da vez que essa mesma senhora me apareceu à porta às 9 da madrugada, explicação dela, para que o empreiteiro que a acompanhava verificasse o estado da parede exterior do prédio pela janela do meu apartamento, de como lhe pedi para regressar mais tarde e que avisasse sempre que uma visita daquelas se tornasse necessária, de como insistiu com ares autoritários, que era a administradora do prédio, de como deu meia volta depois do meu “pois, mas esta casa é minha e aqui só entra quem eu quero e quando eu quero” e de como tive que repeti-lo para apaziguar a solidariedade que os meus vizinhos dedicaram à invasora que elegeram soberana da minha privacidade e das minhas horas de sono.

Regressando aos pregadores que fizeram saltar estas linhas, a versão que escolheram para rebater a recusa de Alexis Tsipras em prostituir o mandato democrático que recebeu do seu povo e em deixar morrer a democracia da Pátria que a viu nascer aos pés das imposições dos credores apostou na sua sobreposição com outras vontades populares, alegadamente democráticas e investidas do poder supremo do dinheiro.

Mas mesmo nada democráticas. Tal como os meus vizinhos com a minha vida, os comentadores do regime reconhecem aos vizinhos alemães o direito a condenarem os gregos à miséria, o direito dos vizinhos finlandeses a exigirem uma penúria ainda maior para os reformados gregos, o direito do amigo FMI a recusar a substituição dos cortes nas pensões de reforma dos gregos por reduções em gastos com armamento, o direito dos franceses a recusarem a todos os gregos desempregados o direito a assistência na Saúde e esse luxo chamado electricidade aos mais empobrecidos pela brutalidade do ocupante externo, o direito de todos eles a continuarem a financiar a imposição de uma solução final austeritária contra a vontade soberana de um povo e o direito dos três partidos do nosso rotativismo a alinharem-se com estas imposições, a aplicarem-nos voluntariamente a mesma receita e a replicarem o desastre grego numa versão que vendem como sucesso à prova de contraditório nos meios de comunicação que dominam como querem nesta democracia moldada pelo seu quase monopólio da opinião.

Porque se assim não fosse, caso aqueles "debates" observassem padrões mínimos de contraditório, os colaboracionistas que ganham a vida a promover a subserviência aos ricos e a defender políticas que, quer na Grécia, quer em Portugal, fizeram disparar o desemprego e a pobreza, o crescimento da dívida, a destruição da Saúde, da Educação e da Segurança Social, a emigração   dos nossos jovens e a classe de novos milionários que se encheu nestes anos de protectorado ficariam expostos sempre que tomassem o partido daqueles figurões não eleitos que, ao longo de quatro meses de atitudes a todos os títulos deploráveis até mesmo numa administradora de condomínio parva todos os dias mas eleita pelos seus condóminos, tanto se esforçaram para humilhar um Governo saído de eleições democráticas num país soberano.

E é isto que está em jogo. A derrota do Governo grego constituiria o esvaziamento de qualquer mandato democrático que no futuro ousasse afrontar a estabilidade da austeridade que nos tem as vidas a saque. Seria a oficialização em definitivo de eleições legislativas nacionais circunscritas à escolha entre empobrecer à PSD ou empobrecer à PS, isto é, enterrar qualquer esperança num futuro possível de ser alterado com a força do voto. É esta a estabilidade que estes "europeístas" reclamam para si. Perdemos todos e perde a democracia, mas ficaria à vista de todos que não existe alternativa à saída do euro e, quem sabe, até mesmo à revisão da permanência numa União Europeia da qual portugueses e gregos deixámos de retirar qualquer benefício. Há submissões que duram menos, outras que duram mais, mas não há tirania que resista eternamente. A bem ou a mal, esta, a democracia deles, também há-de rebentar. Sem lhes pedir licença.