sábado, 28 de fevereiro de 2015

Da série "Pedro-espertismo", continuação


Era uma vez um Pedro - era dos tais - que acusava os gregos do que ele próprio fazia. Acumulou milhares de euros de dívidas à Segurança Social. Um dia, o jornal que lhe descobriu o calote confrontou-o com esse seu passado escondido. E o  Pedro-esperto, aflito, lá foi à pressa pagar o que devia na vã esperança de não se ver grego com as explicações que fica a dever ao país sobre mais este capítulo da sua  honesta existência. Os detalhes desta história para crianças e a diferença entre ser José António Cerejo e ser um qualquer Rodrigues dos Santos desta vida podem ser consultados  aqui.

Gostei de ler: "Credibilidade e confiança"


“A nova Europa deverá, portanto, constituir um todo: um agrupamento de países autónomos na sua governação e administração, mas orientados por princípios gerais uniformes”, o que implica “(a) o reconhecimento pelos diferentes Estados da solidariedade dos seus interesses individuais; (b) uma certa uniformização na estrutura desses Estados; (c) um acordo geral sobre os princípios e processos a adotar para alcançar os fins que se têm em vista”. O texto é de 1941, mas podia ser de 2015. Quem escrevia assim sobre os projetos de “comunidade europeia” (a terminologia era mesmo essa) que a Alemanha de Hitler queria impor à Europa na II Guerra Mundial era Tovar de Lemos, negociador económico do Ministério dos Negócios Estrangeiros, um diplomata monárquico que Salazar mandara para Berlim depois de se ter convencido (ocupação de França e dos Balcãs, isolamento da Grã-Bretanha, conquista de metade da parte europeia da União Soviética) que a Alemanha ganhara a guerra no continente.

Governando um país periférico face ao conflito, as elites salazaristas (seguindo uma tradição que se mantém até aos dias de hoje) não queriam perder um barco que os levaria, sem participar na guerra, a
entrar na Nova Ordem Europeia que Berlim ia tecendo. O mais curioso é ver como os dirigentes de um regime abertamente nacionalista se punham em bicos de pés para, já então, se fazerem passar pelos melhores amigos do chefe da pandilha: um tecnocrata dos anos 40 como era Tovar garantia a Salazar: “Podemos desde já salientar que dificilmente se encontrará na Europa outro país que apresente em relação à Alemanha tamanha similitude de instituições, de princípios de governação e de ideologias políticas e sociais como o nosso. (…) Em parte alguma encontrará a Alemanha menor necessidade de uniformização que em Portugal.” (Relatório, 15/11/1941, reproduzido em Dez Anos de Política Externa, 1936-1947)

(...)

Já muito se disse sobre esta especial vocação do Governo português (o de Passos não foi o primeiro, e não será, infelizmente o último) para fazer o papel de queixinhas do xerife Schäuble, até mesmo quando o seu vice Juncker quis vir encenar um arrependimento dissimulado e lamentar-se da humilhação infligida a portugueses e a gregos. Os intermediários nacionais da humilhação sentiram-se, naturalmente, magoados... O que me parece significativa é essa terrível pobreza da política europeia do Estado português, ou simplesmente de toda a sua política externa.
País periférico do centro europeu da economia mundial, e parceiro perfeitamente menor da estratégia norte-americana no mundo (veja-se como andam desesperados os atlantistas militantes ao verificar como Portugal aparece no item peanuts das prioridades de Washington), a única estratégia que se percebe haver, de novo, na forma como se tem posicionado Portugal na Europa e no mundo desde o fim do período revolucionário e a descolonização é a permanente procura de colagem a quem manda no mundo, isto é, aos EUA-polícia-global, por mais que a sua política crie cisões no próprio Ocidente em que Lisboa enfileira; e ao diretório de turno na Europa, o que, desde Maastricht, Tratado Orçamental e, sobretudo, o pacto com a troika, passou a ser a Alemanha, mesmo quando esta nem se preocupa em esconder a sua opção por uma UE organizada em círculos concêntricos, no mais central dos quais está apenas ela e aqueles que sigam os estritos preceitos que lhe garantam uma hegemonia económica e comercial que, desde a unificação, ela deixou de fingir querer partilhar com os demais. Os governos portugueses (direita ou PS, é indiferente) são, de resto, a par do britânico, do holandês, do dinamarquês e dos da Europa pós-comunista (a nova Europa, como lhe chamava Rumsfeld, para a distinguir de alemães e franceses que então mostravam, a propósito da invasão do Iraque, alguma autonomia), dos que mais se empenham em compatibilizar o que muitas vezes é incompatível: um atlantismo ortodoxo, que cala todas as críticas a um aventureirismo bélico americano que se tornou permanente, e um europeísmo que, sem nunca se assumir federalista, presume a cedência total a Bruxelas/Berlim da soberania económica como a melhor forma de impor aos portugueses um modelo que contradiz todos os esforços de democratização social, contornando uma Constituição que, desta
forma, passou a ser irrelevante sequer rever.

Não há aqui nenhuma nostalgia das ilusões salazaristas de manter uma certa autonomia à custa da guerra em África. Nem a solução está em oferecer a base das Lajes aos chineses; há tanta criatividade nessa proposta quanto há na venda das nossas empresas públicas a chineses, franceses, angolanos... O horror que povoa os corredores do poder de Lisboa face à reivindicação grega de autonomia e a vontade (até agora vã) de construir uma frente das economias sobreexploradas pela dívida diz tudo de quão pequena e tacanha é a política externa portuguesa.» - Manuel Loff, no Público.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Portugal não é a Grécia


Quando a sondagem que hoje dá um “empate técnico” entre a coligação PSD/CDS e o PS foi elaborada, ainda não tinha estourado a bomba. Mas agora, já depois do país ter ficado a saber que os líderes dos três partidos do memorando estão de acordo que Portugal está muito melhor do que há quatro anos, o “empate técnico” vendido pelo Expresso perde grande parte do que lhe restava de sentido: não são 38 por cento de um lado e 38 por cento do outro, pode perfeitamente ser uma soma de parcelas que corresponde a uma maioria qualificada se considerarmos os três partidos do arco da austeridade ou uma confortável maioria absoluta se admitirmos a possibilidade de PSD e PS chegarem a um acordo quanto a mandarem Paulo Portas ir dar uma volta de submarino. Evidentemente, isto será apenas uma ideia maluca enquanto a comunicação social do regime contornar o cenário cada vez mais provável de uma reedição do Governo Nova Democracia-PASOK que destruiu o que restava destruir na Grécia entroikada. Austeridade ou austeridade? A sondagem diz que os portugueses continuam indecisos entre ambas.

Gostei de ler: "O bom aluno"


«Em 1992, numa entrevista a um canal de televisão grego, o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari incitava os gregos a recusarem as regras que fazem da política europeia um teatro de sombras semelhante ao que a lei edipiana faz na família: “A Grécia é o mau aluno da Europa. É essa a sua qualidade. Felizmente que há maus alunos, como a Grécia, que trazem a complexidade. Que trazem uma recusa de uma certa normalização germano-francesa. Por isso, continuem a ser maus alunos e continuaremos bons amigos.” Em Portugal, nessa altura, já estávamos a ser ungidos pela metáfora do bom aluno e ainda hoje transportamos o brilho intenso e o contentamento sem reserva que a metáfora irradia.

O que é, neste caso, um bom aluno? O bom aluno caracteriza-se por um determinado comportamento, por um programa de acção, mas é também aquele que interiorizou convictamente uma moral, ao ponto de política e moral serem para ele a mesma coisa. A dívida, como sabemos muito bem, segrega uma moral própria. Um breve exercício genealógico ajuda a perceber porquê. Actualmente, já não é preciso ter lido a Genealogia da Moral, de Nietzsche, para saber que o conceito moral de culpa remonta ao conceito material de dívida, que, por isso, se diz, em alemão, exactamente com a mesma palavra — Schuld.

A figura do “homem endividado”, que o sociólogo italiano Maurizio Lazzarato definiu como o representante por excelência da condição neoliberal, é afinal a figura típica de uma economia da salvação, como nos lembrou Walter Benjamin num célebre fragmento de 1921 sobre O Capitalismo como Religião, onde define o capitalismo como uma religião sem dogma, caracterizada pela celebração de um culto sem tréguas, para o qual não existem dias feriados. “Este culto”, diz Benjamin, “é gerador de culpa” (ou de dívida, já que a palavra verschuldendsignifica as duas coisas). E acrescenta: “O capitalismo, com toda a probabilidade, é o primeiro caso de um culto que não redime o pecado, mas gera culpa” (isto é, dívida). Uma culpa que não pode ser expiada — e essa é a condição paradoxal da religião capitalista — mas tornada universal.

O bom aluno é aquele que interiorizou plenamente a moral da culpa e sabe que deve comportar-se como um ser em débito. Haverá algum momento em que a culpa vai ser expiada, isto é, em que o débito vai ser saldado? Evidentemente que não. Por isso é que se criou a figura da “dívida eterna” ou infinita. Por ela, o homem endividado interiorizou para sempre a dívida e é isso — e não que a pague de uma vez por todas — que o credor lhe exige. Comentando Nietzsche, escreveu Deleuze: “A dívida torna-se a relação de um devedor que nunca acabará de pagar e de um credor que nunca acabará de esgotar os interesses da dívida.” O infinito que o cristianismo introduziu na religião, reinventa-o o capitalismo ao nível económico, num plano imanente.

Para se tornar um bom aluno, como lhe é exigido para continuar a dar-lhe crédito, a Grécia não precisa de pagar a sua dívida — que é infinita e eterna. Tem é de dar como garantia do fictício e sempre diferido reembolso um conjunto de virtudes sociais e políticas que são a carne e o sangue da moralidade a que está obrigada. Tem de sujeitar-se eternamente ao performativo da promessa. Não é que as promessas paguem dívidas, mas são um reconhecimentos e uma ritualização da culpa. Em suma: é preciso que o modo de existência da Grécia, o seu ethos, seja determinado pela culpa que todos os bons alunos interiorizaram e que os faz arrastarem-se, de ombros descaídos e olhar baixo, sempre que está por perto um supremo credor.» – António Guerreiro, no Público.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Da longa série "sucessos/melhorias"


Por serem sistemáticas as desconformidades na urgência, sendo frequente existir um só elemento escalado para o Atendimento Geral durante o dia e a noite, porque as condições de trabalho se têm vindo a degradar desde Novembro pondo em risco a segurança dos doentes, tal como o fizeram os do Garcia de Horta e do Amadora-Sintra, Os chefes de equipa do serviço de urgência do Hospital do Litoral Alentejano também se demitiram em bloco  esta quinta-feira. Isto é capaz de ser ou o sucesso do "ajustamento" português que enche de orgulho a Ministra das Finanças e o seu patrão alemão, ou as melhorias registadas no país conseguidas com a preciosa contribuição dos chineses que fizeram o favor de nos ficar com os 3 milhões de lucros diários da EDP, que o grande estadista António Costa teve oportunidade de agradecer em nosso nome. Mas também pode ser o tal pecado cometido contra a nossa dignidade que começou com o memorando que o arco destes senhores aceitou assinar de cruz em 2011 e que se depender deles – estão de acordo que o país está cada vez melhor – se prolongará pelas próximas duas décadas, não sei. As sondagens vão-lhes dando toda a razão para se manterem fieis ao que sempre foram.

Vagamente relacionado: A Comissão Europeia afirma que o sistema de protecção social português "não foi capaz de lidar" com o aumento da pobreza nos últimos anos, salientando que os cortes nos apoios sociais afectaram "desproporcionalmente" os mais pobres. "O impacto das transferências sociais (excluindo as pensões) na redução da pobreza diminuiu de 29,2% em 2012 para 26,7% em 2013, o que sugere que o sistema de protecção social não foi capaz de lidar com o aumento repentino do desemprego e com o consequente aumento da pobreza", critica Bruxelas.



Gostei de ler: "Portugal, 2015"



«Portugal em 2015 está um país muito esquisito, amorfo e ao mesmo tempo zangado; cansado e ao mesmo tempo agitado, cheio de "criadores culturais" e ao mesmo tempo ignorante como nunca; egoísta, mas incomodado pelo seu egoísmo, com má consciência. (...)

Olhe-se em volta. Nos cinemas dos centros comerciais (não há outros), a parte da Humanidade que é do sexo feminino faz fila para comprar bilhetes para ver um vago filme erótico, com chicotes e algemas, mas onde tudo é bonito, milionário, com gosto e controlado, asséptico. Parece que o sadomasoquismo chique está na moda entre as mulheres. Na verdade, não é uma grande novidade, mas presumo que os homens se interrogam sobre o que é que não tinham percebido nas suas mulheres, companheiras, namoradas, amantes e seja lá o que for. Vão continuar sem saber nada.

A crise grega entra nas redes sociais por via da roupa do ministro Varoufakis. Discute-se o blusão de couro, o cachecol, as camisas de fora ou de dentro. Não admira. Muita da nossa inteligência feminina, metrossexual e gay gosta muito de discutir roupas e ocasionalmente gatinhos. Sendo assim, não admira que tenham passado dos sapatos Prada, dos fatos Armani e Boss do nosso ex-primeiro-ministro caído em desgraça, para a discussão contínua das gravatas e terminar na mais imbecil crítica feita alguma vez a Passos Coelho, a dos fatos suburbanos de segunda. Essa gente não se enxerga mesmo. É isto segredo para alguém, indiscrição, boato, ou má língua? Não, não é. É o conteúdo habitual desse ruído moderno do Twitter e do Facebook, feito por gente que diz abominar a Caras e a Lux e faz muito pior.

O que tem mais graça, aliás o que é mais ridículo, é que esta gente que discute roupas, restaurantes e outros ademanes da cultura urbana, que fazem a Time Out ganhar a sua vida (honestamente), é toda muito de esquerda, muito de causa dos costumes, muito do social, muito modernaça. Seja dito, no entanto, que há também uma fauna de direita, muito "ajustadora", que é exactamente igual. Aliás dão-se bem e exercem activamente a boa prática do fishing for compliments, ajudando-se uns aos outros na luta pela vida. (...)

Em política, Pavlov reina como mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza, Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos "porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são sombrias. (...)

Enganam-se se pensam que são os esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo. Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o "protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil servindo para fazer o sale boulot alemão.» – Pacheco Pereira, na Sábado.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Tanta barulheira e afinal....


"Como nós dizemos em Portugal, os amigos são para as ocasiões. E numa ocasião difícil para o País, em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e vencer a crise, a verdade é que os chineses, os investidores disseram presente, vieram e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos atrás.” Quem disse isto não foi nem Pedro Passos Coelho, nem Paulo Portas, nem nenhuma figura do PSD ou do CDS. Foi António Costa. O PS entrou assim no ano da cabra. Foi você que pediu um Governo do arco do memorando/troika/austeridade?



Vagamente relacionado (tema austeridade selectiva): Afinal, a isenção de taxas e compensações urbanísticas que a Câmara de Lisboa propôs à Assembleia Municipal que fosse concedida ao Benfica não é de 1,8 milhões de euros, mas sim de 4,6 milhões de euros. O número foi avançado pela Presidente da Assembleia Municipal, Helena Roseta.

Série "poupanças" - continuação das continuações anteriores


Com contas de merceeiro em fundo, por estes dias tem-se falado em chumbos e em vacinas. Apesar de reconhecer a sua eficácia na protecção de bebés e crianças contra alguns tipos de infecções graves como a meningite, a pneumonia e a septicémia e de admitir que a vacinação dos mais jovens reduziria o número de pneumonias nos mais idosos, uma das principais causas de morte, o Ministério da Saúde anda há anos a protelar – eles chamam-lhe “estudar” – a inclusão de uma vacina no plano nacional de vacinação, uma medida que, sem regatear preços com a farmacêutica respectiva, custaria anualmente nem 20 milhões de euros. No sector da Educação, David Justino concluiu aturados estudos sobre a problemática dos chumbos e entre as suas conclusões vem a proposta de acabar com as retenções para “poupar” 600 milhões de euros. De repente, as nossas vidas tornaram-se contas. Contas muito mal feitas. Poupar por poupar, poupar-se-ia bastante mais acabando de vez com o sistema de ensino e com o plano nacional de vacinação. Mas poupar por poupar fica muito caro. Tardará menos do que o espaço temporal de uma geração para chegar a conta da falta de quadros gerada pelo desmantelamento em curso da Escola pública. Já vai chegando todos os anos a conta dos internamentos causados pelas “poupanças” na prevenção que os evitaria. E as mortes também não entram nestas contas feitas ao ano sem contabilizarem custos de longo prazo e igualando a zero todas as parcelas relativas a sofrimento humano. A Alemanha exige determinado quociente anual, os capatazes cá do sítio põem o país inteiro a sangrar para se aproximarem desse valor. Depois, em data com vantagens recíprocas, aparece a Ministra a receber elogios do patrão alemão no telejornal. Eles sabem que haverá sempre quem fique muito bem impressionado e aplauda o elogio da destruição do seu país. E que o resto desta conta se poupa nas reacções e insiste em não contar para nada. Seja feita a sua vontade. Não há porque fazer-lhes caso.


Sobre a dimensão do “caso de sucesso” português: "Em Portugal, apesar dos progressos consideráveis na implementação do programa de ajustamento, permanecem riscos importantes, como o elevado nível de dívida e de desemprego, o que nos leva a colocar o país na categoria de desequilíbrios excessivos, que requerem acções decisivas e vigilância permanente", anunciou hoje o comissário europeu para a Economia, Pierre Moscovici. Isto ainda mal começou.

Gostei de ler: "Post Interdito A Pessoas Politicamente Correctas E Crianças Em Geral"


«Estou A Precisar De Uma Recomendação De Especialistas… ou relatores ou conselheiros, parentais ou outros, acerca de um aluno meu do 5º ano.

Penso ser uma coisa na área da Saúde e a mim carecem os conhecimentos e sobram desconhecimentos.

É que ele boceja imenso nas aulas, muito ruidosamente, assim de forma escancarada e a seguir aos lanches da manhã arrota sonoramente, benzódeus e alá (não discriminemos), o que me dizem ser contra as regras da cortesia social e desperta muita gargalhada no resto dos colegas.

Eu, como sabem, tenho um trauma por ser fascista e um professor muito retrógrado como disse aquele político que era bloquista e agora vai avançando para o ps, pelo que receio excluí-lo (ao aluno) e contribuir para uma cultura punitiva arcaica.

Diz-me @ DT que de casa dizem que não sabem já o que fazer, que ele em casa não é assim e que a vida e coiso está difícil e sai-se cedo e chega-se tarde quando se consegue ter emprego.

De cadernos tenho notícia ocasional e de colaboração na aula ficámos falados lá acima, com o acréscimo da frase mais comum “o que é que eu fiz desta vez?”

Já o tentei sensibilizar de diversas formas, mas se o mantenho na sala tenho queixas de parte dos alunos que dizem que ele os distrai e se o mando sair tenho quem me diga que não sei controlar a sala de aula.

Eu sei que os especialistas, relatores, conselheiros unânimes e demais gente que sabe disto, me dirá que isto são casos particulares e que eu devo desenvolver as minhas skills de forma a motivar para as aprendizagens, que o problema é meu e que se, de algum modo, limitar a liberdade do aluno lhe pode provocar danos na auto-estima  e problemas emocionais gerais e específicos de diversa ordem.

Que isto é tudo casuístico e que eu tenho sempre uma miopia terrível em relação ao grande cenário do custo por aluno e da ausência de provas sobre os ganhos é um dado adquirido.

Os sampaios dirão que eu estou a falhar na comunicação e os sebastiões que eu estou a promover a tal exclusão e que os alunos que se queixam estão a vitimizar-se sem necessidade. E que eu sou limitado e deveria dar lugar a gente nova, com capacidade para levar com meia dúzia de arrotos e nem pestanejar.

Não vos queria dizer ou chocar mas isto, numa daily basis, é uma grande bosta.

E olhem, eu até critiquei aquela doutora muito professora por traçar um quadro apocalíptico das salas de aula.

Isto é mais uma moínha.

Aguardo a recomendação… não é preciso ser no trebuchet oficial.

Podem mandar em vídeo.» – Paulo Guinote, no A Educação do meu umbigo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Jogar com o tempo


Como "primeiro passo", ponto de partida dependente de uma "avaliação positiva" posterior do "programa", o Eurogrupo acaba de aprovar à condição a lista de reformas que lhe foi apresentada pelo Governo grego. Ou seja, não foi uma aprovação incondicional, mas também não foi  a rejeição liminar pretendida por alemães e alemãezinhos, leia-se, Portugal e Espanha. O Eurogrupo acusa os efeitos da ofensiva mediática desenvolvida pelo Governo grego junto das opiniões públicas europeias e, sem margem política para assumir uma rejeição imediata das propostas gregas, decidiu jogar com o tempo e apostar numa guerra de desgaste em duas frentes, a das "reformas estruturais" – a agenda de reconfiguração social de concentração de riqueza que destruiu a Grécia – que continua a exigir por um lado e a da erosão da base eleitoral do Governo grego, por outro. A corda ainda não partiu, mas pode partir a qualquer momento. O lado alemão irá tentar fazê-la partir no momento mais apropriado para evitar que o efeito Syriza alastre pela Europa em ano de eleições em Espanha e em Portugal. O lado até agora totalmente ganhador sabe que tem tudo a perder. Oxalá o lado até agora totalmente perdedor, o dos cidadãos europeus, perceba que só tem a ganhar em cerrar fileiras e fazê-los cair. Os gregos já começaram a ganhar. E note-se que apenas ganharam. Não perderam rigorosamente nada.

Coxa que te quero coxa


O clássico. Os Uns dirão que a culpa é dos outros, os outros que a culpa é dos uns. E terão todos razão, a responsabilidade à qual tanto gostam de referir-se usando a palavra “culpa” é de todos os que passaram pelo Governo, ou melhor, de todos menos daquela inimputável senhora que diz que a impunidade acabou. Uma  inspecção realizada há mais de um ano e apenas agora revelada ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), a unidade do Ministério Público especializada na investigação da criminalidade complexa e organizada, revelou uma profunda desorganização no funcionamento daquela estrutura entre 2009 e 2013, polícias recrutados por amizade, gastos avultados, uma distribuição dos inquéritos sem qualquer critério e atrasos que chegam aos 10 anos na tramitação dos processos de prevenção de branqueamento de capitais. Como se constata mais uma vez, o romance entre a impunidade e a corrupção não é obra do acaso, é herança de um centrão nada interessado em ter mais do que uma Justiça coxa a correr atrás de si.

Gostei de ler: "Dignidade, aquele conceito que o Governo não entende"


«1. “Pecámos contra a dignidade dos povos, nomeadamente na Grécia e em Portugal e muitas vezes na Irlanda”. As declarações do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, proferidas a propósito da actuação da troika, perante os representantes dos Estados-membros e transmitidas pelos órgãos de comunicação social, constituem um mea culpa formal e em termos raramente ouvidos da boca de um político.

Juncker considerou que a troika era um órgão sem legitimidade democrática e que a Comissão Europeia agiu de forma errada ao dar-lhe carta branca para impor políticas de austeridade aos Estados-membros e ao “confiar cegamente” nela. Juncker considerou que, no domínio da assistência financeira aos estados, “tudo deve ser revisto” e admitiu mesmo que parecia “estúpido” ao dizer isto agora, ele que foi presidente do Eurogrupo, mas que é necessário “aprender com as lições do passado e não repetir os mesmos erros”. Mas Juncker não disse apenas que a troika foi ineficaz. Ao usar a expressão que usou, o presidente da Comissão introduziu um julgamento moral que não pode deixar de ser pesado. Para Juncker, a acção da troika não foi apenas tecnicamente errada. Ela foi também politicamente contraproducente e moralmente inaceitável.

É impossível não concordar com o político luxemburguês quando diz que faz figura de parvo ao admitir agora isto, enquanto se calou antes, mas é evidente que Juncker, que de estúpido terá pouco, o diz hoje porque o pode dizer sem grandes custos e não o podia dizer antes sem arriscar a cabeça.

O que faz com que Juncker tenha ganho este espaço de manobra não é apenas o facto de ser hoje presidente da Comissão Europeia, mas o facto de a posição do novo Governo grego ter obrigado as instituições europeias, os governos europeus, as instituições financeiras, os analistas, os media e a opinião pública a uma reavaliação do papel e da legitimidade da troika que dificilmente poderia ter outro resultado.

Se não houvesse outra razão, esta seria já uma boa razão para nos congratularmos com a eleição do Syriza na Grécia.

2. As declarações de Juncker são raras num político, mas não são a história toda. E a história toda poderia fazer deste episódio um case study nos cursos de relações internacionais, se Passos Coelho e o seu Governo tivessem relevância política ou intelectual para ficarem na história.

A história completa-se com a reacção do Governo português às declarações de Juncker, pela boca de Marques Guedes, ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares, que considerou as declarações do presidente da Comissão Europeia “infelizes” e garantiu que a dignidade de Portugal “nunca foi beliscada” pela troika.

Como se pode entender que, por um lado, a Comissão Europeia diga que ofendeu a dignidade dos portugueses, que se penitencie pelo facto e que afirme que isso não pode voltar a acontecer, e que, por outro lado, o Governo português responda que não senhor, que a dignidade dos portugueses não foi ofendida, que não há razão para penitências nem para falar de indignidade?

A explicação é chocante, mas simples: acontece que Jean-Claude Juncker é mais exigente na defesa da dignidade dos portugueses do que o Governo português.

Para Paulo Portas (que instituiu oficialmente o regime de “protectorado” de Portugal sob a tutela das potências europeias sem o mínimo sobressalto patriótico, como se se tratasse apenas de um contratempo menor) e para Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, para quem servir os credores de Portugal é a mais alta das honrarias, é difícil imaginar o que seria ofender a dignidade dos portugueses, porque o conceito de dignidade do povo português é algo extremamente vago, que se encontra subalternizado em relação à vassalagem devida aos mais fortes e à admiração devida aos mais ricos.

Outra razão por que o Governo português e o seu ministro porta-voz receberam mal a afirmação de Juncker é porque ele fechou, de facto, a porta à troika e disse que esta indignidade não pode voltar a acontecer, mas, caso se apresentasse outra oportunidade, o Governo em bloco gostaria de obedecer de novo às ordens da troika, mesmo sendo ela arrogante, antidemocrática e ineficaz, porque sabe que isso agrada aos seus maiorais.

3. Quando o Governo grego disse que não negociaria com a troika e acabou por aceitar negociar com — além do Eurogrupo — a Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu, houve quem tivesse falado de uma mera “questão de semântica”, já que estas três instituições eram, de facto, a troika. Mas há uma diferença política fundamental. Há um mundo de diferença entre ter ministros a negociar com Christine Lagarde, Mario Draghi e Juncker ou ter os mesmos ministros a obedecer a três burocratas com imenso poder, imensa arrogância, nenhuma legitimidade e nenhuma flexibilidade. Para perceber como isto é diferente, basta ver as diferenças entre o discurso dos dirigentes do FMI e a posição do funcionário do FMI na troika durante o “programa” português. A Grécia conseguiu arredar a troika do panorama e, também por isso, a vitória do Syriza é importante para a Europa.» – José Vítor Malheiros, no Público.

«(...) O governo grego não tem nem terá qualquer aliado entre os outros governos: o centro está alinhado com Merkel, porque esse é o efeito de uniformização política produzido pelas regras europeias, que só reconhecem os mercados financeiros. Dos partidos socialistas não “vêm reforços”, só vem austeridade. Mas, entretanto, o quadro institucional está a mudar radicalmente, porque o governo alemão, o tirano silencioso, passou a conduzir as negociações e as decisões. Numa palavra, sentou-se no trono. Dijsselbloem, em nome de Merkel e sem vergonha nem hesitação, retirou na segunda feira uma proposta de acordo negociada por Juncker e o presidente da Comissão Europeia desvaneceu-se. O fechamento institucional da Europa acelerou-se com esta crise e não tem remédio. (...)»

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sobre salário mínimo



De entre as intenções do novo Governo grego, porventura aquela que mais reacções despertou no meu pequeno mundo de relacionamentos foi a restauração do seu valor para aquele que vigorava antes da ocupação externa. A maioria refere-se-lhe nos mesmos termos em que o faz a comunicação social, chama-lhe “subida”, e reproduz a tese dos “especialistas” da imprensa económica que vaticinam que a economia grega não resistirá à devolução desta parcela de dignidade que, a mando da troika, os Governos anteriores roubaram aos gregos, quando o que objectivamente se verifica é que a economia grega não resistiu ao roubo, encolhendo-se para três quartos da riqueza que produzia anualmente antes da “ajuda”e fazendo o desemprego disparar para mais do dobro. Sem dúvida alguma, os “especialistas” têm feito um excelente trabalho, tanto mais que por cá os efeitos devastadores da contínua desvalorização salarial, tornada política oficial em Portugal depois da adesão ao euro, se notam por toda a parte com cada vez mais intensidade numa crise à prova de “especialistas” que entrou no nosso quotidiano vai para quinze anos. Vem no I de hoje: “desde 1999, ano do nascimento do euro, até este ano, Portugal foi o quarto país que menos aumentou o salário mínimo no conjunto de 21 países da União Europeia”. A actualização do salário mínimo para mínimos de decência não é mera questão de justiça social, é também e sobretudo um imperativo de racionalidade económica.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Gostei de ler: "As trombetas do poder"


«O "jornalismo" económico em Portugal caracteriza-se por não ser jornalismo. Há alguns jornalistas económicos que não merecem aspas? Há sem dúvidas, mas são a excepção da excepção. E eles são os primeiros a saber que o são e como são verdadeiras as afirmações que aqui faço. Até porque fazer jornalismo na imprensa económica é das coisas mais difíceis nos dias de hoje. Fica-se sem "fontes", sem a simpatia dos donos e dos anunciantes e pode-se ficar sem emprego.

A maioria que escreve na imprensa "económica" fá-lo entre páginas e páginas feitas por agências de comunicação, artigos enviados por auditoras e escritórios de advogados, fugas "positivas" de membros do Governo. Quase tudo é pago nessa imprensa, mas esse pagamento não é o salário normal do jornalismo, mas o seu "modelo de negócio", "vender comunicação" como se fosse jornalismo. É pago por empresas, associações de interesse, agências de comunicação e marketing, por sua vez empregues por quem tem muito dinheiro para as pagar.

O público é servido por "informação" que não é informação, mas publicidade e comunicação profissionalizada de agências, dos prémios de "excelência" disto e daquilo, destinados a adornar a publicidade empresarial, páginas encomendadas por diferentes associações, grupos de interesse e lóbis, nem sempre claramente identificados,anuário sem que só se pode estar se se pagar, organização de eventos que parecem colóquios ou debates, mas não são.

Um cidadão que não conheça estes meandros pensa que o prémio é competitivo e dado por um júri isento, que as páginas especializadas são feitas pelos jornalistas e que quem é objecto de notícia é-o pelo seu mérito e não porque uma agência de comunicação "colocou" lá a notícia, que um anuário é suposto ter todos os profissionais ou as empresas de um sector e não apenas as que pagam para lá estar, e que um debate é para ser a sério, ter contraditório e exprimir opiniões não para a propaganda governamental ou empresarial. O acesso ao pódio nesses debates é cuidadosamente escolhido para não haver surpresas, e os participantes pagam caro para serem vistos onde se tem de ser visto, num exercício de frotteurisme  da família das filias.

As trombetas do poder (2)

Um dos usos que o poder faz deste tipo de imprensa é a "fuga" punitiva. Dito de outro modo, se o Governo tiver um problema com os médicos, ou com os professores, ou com os magistrados, ou com os militares, aparece sempre um relatório, ou uma "informação" de que os médicos não trabalham e ganham muito, que os professores são a mais e não sabem nada, que os magistrados são comodistas, e atrasam os processos por negligência, e que os militares são um sorvedouro de dinheiro e gostam de gadgets caros. E há sempre um barbeiro gratuito para o pessoal da Carris, ou uma mulher de trabalhador do Metro que viaja de graça, em vésperas de uma greve.

As trombetas do poder (3)

A luta contra a corrupção, seja governamental, seja empresarial, a denúncia de "más práticas", os excessos salariais de administradores e gestores, a transumância entre entidades reguladoras e advocacia ligada à regulação, entre profissionais de auditoras e bancos que auditavam e vice-versa, o embuste de tantos lugares regiamente pagos para "controlar", "supervisionar", verificar a "governance" ou a "compliance", para "comissões de remunerações", a miríade de lugares para gente de estrita confiança do poder, que depois se verifica que não controlam coisa nenhuma, nada disto tem um papel central na imprensa económica.

A maioria dos grandes escândalos envolvendo o poder económico foram denunciados pela imprensa generalista e não pela imprensa económica, que é suposto conhecer os meandros dos negócios. A sua dependência dos grandes anunciadores em publicidade, as empresas do PSI-20 por exemplo, faz com que não haja por regra verdadeiro escrutínio do que se passa.

As trombetas do poder (4)

Esta imprensa auto-intitula-se "económica", mas verifica-se que reduz a "economia" às empresas e muitas vezes as empresas aos empresários e gestores mais conhecidos. Os trabalhadores, ou "colaboradores", é como se não existissem.

Um exemplo típico é Zeinal Bava, cuja imagem foi cultivada com todo o cuidado pela imprensa económica Agora que Bava caiu do seu pedestal, como devemos interpretar as loas, os prémios, doutoramentos honoris causa, "gestor do ano", etc., etc.? A questão coloca-se porque muita da análise aos seus comportamentos como quadro máximo da PT é feita para um passado próximo, em que teriam sido cometidos os erros mais graves. Onde estava a imprensa económica? A louvar Zeinal Bava, como Ricardo Salgado, como Granadeiro, como Jardim Gonçalves, como… Até ao dia em que caíram e aí vai pedrada. (...)» – Pacheco Pereira, na Sábado.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Este camarada


Como sabemos, manifestar simpatia é muito diferente de apoiar. Manifestar simpatia não compromete ninguém. Um bom exemplo de alguém que nunca se compromete com nada e vai tentando tirar partido de eventuais confusões entre as suas manifestações ocasionais de simpatia pelo Governo grego e o apoio que nunca lhe expressou publicamente é António Costa. Não perdeu tempo em fazê-lo novamente no comentário que fez à reunião do Eurogrupo de ontem: “qualquer português fica perplexo quando vê as noticias no final do Eurogrupo e percebe que o Governo português, em vez de querer que os portugueses e a economia portuguesa beneficiem da flexibilidade da austeridade, quer aumentar a agonia da austeridade dos outros”, disse à saída de uma conferência de líderes socialistas europeus em Madrid. Se toda a razão que tem no que diz relativamente ao Governo português ninguém lha tira, o local que escolheu para dizê-lo não poderia ser melhor para ilustrar  como a diferença atrás citada vai povoando as intervenções de um Costa que apenas quer parecer e não ser diferente daqueles que critica: por que razão não estendeu a crítica aos seus camaradas, por exemplo, Hollande e Renzi? Seja lá o que tenha conquistado ontem, a Grécia nada lhes deve. A França e a Itália, aliás como todos os demais países governados por "socialistas",encolheram-se ao lado da grande Alemanha e ajudaram-na no seu propósito de prolongar ao máximo a agonia da austeridade que, tanto como os países governados por liberais e conservadores, impuseram à Grécia em capítulos anteriores deste naufrágio europeu. À Costa.

Ontem negociou-se


Um acordo de princípio à condição, que ainda não se sabe se irá durar apenas três dias, o pior dos cenários, ou se quatro meses, o melhor. Tudo é melhor do que nada, pelo que ser melhor do que nada nunca será vitória para ninguém. Mas no saldo provisório da reunião do Eurogrupo de ontem há a registar um enorme recuo da intransigência tentada pela Alemanha ao longo de toda a semana, que a tradicional subserviência dos restantes países nunca conseguiu contrariar, e a primeira vez em muitos anos em que se discutiram políticas, afinal havia alternativas, e que umas eleições conseguiram dar voz aos eleitores nas instâncias europeias, há muito tempo que a vontade das pessoas não se conseguia fazer ouvir ali, onde os seus destinos são decididos por uma gente que não as considera mais do que centros de custos e de proveitos. E nada disto é pouco. Será esta voz que o Governo grego irá verter nas propostas que apresentará na próxima Segunda-feira, de igual para igual, não de membro convidado para membros de pleno direito, pelo que teremos que aguardar até lá para fazer o balanço final do quanto conseguirá avançar, e note-se bem que serão sempre avanços, o recuo será sempre relativamente à sua intenção inicial de avançar mais rapidamente. Empresa difícil.

Ficámos a saber como decorrem estas reuniões quando há uma voz dissonante. São 18 contra 1, a Comissão Europeia eclipsa-se, a Alemanha senta-se numa sala, a voz noutra, nada de confianças de todos sentados à mesma mesa, o diálogo faz-se através de documentos que circulam pelo corredor carregados por estafetas, os restantes estados ou são tão alemães como a Alemanha ou esforçam-se por sê-lo ainda mais, como fizeram Portugal e Espanha, que apostaram tudo em impedir um acordo final apesar de serem precisamente aqueles cujo interesse nacional mais coincide com o grego. Uma conduta tão miserável ao ponto de Janis Varoufakis invocar as "boas maneiras" para não comentar as  posições defendidas por Maria Luís Albuquerque. A nossa vergonha tudo fez para vergar a dignidade grega. Fracassou, como inexistência que nem mesmo ajoelhando-se consegue deixar de ser. Ontem negociou-se. E mais uma vez foi o Governo grego que representou o interesse nacional de Portugal.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, disse este sábado numa declaração televisiva que o acordo de ontem com o Eurogrupo “deixa para trás a austeridade, o memorando, a troika”, mas que as “dificuldades reais” estão para chegar. “O acordo de ontem com o Eurogrupo… cancela os compromissos dos governos anteriores para cortes nos salários e nas pensões, para despedimentos no sector público, para subidas do IVA na alimentação , na saúde”. “Ganhámos uma batalha mas não a guerra". “Evitámos a asfixia da Grécia”, “mas o pior vem agora". “Com o decisivo apoio do povo grego".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Gostei de ler: "O euro em fase terminal"



«Quando participei no primeiro debate televisivo realizado em Portugal sobre o euro ("Prós e Contras", 15 Abril 2013), afirmei que a moeda única iria acabar. Da mesma forma que a Inglaterra de 1931 não aguentou a política de austeridade imposta por um sistema monetário que excluía a desvalorização da moeda - no padrão-ouro, o reequilíbrio externo teria de ser alcançado por redução dos salários, a chamada "desvalorização interna" -, também nos nossos dias, um dos países sujeitos à política cruel imposta pela UE acabará por sair. O primeiro será a Grécia, os outros vão a seguir, ao ritmo do respectivo ciclo político.
Entretanto, o discurso do medo voltará às televisões. Dir-nos-ão que sair do euro é uma calamidade porque perderemos metade do poder de compra, que os bancos vão falir e perderemos as nossas poupanças, que o Estado não pagará aos funcionários públicos e pensionistas, que seremos excluídos dos mercados para todo o sempre e, argumento último de quem está inseguro, que a Alemanha nos invadirá para restabelecer a ordem. Do serviço público de televisão, gerido por comissários políticos, não se pode esperar uma informação isenta e fundamentada. Não haverá recolha de depoimentos de especialistas estrangeiros que ponham em causa o pensamento dominante, não haverá debate honesto com uma participação plural que ultrapasse o discurso partidário rotineiro. Dos canais privados também não podemos esperar que cumpram as exigências básicas de pluralismo, nem que as autoridades competentes o exijam. O que temos visto fala por si. Aliás, os analistas que ocupam o palco estão no bolso dos grupos económicos e da finança. Um governo de salvação nacional também terá de resgatar a comunicação social e pô-la ao serviço do interesse público.
Recordemos então algumas ideias simples que os portugueses não têm direito a debater nos media de grande audiência. Quando Portugal sair do euro, todos os contratos realizados sob jurisdição nacional ficam automaticamente redenominados em novos escudos, segundo a jurisprudência internacional ( lex moneta , 1 escudo = 1 euro). Assim, todos os empréstimos bancários, depósitos, salários, pensões, preços nas lojas, etc., passam a escudos e, a partir desse dia, o Estado apenas paga e recebe em escudos. O Estado fica sem problemas de liquidez porque os seus défices - necessários para estimular a economia - ficam cobertos por financiamento interno, quer do sector privado, que procura obrigações do Tesouro para aplicações seguras, quer do Banco de Portugal, a entidade pública que emite moeda. Portanto, sair do euro significa a libertação do país dos humores dos mercados financeiros. Quanto às necessidades de financiamento em outras moedas, os últimos dias mostraram--nos que os EUA estão dispostos a ajudar para evitar o recurso aos seus rivais. Note-se que os BRIC têm agora um banco que é alternativa ao FMI.
Um governo de ruptura deve, à cabeça, nacionalizar os bancos e instituir o controlo dos movimentos de capitais. Seria vantajoso comprá-los em bolsa, à cotação do momento, e proceder à sua recapitalização, tudo com emissão monetária. A inflação será o custo a pagar para recuperarmos a soberania. Mas será um custo transitório (inicialmente, cerca de 12%, muito menos nos dois anos seguintes) que pode ser distribuído com justiça social através de compensações a atribuir aos rendimentos mais baixos. A classe média/alta, vendo os seus desempregados recuperarem a dignidade de voltar a trabalhar em condições decentes, aceitará de bom grado alguma perda temporária de poder de compra. Como seria de esperar, o novo paradigma da política económica dará prioridade ao emprego, ao contrário da finança, que diaboliza a inflação e acha inevitável este desemprego típico dos anos trinta do século passado.
À medida que se forem abrindo espaços de debate público informado sobre o que significa sair do euro, os portugueses ficarão cada vez mais receptivos à proposta de uma Europa de países soberanos. Por muito que custe aos federalistas, não creio que os portugueses queiram viver num protectorado sujeito a diktats.» – Jorge Bateira, no I.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Aldrapolitik, versão Galamba


Eles agora é como se não tivessem também assinado o memorando, aceitado o Tratado Orçamental, rejeitado a renegociação da dívida, aprovado o Tratado de Lisboa sem consulta popular, entre outras façanhas. O socialista João Galamba desafiou o primeiro-ministro a “explicar o que pensa" sobre as declarações do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, sobre o tratamento indigno aos países da periferia do euro, tendo em conta que o apoiou para presidir à Comissão. Eles agora é como se também não tivessem votado no mesmo Juncker, ao lado de PSD, CDS e dos Marinhos desta vida. Gosto muito de os ouvir falar. Tens cá uma escola, ó Galamba!

Da mesma escola: "O que disse o presidente Juncker é a pedra que faltava para encerrar definitivamente este ciclo político." Foi assim que o líder do PS, António Costa, reagiu ao mea culpa do actual presidente da Comissão Europeia em relação à actuação da troika. Concorda? Discorda? Não o disse. Sobre as culpas de um PS que sempre aceitou as "inevitabilidades" que deixaram de o ser, naturalmente, também nem uma palavra.


Magia grega


Nem a pobreza e a desesperança que varrem o seu país, nem mesmo os reparos severos que ouviu da mesma boca há um par de semanas fizeram Maria Luís Albuquerque sentir a sua dignidade insultada quando, ontem, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, num golpe de magia grega, transformou as anteriores críticas em elogios ao dizer que Portugal, a par da Irlanda, “é a melhor prova" de que os programas de ajustamento funcionam, uma tirada que se traduz "em Portugal e na Irlanda fazemos o que queremos e eles não se queixam".

Não tiveram que esperar muito. A mesma magia grega encarregou-se de retratar patrão e criada pouco tempo depois. Quem os envergonhou foi alguém de quem se esperava tudo menos dizer que pode parecer estúpido ser eu a dizê-lo, mas ""pecámos[nós, troika] contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, de Portugal e também da Irlanda": nada mais, nada menos do que o Presidente da Comissão Europeia  e não à mesa do café, perante o Comité Económico e Social.

E, mais magia grega, lembrar-se-ão dos opinadores de serviço que inundaram o espaço mediático nacional com críticas à recusa de Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa à reunião com os mangas de alpaca da troika.   Pois Jean-Claude Juncker também referiu que não se põem funcionários a falar à mesma mesa com dirigentes políticos, a dignidade exige que sejam ou ministros ou comissários. É animador verificar como a História se vaie encarregando de colocar no seu devido lugar todos os personagens desta tragédia tão irresponsavelmente consentida mas ainda inacabada.

Porém, o que se vê também e com uma nitidez cada vez maior é que Europa afunda e, péssimo sinal, os primeiros ratos começam a bater em retirada antes de afundar de vez. Não foi à toa que Jean-Claude Juncker, que tem informação privilegiada, se posicionou – também o fez – a favor da revisão do funcionamento das instituições europeias. Amanhã saberemos o resultado final do "ou se humilham e aceitam, ou rua" do ultimato alemão à Grécia. Juncker não falou nem por comiseração por gregos e portugueses, nem para envergonhar aliados da sua causa de sempre. O que quis deixar bem vincado foi um "eu bem avisei", nem ele sabe bem do quê. As consequências da irresponsabilidade europeia na condução das negociações com a Grécia são imprevisíveis. O único dado adquirido é que nada será como foi até aqui. O fim da paz podre devemo-lo aos gregos.





quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Reformas estruturais necessárias, mesmo estruturais e mesmo necessárias


As “reformas estruturais” e aquela “incompetência” tão competente para o que realmente lhes interessa. Cortar salários e pensões, facilitar despedimentos, diminuir prestações sociais, aumentar impostos sobre os rendimentos do trabalho, reduzir impostos sobre lucros, até reduzir o número de feriados. Bruxelas sugeriu primeiro e mandou depois, os últimos dois Governos obedeceram, o actual superou as ordens recebidas e todos, incluindo a sua comunicação social, se puseram de acordo em chamar-lhes “reformas estruturais”. E não são reformas estruturais, são medidas que concentram a riqueza, que empobrecem para enriquecer. Reformas estruturais seriam, por exemplo, a promoção da obrigatoriedade de avaliações de custo-benefício nas empreitadas públicas, da exigência de programações ao nível dos custos e dos prazos para a conclusão das obras e do alargamento das consultas ao mercado a mais de uma entidade, três das vinte e sete recomendações que o Tribunal de Contas fez em 2009 ao Governo de então na sequência de uma série de auditorias, cada uma com revelações mais escabrosas do que a outra, sobre a generosidade mascarada de incúria que o Governo Sócrates lhes dispensava. Passaram mais de cinco anos e, notícia do dia, quer os de Sócrates, quer o que aponta a Sócrates as culpas que tem e as que não tem, os Governos das “reformas estruturais”deixaram na gaveta mais de metade das reformas estruturais que o Tribunal de Contas lhes recomendou. O PS e o PSD bem podem agora acusar-se mutuamente de incompetência. Têm toda a razão. Uma incompetência bastante competente nos lucros que proporciona à Mota-Engil, à Somague e a outras que tais que também dão empregos muito bem remunerados a ex-governantes dos três partidos do arco que lhes faz a fortuna. O que o relatório hoje divulgado pelo Tribunal de contas nos diz é que, mais coisa, menos coisa, a tradição continua a ser o que era. Há menos obras adjudicadas, é verdade, mas isso é outra conversa.