quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Foi você que pediu um Governo de assalto final?


Manuela Ferreira Leite era o diabo de saias da claque rosa. Outros tempos. Foi referida por António Costa na semana passada como ministeriável e aparece agora ao lado de Mário Centeno, um dos ideólogos do trabalho sem direitos do Partido socialista, anunciada como a estrela da apresentação de um livro de outros dois socialistas, Pedro Adão e Silva e Mariana Trigo Pereira. Noutra pista da corrida a S. Bento, Rui Rio, no JN, escreve que só avançará para Belém caso a coligação liderada pelo PSD vença as eleições legislativas, com maioria absoluta, subentende-se. E maioria absoluta é cenário que as sondagens afastam quer para PS quer para a coligação PSD/CDS. Já só não vê quem ande distraído. A campanha está a ser morna, pois está. O debate de soluções políticas tem sido evitado ao máximo. O Governo que sairá das próximas eleições será composto por pelo menos dois dos três partidos que em 2011 assinaram o memorando da concentração de riqueza e da destruição de todas as conquistas sociais dos últimos 40 anos. PSD e PS darão as mãos na noite de 4 de Outubro para acabarem com o que ficou por acabar e para repartirem o que ainda houver para repartir. O assalto final.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Gostei de ler: "O país que não queremos ser"


«Imaginem que o jornal que têm na mão, ou à frente do vosso computador, não é o "Jornal de Notícias". Imaginem que se chama, em vez disso, "Diário de um país nada recomendável". Não importa o país. Pode ser um qualquer, daqueles que gostamos de pensar que só existem longe da nossa polida e reconfortantemente honesta "democracia social de mercado".

Nesse país há um sistema de autocarros que pertence ao Estado. Chamemos-lhe STCP.

Durante décadas, os governos desse país subfinanciaram as empresas de transportes, empurrando-as para um endividamento bancário que se tornou insustentável. Nesse momento a solução encontrada foi pôr os trabalhadores e os utentes a pagar os erros de governos incapazes. E assim, desde 2011, aumentaram os preços em mais de 20% e reduziram a qualidade dos serviços. Os motoristas passaram a trabalhar horas extras e, mesmo assim, assistimos a quebras sucessivas no serviço prestado. A STCP perdeu 3 em cada 10 dos seus passageiros.

E este é o momento de perguntar: será incompetência o problema deste país? A resposta é não. A estratégia é pensada: habituar a população a conviver com um pior serviço, mais caro, que possa ser fornecido por um operador privado. O objetivo é mesmo transformar um serviço público, que para ter qualidade precisa necessariamente de investimento público, num negócio atrativo para um operador privado.

E assim, apesar da contestação, o Governo abriu um concurso para entregar a STCP a privados. Um processo apressado, que estava condenado a fracassar por ausência de candidatos em condições de sequer apresentar as garantias bancárias. Se acha que o Governo se deteve perante as dificuldades, desengane-se. Dias depois, pela voz do secretário de Estado das privatizações, o processo é reaberto, mas desta vez sem concurso. A venda será feita por ajuste direto, e os candidatos terão 12 dias para apresentar propostas.

Mais uma vez, a pergunta impõe-se. Por que é que uma empresa que não foi vendida por concurso ao longo de meses, sê-lo-á por ajuste direto a dias das eleições? Será porque a falta de transparência, rigor e controlo público tornam o processo mais atrativo e simples? Será porque o tal Governo está prestes a sair de funções e quer deixar os negócios fechados? Certamente as duas coisas, mas uma coisa é certa: se soa a vigarice, parece vigarice e cheira a vigarice, talvez seja mesmo vigarice. E o país nada recomendável é mesmo Portugal.

O que fazer? Votar. Votar para garantir que não terão mais quatro anos de negócio, votar para manter a STCP e a Metro do Porto em mãos públicas, que é onde devem estar. Enquanto o 4 de outubro não chega, juntem-se hoje ao cordão humano contra a privatização dos transportes do Porto, às 18 horas, na estação da Trindade.» – Mariana Mortágua, no JN.

sábado, 29 de agosto de 2015

Oferta do dia: um par de óculos


Bom, não são bem óculos mas também servem para ver melhor a coisa. E há muita gente necessitada. Aos senhores e às senhoras que defendem uma resposta musculada que afaste o problema da vaga de refugiados para bem longe porque "se aqui já não há para nós,  quanto mais também para eles" gostaria de os recordar apenas de uma coisinha. Nos últimos dois anos entraram no espaço europeu cerca de 500 mil refugiados. E 500 mil foi também o número aproximado de refugiados das ex-colónias que chegou a Portugal em 1975. Portugal, um rectangulozinho minúsculo situado num canto da imensidão europeia, mesmo saído de uma revolução, com todas as implicações organizacionais e orçamentais que o processo teve, com todos os aspectos vergonhosos que sempre estiveram presentes, também é verdade,foi capaz de garantir transporte em segurança e de acomodar esse meio milhão em apenas um ano e não em dois. A grande Europa, um espaço mais de 50 vezes maior e com um múltiplo ainda maior dos recursos que não tínhamos em 1975, reage como sempre reage quando há um problema, não reagindo. Enquanto as migalhas nos bastarem, sempre será muito mais fácil porem-nos à estalada pela nossa migalhinha, dar músculo às vozes que se levantam contra os imigrantes e guardar o que há – e sabemos que há sempre e muito – no mega celeiro da hiper-panificação para quando se descobrirem mais calotes dos nossos amigos banqueiros. Podia não ser assim.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A globalização é.


Quem é que ainda se lembra dos argumentos que serviram para convencer o mundo a aceitar a eliminação das barreiras que impediam uma globalização que traria felicidade e fortuna para todos? Éramos uns privilegiados, e a palavra era mesmo esta, que vivíamos num patamar de bem-estar que não podíamos recusar a povos condenados à pobreza eterna pelas barreiras que o nosso egoísmo ia conservando. A memória dessa argumentação perdeu-se no trajecto que o destino do mundo percorreu desde esse tempo dos privilegiados que nunca fomos até ao dos escravos em que essa globalização nos vai transformando.

Hoje apenas uma minoria tem a percepção dos efeitos da deslocalização de empresas que se legitimou através da acomodação da fábula da aldeia global da prosperidade nas opiniões públicas ocidentais. O que antes era emprego com direitos deste lado da globalização transformou-se na semi-escravatura que, lá do outro lado do mundo, bem longe das nossas vistas, faz a fortuna de uma classe de negreiros pós-modernos. O que antes era produzido com restrições ambientais passou a poder ser  produzido sem resquícios de respeito pelo ambiente depois do desaparecimento das barreiras alfandegárias que jamais poderiam ser abolidas incondicionalmente se a ideia fosse mesmo a de um planeta ambientalmente sustentável capaz de proporcionar melhores condições de vida lá nesse inferno distante que muito raramente aparece nos noticiários.

Mas a globalização aparece todos os dias nas notícias. Na ausência de partidos com discursos articulados que a desmontem, basta que lhe dêem outro nome para que quase ninguém a veja como ela é, uma concentração da riqueza à escala mundial, a aceleração dos ganhos dos que sempre ganham conseguida através da aceleração das perdas dos que sempre perdem.

São as empresas que fecham por ser impossível sobreviver com regras tão viciadas. São os salários e as condições de trabalho que fazem confusão a uns senhores que aparecem diariamente na TV a catequizar para a mutilação da qualidade de vida que proporcionam para ser possível competir nessa batota. São os Estados sociais que o esmagamento desses salários  deixou de poder pagar. São os milhões gerados à custa deste esmagamento   que se acumularam do lado de lá do mundo multiplicados por toda a espécie de especulação financeira que agora aparecem por cá a aproveitarem a venda a preço de saldos do património construído com os impostos sobre o trabalho de várias gerações que os novos salários de miséria deixaram de poder fazer crescer. São sociedades inteiras, cuja prioridade era o bem-estar das suas populações, reorientadas para a formação de lucros não importa como, sacrificando quem e arriscando o quê. São poderes públicos capturados pelo poder deste dinheiro sujo que se retraem para o deixarem a mandar à sua vontade a construir o mundo que melhor o engorde. São guerras cirurgicamente semeadas onde há petróleo e outros recursos para pilhar.

E são populações inteiras rendidas a uma inevitabilidade que apenas o é por ser função da sua incapacidade de compreender o mundo. O Mediterrâneo transformou-se num imenso cemitério líquido? Mandam-se para lá uns barcos para estancar a praga. A Europa é invadida por refugiados das guerras semeadas pelos senhores do mundo? Erguem-se muros contra o inimigo, agita-se o fantasma do terrorismo, enviam-se soldados para recebê-los de metralhadora em punho, ameaça-se com ainda maisbombas, recolhem-se os corpos das vítimas de um desespero também já despojado de vida.

Mas nada a ver com a tal globalização da prosperidade e da felicidade para todos que ninguém viu e já ninguém recorda. Hoje a globalização dispensa argumentos a favor. "Toda a gente sabe" que ser contra a globalização é ser irrealista e demagógico. Hoje a globalização não se questiona porque hoje a globalização é.

No retrato de Saramago, a globalização era um totalitarismo que não precisava nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas, era um mundo com os ricos a governar e os pobres a sobreviver como fosse. Lástima que não tivesse vivido o suficiente para o ler sobre os novos pobres, que mais cedo do que tarde esta repartição internacional da pobreza tornará ainda mais pobres, que, agradecidos ao admirável mundo novo que lhes proporciona salários que dão para pouco mais do que um telemóvel topo de gama comprado a crédito,  hoje se vêem por aí ao lado dos ricos a gritar contra a ameaça dos que fogem da desesperança que, com  todo o tempo e carinho que lhes dispensarem, os ricos se encarregarão  de fazer o favor de encaminhar lá para casa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Vêm aí os marcianos


António Costa deu uma entrevista ao Sol
. Para não maçar os portugueses com esse tema enfadonho que ninguém entende chamado política, ocupou o tempo a comentar cartazes, a dizer umas larachas sobre visitas ao prisioneiro 44 e a falar sobre idas ao cinema com Paulo Portas como cenário para combinar um acordo pós-eleitoral. Sobre a espécie de esquerda a que o seu PS actualmente pertence, recorreu a Manuela Ferreira Leite, que pela coincidência de pontos de vista apontou como ministeriável, e a Pacheco Pereira, que rotulou como perigoso radical "eu serei sempre muito mais moderado" –,  como tal, sem lugar num Governo PS. Nada de novo, há muito que o PS ultrapassou Pacheco Pereira pela direita. E revelações só mesmo a de que apenas haverá Governo PS-PSD na eventualidade de haver uma invasão de marcianos. Vêm aí os marcianos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Lições gregas, continuação: a inevitável demissão





O que é que resta a um Governo eleito com um programa anti-austeridade que, depois de ver renovada a confiança do seu eleitorado com uma vitória esmagadora em referendo, se verga e entrega o povo que lhe confiou o poder à voracidade austeritária de um ocupante externo? Se estivermos a falar de um Governo de bandidos, desses muitos que não hesitam em queimar o último pingo de dignidade agarrando-se ao poder, restar-lhe-á convocar o seu exército de comentadores e incumbi-lo da tarefa de convencer as suas plateias das vantagens desse Governo se manter em funções com xaropadas de "governabilidade" misturadas com cenários de terror. Mas se estivermos a falar de uma espécie de políticos a que nos desabituámos por cairmos nesses contos, ou se o Governo em causa não tiver exército de comentadores, ou se o partido que apoia esse Governo se dividir em dois, envergonhados para um lado e desavergonhados para o outro,  resta-lhe uma de duas opções: ou demitir-se ou ser demitido. Alexis Tsipras escolheu a menos indigna das duas e acaba de anunciar a sua demissão. Os gregos serão novamente chamados a escolher os seus representantes na Casa da sua Democracia daqui a um mês. Um mês é também o tempo que a subdivisão do Syriza que demonstrou ser digna de confiança tem para se organizar e apresentar-se a votos com um programa capaz de voltar a mobilizar aqueles que ainda não desistiram de exercer o seu direito de exigir que lhes devolvam as suas vidas. É muito pouco tempo. Tsipras, em alta nas sondagens, tem o tempo a trabalhar para si.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sobre a direita canhota a querer ganhar juízo (gostei de ler)


«Nacionalizar a grande indústria e recuperar bens públicos, incluindo os caminhos de ferro, o gás e a electricidade, aumentar a progressividade dos impostos, investir para criar emprego, reconstruir o serviço nacional de saúde, abolir as propinas nas universidades, sair da NATO e recusar as aventuras belicistas, terminar com a opção nuclear das forças armadas britânicas. É o programa de Jeremy Corbyn, que é hoje o candidato mais bem colocado para ganhar a liderança dos trabalhistas britânicos (eleições em setembro).

A explicação para esta ameaça de um terramoto político dentro da social-democracia britânica parece fácil de entender. Primeiro veio Tony Blair, que conduziu o partido trabalhista aos crimes de guerra no Afeganistão e no Iraque, promoveu as parcerias público-privado, atacou os serviços públicos e afirmou o liberalismo como um dogma económico e financeiro para todo o sempre. A City reforçou-se e os conservadores voltaram tranquilamente ao poder e lá permanecem. Depois, o partido trabalhista prosseguiu a mesma política com os sucessores de Blair, de Brown a Miliband, mesmo que este tivesse prometido uma nova orientação, frustrando os seus apoiantes.

Ao longo de vinte anos, a doutrina da terceira via, segundo a qual as eleições se ganham ao centro com uma política de centro, conduziu à vitória monumental da direita. Por isso, muitos militantes trabalhistas querem romper com este passado e Corbyn aparece como o homem certo para o fazer.

Os cínicos argumentam que Blair tem mesmo razão e que, se o partido virar à esquerda, a direita se eternizará no poder. Vai ser refrão em Portugal e em toda a Europa, assustada com esta surpresa. Portanto, a ideia é que tudo deve continuar na mesma, com o centro a aceitar que a direita determine a única política admissível. Esta solução é a da eternidade da ordem liberal.

De facto, os partidos socialistas submeteram-se a tal razão cínica. Não é essa a história de Hollande? Eleito com promessas gloriosas (fazer frente a Merkel! em poucas semanas renegoceio o Tratado Orçamental e acrescento um plano para o emprego!), alinhou-se no consenso europeu e assim ficou. O mesmo se dirá de Renzi (que já enfrentou uma greve geral contra a mudança da lei laboral), o mesmo se dirá de Seguro e de Costa (para quem não há vida para além do Tratado Orçamental e dos comunicados do Eurogrupo), de Sanchez (que quer um ministro das finanças europeu, como Schauble e à imagem de Schauble) e de todos os outros.

A Inglaterra tem no entanto duas diferenças assinaláveis em relação a França, ou Itália, ou Portugal. A primeira é que o partido trabalhista tem uma história organicamente ligada ao movimento operário e sindical, o que explica que neste caso ainda tenha havido gente e convicção para esta aspiração a uma viragem anti-blairista e anti-liberal. A segunda é que o país não está submetido nem ao euro nem às regras do BCE e tem assim margem de manobra para políticas próprias, o que permite um debate mais aberto sobre alternativas realizáveis. A Corbymania que tanto incomoda o establishment resulta dessas duas potencialidades.

Deve ser levada a sério. É mesmo uma ameaça, porque é mais uma expressão de como os sistemas políticos subjugados às ideias liberais e à austeridade tendem a acumular tensões, que em alguns casos começam a explodir: assim começou na Grécia, continuou em Espanha e chega a Inglaterra. Mas como todos os exemplos mostram, é preciso muito mais do que um homem honesto, que abomine Blair e os seus crimes e que queira ser verdadeiro com a sua gente: é preciso ter a capacidade, o programa e a relação de forças para criar um poder que enfrente o poder. E isso não se consegue a partir de um partido mergulhado na renúncia e nos interesses. A divisão do partido trabalhista pela sua direita parece então ser o destino de uma hipotética vitória de Corbyn — e veremos se todos os outros candidatos e todos os bonzos do partido não se juntam contra ele. Se se separarem, ainda bem, não há nada que substitua a clareza de propostas políticas para um país e o seu povo. (…» – Francisco Louçã, no TME.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Despojos de guerra


O consórcio alemão Fraport-Slentel venceu a primeira privatização feita pelo Governo de Alexis Tsipras. Daqui para a frente, quem vai mandar nos aeroportos de Salónica, a segunda maior cidade da Grécia, e das ilhas de Corfu, Rodes, Kos, Samos e Santorini, entre outras, é uma empresa do país de Angela Merkel. Não há guerra sem despojos, sem vencidos e sem vencedores. O IV Reichsoma e segue.


Vagamente relacionado: “A privatização dos CTT foi iniciada em Dezembro de 2013 e concluída a 9 de Setembro de 2014. Passado quase um ano, como está a funcionar o serviço de correio privado em Portugal? Mesmo antes da privatização, a polémica iniciou-se com o encerramento de pelo menos 60 estações de correios em 2013. Segundo um levantamento feito pela Lusa, encerraram 411 estações de correio entre 2000 e 2014. Ou seja, este processo de encerramento das estações de correios precede a privatização. Para assegurar a continuação dos serviços de correio, sobretudo em localidades do interior, os CTT têm firmado protocolos com as juntas de freguesia, em que estas passam a assegurar o serviço de correio como, por exemplo, o pagamento de pensões e a venda de selos, a troco de pagamentos de 400 ou 500 euros por mês. As juntas de freguesia assumem este papel, julgo que, não pelos montantes em questão, mas em prol dos cidadãos das suas freguesias. Em resultado:

– os funcionários públicos, em pelo menos algumas dessas juntas de freguesia, não têm a mãos a medir;

– muitos pensionistas e outros clientes dos CTT desesperam em juntas de freguesia de repente assoberbadas de trabalho;

– a Administração Local vira serviço de correio em prejuízo da sua missão;

– o protocolo dos CTT com as juntas de freguesia obriga-as a reembolsar os CTT em caso de assaltos;[1]

– os CTT lucram com este subsídio público à sua operação privada, pois deixam de ter custos com os espaços, deixam de ter prejuízos com assaltos e podem reduzir o número de trabalhadores (entre 2010 e 2014, o número de trabalhadores diminuiu de 15044 para 12523, ou seja, –16,8%).” [Ricardo Cabral]

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Nós e o euro: ou nós ou o euro


Em 2011, ano em que a ignorância de muitos trabalhadores do privado os convidou a festejarem os cortes salariais que, primeiro Sócrates, logo a seguir Passos Coelho, aplicaram aos seus colegas do público, por cada 1000 trabalhadores empregados havia 113 que auferiam o salário mínimo. Passados 4 anos, soube-se hoje, em vez de 113 existem 196 trabalhadores em cada 1000 – mais 345 mil em termos absolutos, um crescimento de 73% – que não levam para casa ao final do mês mais do que esse mínimo, hoje ainda mais mínimo devido à inflação. A ignorância, exactamente a mesma mas vestida de funcionário público a desforrar-se da festa de 2011, poderá agora tentar-se a rejubilar com as perdas salariais dos colegas do privado. Seria interessante ver a esquerda que o é e os sindicatos que o são – cuidado com as imitações – unidos no combate a esta ignorância galhofeira. Seria importante que aqueles que deitaram foguetes há quatro anos percebessem que o que festejaram em 2011 foram os cortes salariais que lhes bateram à porta logo a seguir. Seria importantíssimo que os que hoje se sintam com vontade de festejar não terem sofrido nenhum corte salarial durante estes quatro anos percebessem que não irão receber as reformas para as quais trabalharão a vida inteira porque os descontos que as pagam se irão reduzindo na mesma proporção da massa salarial que os gera. E seria fundamental que todos percebessem que a permanência no euro está e continuará a ser paga exclusivamente por quem vive do seu trabalho. Partidos e sindicatos que não consigam explicar aos portugueses que o desemprego que tem convencido cada vez mais gente a trabalhar recebendo salários que antes rejeitavam tem sido fomentado deliberadamente pelos últimos Governos são partidos e são sindicatos que se conformam com o que também eles, mais berro, menos boca, estão a deixar que aconteça diante dos nossos narizes.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Mais uma excelente notícia


A propaganda do Governo recebeu hoje do INE um presente para distribuir pelos fanáticos do “pensamento positivo” que melhor os mantenha a leste da realidade. O PIB português cresceu 0,4% entre Abril e Junho. É muito ou é pouco? Há sempre um especialista em décimas para dar corda ao clássico que usam para nos fazerem de tolinhos segundo o qual 0,4 é mais do que 0,3, 0,3 é mais do que 0,2 e 0,2 é mais do que 0,1, do que 0, do que qualquer variação negativa. Impossível não estar de acordo. Tal como é impossível discordar que 0,4% é metade de 0,8%. E 0,8% foi o que a economia grega cresceu entre Abril e Junho, isto é, que mesmo sem condições para Governar e mesmo com toda a instabilidade imposta pelo império alemão, a economia grega aproveitou melhor do que a economia portuguesa a conjuntura de euro em depreciação face ao dólar e preços do petróleo em queda. Recuperando a questão inicial, se 0,4 é muito ou é pouco, ignorando a quebra de 2,1% na produção industrial, o agravamento da balança comercial no período e que o investimento continua em mínimos que não cobrem sequer as amortizações,  a questão pode responder-se recordando que qualquer aumento da riqueza gerada pela nossa economia abaixo dos 3 e tal por cento a que se remuneram os nossos credores tem como significado que a nossa dívida continua a aumentar pelo valor da diferença. A resposta é, pois, que entre Abril e Junho o euro continuou a enegrecer-nos o presente e a roubar-nos o futuro com as regras que as suas claques laranja e rosa nunca ousarão questionar. Os cortes ajudam a crescer a dívida, a dívida dá-lhes argumentos para continuarem a cortar. 0,4% de crescimento trimestral do PIB é mais uma excelente noticia.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Gostei de ler: "Era uma vez"


«Uma pequena vila, de nome irrelevante, castigada pelas dívidas que consomem o pouco que há, o que sobra de uma vida a crédito. Ali chega, na manhã de mais um dia de crise, um forasteiro que se instala na pensão local. Sem saber o que esperar da honestidade da gente da terra, o homem pede que lhe guardem uma nota de 100 euros que trazia cuidadosamente dobrada na algibeira. Na manhã seguinte, perante o espanto da estalajadeira, o abastado forasteiro abandona a vila esquecendo-se de pedir a nota de volta.
Durante cinco longos dias a mulher guardou cuidadosamente os 100 euros que lhe tinham sido confiados. Ao sexto, convenceu-se que o legítimo dono não regressaria e decidiu dar-lhe destino. Entregou o dinheiro ao talhante para saldar uma dívida de meses que a atormentava. Sem acreditar na sua sorte, o talhante entrega os 100 euros à sua mulher, que os usa para pagar à modista o vestido que usara para o casamento da filha, três meses antes. A modista, por sua vez, agradeceu a possibilidade de pagar, com atraso, a renda do quarto em que vivia. Também o digno proprietário tinha uma dívida antiga para com a prostituta da terra que poderia agora, finalmente, pagar à estalajadeira da pensão local os 100 euros que lhe devia pelo aluguer ocasional de quartos.
Em poucos dias a nota voltou ao seu local de origem, e às mãos da estalajadeira em quem o forasteiro confiara. Não existiu nova produção, mas dívidas da população foram liquidadas e o otimismo reinava na pequena vila.
Semanas mais tarde, o abastado homem regressa à pensão e percebe, espantado, que os 100 euros ainda o esperavam. E é não menos estarrecida que a estalajadeira vê então o forasteiro pegar na nota, pegar-lhe fogo, e com ela acender o seu charuto para, logo depois, soltar uma gargalhada e confessar "a nota era falsa de qualquer forma".
A fábula não é minha. Foi contada muitas vezes, e aconteceu mesmo. Em 1920, Alves dos Reis, um burlão qualificado, ajudou a resolver o problema de deflação da economia portuguesa ao forjar uma encomenda de notas, em nome do Banco de Portugal, à empresa inglesa Waterlow.
Moral da história? Decerto não passa por defender a falsificação de dinheiro. Apenas demonstrar, pela enésima vez, que a economia de um país não tem nada a ver com a gestão de um orçamento familiar. E que há muitas formas de solucionar a armadilha do endividamento sem o custo da pobreza, da recessão e do desemprego. O problema não está na inevitabilidade da economia, ou dos seus instrumentos. Trata-se apenas de vontade política.» – Mariana Mortágua, no JN.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Quem quiser que se ria


Uma mulher que perdeu o emprego no tempo de Sócrates e nunca mais endireitou a vida. Outra que está a recibos verdes desde esse mesmo ano. Dois cartazes de campanha. Dois cartazes do PS. Com toda a certeza que o intuito das obras-primas da campanha coordenada por Ascenso Simões não é a assunção pública das responsabilidades pela destruição irreparável de largas centenas de milhar de vidas que os Governos do seu partido repartem com o Governo suportado pela actual maioria. Ele próprio é uma das vozes que têm defendido que o que foi feito até agora foi pouco e que é preciso ser ainda mais “arrojado”, leia-se, generalizar e aumentar ainda mais a precariedade dos vínculos laborais e acabar com o que resta de estabilidade no emprego. O amadorismo que os cartazes do PS sugerem convida ao riso e é capaz de pôr ao rubro a chacota da claque laranja e o embaraço da claque rosa. Quem tiver alguma coisa a ganhar com mais um desses faits divers que ajudam a engrossar e a fidelizar as claques dentro do arco, pois que se ria deste amadorismo aparente. Mas quem tiver tudo a perder com a manutenção deste poder que vai pondo cada vez mais gente a empobrecer a trabalhar, que ponha os olhos nos últimos anos da carreira daquela espécie de sindicalista que sempre assinou de cruz tudo o que lhe foi dado a assinar e até andou de viagem pelo país com Sócrates a dizer maravilhas do Código do Trabalho que emoldura aquele cartaz que se vê ali em cima: João Proença foi nomeado pelo Governo de Passos Coelho, primeiro, em 2013, para o exército de assessores da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal   e, nesta Segunda-feira, foi o escolhido para presidir ao novíssimo  Centro de Relações Laborais, prémio pelos serviços prestados à Nação que acumula com o anterior. Em vez de amadorismo, temos aqui um casamento que denota profissionalismo ao mais alto nível. O arco recompensa sempre os seus fieis servidores. A uns com cargos que dão fortuna ou estatuto. A outros publicita-lhes a desgraça num qualquer cartaz de campanha. O arco oferece-nos mais três décadas de austeridade. Quem quiser que se ria.

Vagamente relacionado: As pessoas que parecem contar as suas histórias pessoais nos outdoors do Partido Socialista são na verdade “figurantes”. E uma delas revelou ao jornal digital Observador que não deu autorização para a sua foto ser usada nestes cartazes. O PS já reagiu, pedindo desculpa. (…)“O PS solicitou já esclarecimentos pormenorizados aos fornecedores e prestadores de serviços, bem como todas as informações necessárias a que se possa avaliar o procedimento seguido”, salienta o comunicado, que em nenhum momento pede desculpa por as histórias contadas não serem das pessoas retratadas.

Ainda mais vagamente: as historietas que o PS conta sobre o desemprego não batem certo nem com o seu curriculum passado nesta matéria nem com as suas propostas actuais. Tudo foi sempre fácil nos cartazes do PS: um deles prometia criar 150 mil postos de trabalho em 2009. Mas a realidade foi madrasta e, com a sua maioria absoluta, deu em alterar o Código do Trabalho, e depois veio a troika, e agora o “despedimento conciliatório” ou, na versão musculada de Ascenso Simões, “o fim do contrato de trabalho”. A história do PS é uma longa peregrinação que passou pela criação dos contratos a prazo, pela promoção das empresas de trabalho temporário, pelas restrições à contratação colectiva, pela punição fiscal das vítimas dos recibos verdes. Por isso, não se diga que a culpa é do Athayde. O PS, que lhe paga, faz bem em preservar a imagem do “marqueteiro”. Porque o que ele faz ou deixa fazer não tem defesa, simplesmente porque o PS é o que é, um partido que se empenhou em enfraquecer os direitos, as regras e os mecanismos de criação de emprego. Os seus cartazes podem dizer o que for, mas serão sempre o retrato dessa realidade: o PS foi inimigo do emprego e agora não apresenta uma proposta consistente para a criação de emprego. Por isso, faz estes cartazes que desdizem o que dizem.
 

E nada a ver com: o vereador da Câmara de Lisboa, Duarte Cordeiro, é o novo director de campanha do PS, depois de Ascenso Simões se ter demitido domingo de manhã.
 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Um ensaio à moda antiga


Parece que por estes dias um Secretário de Estado português, o colaboracionista germanófilo Maçães, levou um ensaio no twiter. Não deixa de ser relevante que quem lhe deu a coça tenha sido um inglês. A oposição que o é, oposição, ou anda entretida dentro dos casulos respectivos, ou a comunicação social cá do protectorado é que anda tão absorvida com as trocas de acusaçõezinhas entre as claques do centrão que lhes nega espaço nas notícias. Ou ambas. Resultado: o inglês acabou por resumir ao alemãozinho o que em princípio seria função dessa oposição ir repetindo com a mesma acutilância para que os portugueses percebam de uma vez por todas o que lhes estão a fazer. Segue abaixo esse resumo. Claro como água. Façam-se o favor de o ler com toda a atenção.

"A economia portuguesa está a beneficiar de fatores externos positivos. Finalmente conseguiu travar o pânico do verão de 2012. Além disso, as políticas de quantitative easing do BCE têm feito baixar os custos dos empréstimos portugueses para mínimos históricos. A descida do preço do petróleo e um euro mais fraco também têm ajudado. Internamente, a extrema austeridade de 2011-12 foi aliviada: o aperto fiscal é muito menor neste ano. Como resultado a economia está a crescer outra vez, lentamente. Mas Portugal ainda está num buraco fundo. A economia está ainda 7,5% mais pequena do que no seu pico no início de 2008 - na verdade está mais pequena do que em 2002 - e ao nível atual de crescimento de 1,5% não vai voltar aos níveis de 2008 antes de 2020: mais de uma década perdida. As dívidas globais - das famílias e das empresas - são insuportavelmente grandes. Os bancos ainda estão numa confusão, com o escândalo do BES à cabeça. Os salários caíram. A pobreza aumentou. O desemprego continua altíssimo. Muitos portugueses emigraram. Ajustando para a população ativa que não tem trabalho e o subemprego, o FMI calcula uma redução do mercado de trabalho de 20%. O FMI também diz que as reformas portuguesas foram inadequadas e que ainda têm de produzir benefícios. Portugal é um país europeu relativamente pobre. Devia estar a aproximar-se dos mais ricos através de mais investimento e aumentando a produtividade. Em vez disso, está a posicionar-se para ser ultrapassado pela Polónia e outros. É trágico." (Clicar para ler na íntegra)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Gostei de ler: "Um bocejo bem perigoso"


«Escreve Ricardo Costa que o programa do PàF é um bocejo: “O programa da maioria não se limita a ser simples. É confrangedor na falta de pensamento ou ousadia ideológica. Pode dar para ganhar, claro, mas com um imenso bocejo”. Será um bocejo. Mas é um bocejo perigoso.

É antes de mais um programa incompetente. Depois de todo o fuzué a respeito das contas do cenário macroeconómico do PS, o PàF apresenta um programa sem contas, sem compromissos precisos, sem descrever os instrumentos para as políticas, sem indicar prazos e medidas, portanto sem credibilidade. Evita o debate no país não dizendo quase nada sobre o que pretende para o país. Não incomoda e conforta as clientelas, mas também não se compromete. O que lá está escrito podia estar ou não estar.

Talvez tudo isto não seja então falta de “ousadia” mas antes pela língua de pau do poder, paroquial e cortês, sobretudo matreiro porque sabe que a “Europa” não autoriza veleidades, esperançoso de uma recuperaçãozinha que financie uma subida de receitas fiscais mas ciente de que lhe falta poder para que tal milagre chegue aos cofres.

De resto, ideologia banal. Umas escolas com mais autonomia, mais uns dinheirinhos para o ensino privado, entregar uns hospitais às misericórdias para que os “irmãos” distribuam entre si os cargos de administradores e outras prebendas.

Num ponto, o programa é mesmo moderado face ao do PS: enquanto o PS propõe a receita mais acelerada para a corrupção do sistema eleitoral (os círculos uninominais), o PSD é forçado a ceder ao CDS e a ficar-se por propor uma escolha preferencial dentro das listas partidárias, o que foi sendo facilitado e justificado pelas tímidas incursões do modelo das primárias que só um partido ensaiou, aliás com resultados que o envergonham.

Onde, no entanto, o bocejo se torna mais perigoso é na segurança social, pois retoma a velha proposta do plafonamento, cuja função é conduzir as poupanças para os sistemas financeiros privados (uma parte do PS andou no passado a namorar esta proposta, mas ela nunca foi aceite até hoje). Mais uma vez, falham as contas, nem se sabe quem é abrangido nem quanto custa a operação proposta pelo PàF. Mas podemos fazer as contas que faltam ao PàF: demonstrou-me um colega, economista da segurança social, que um plafond a 2 mil euros vai reduzir no longo prazo as receitas em 8%. Dito de outra forma, o que este modelo assegura é o caminho dos fundos de pensões e, depois, a obrigação da redução das pensões do sistema público, porque o sistema previdencial, hoje equilibrado, entrará em défice graças à perda de receitas. Dois coelhos de uma cajadada.

Onde é concreto em medidas, o programa é perigoso. Onde não trata de medidas, é simplesmente ameaçador. Não bocejemos, portanto.» – Francisco Louçã, no "Tudo menos economia".


Vagamente relacionado: "Vai por aí uma atrapalhação na esquerda. Não é para menos. O Partido Comunista de Chipre, que então governava o país, aceitou o Tratado Orçamental que podia ter vetado e estamos onde estamos. O Syriza, depois de uma vitória esmagadora no referendo, aceitou o programa económico de austeridade imposto por Berlim. Estas duas derrotas calam fundo. Mas a perplexidade maior, penso eu, nasce de outro espanto: muita da esquerda não concebia que a União Europeia e a gestão do euro fossem tão exuberantemente brutais e descobriu, de repente, que tem vivido numa ilusão possibilista. (...) Não dizer nada, não escrever nada, calados e discretos, deixa passar e logo se vê, essa é a atitude dominante da esquerda atrapalhada, os que, na aflição, lideram correndo para as traseiras da opinião pública. (...) Pergunta-se: podem continuar a acreditar numa negociação europeia com soluções razoáveis, depois da cimeira sobre a Grécia? Respondem que sim. Pergunta-se: quando a austeridade é um ultimato, as mesmas regras ou o mesmo Tratado Orçamental permitem uma economia socialmente responsável, evitando a austeridade? E respondem outra vez que sim. Pergunta-se: mas esse euro novo, sem a Alemanha, só do Norte, só do Sul, de onde virá ele, com acordo consensual de 19 ou de 28 países, com os parlamentos, governos e partidos a aceitarem mudar os tratados com uma vénia amável aos países aflitos? E respondem que talvez. Pergunta-se: mas quem vai impor essa transmutação europeia, se assistimos ao poder absoluto da finança e de Merkel? E respondem que será Hollande. Mas Hollande não é o side-car de Merkel, não é ele quem propõe reservar para os seis fundadores a governação do euro e expulsar os coitados? E respondem que então será Costa que há-de convencer Hollande a convencer Merkel. Mas Costa não aceita e aplica o Tratado Orçamental, como pode ser ele a corrigir a Europa? E recomendam que não se fale mais no assunto. (continuar a ler)"

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O leão é que não


A morte de um exemplar de uma espécie protegida, um leão, famoso, símbolo nacional do Zimbabwe, é uma das notícias que agitam estes dias. Por toda a parte se lêem abordagens absolutamente estéreis, exteriorizadas ao sabor do instinto e da vontade de superar as anteriores nas adjectivações e nos insultos. Não serei mais um a chover no molhado com explorações da vertente emotiva deste que, sim, realmente é um de muitos episódios de uma tragédia de dimensões globais sem fim à vista. Parece-me que será incomparavelmente mais proveitoso abordar a justificação dada por aquele que foi identificado como o autor do crime, um dentista norte-americano que se escuda atrás de uma hipotética cobertura legal da barbaridade que assume desenvolver como hobby. O homem, cujo nome ninguém recordará daqui a um par de semanas, jura que pagou para obter todas as licenças que delimitam essa legalidade. Resumindo, o senhor é mais um que dá férias à consciência quando acha que a lei lho permite.

Será muito cómodo circunscrever esta forma de pensar a um caso e aproveitá-lo para alimentar o auto-conceito de boas pessoas, muito melhores do que aquele sacana daquele americano, que todos procuramos projectar quando alinhamos na onda de indignação que, ainda bem, a atrocidade em causa desencadeou. Mas olhemos bem para quem se indigna e para a tal mola que a morte de um leão fez disparar.

Temos um salário mínimo completamente legal que, ao condenar milhões a uma existência de privações, faz de Portugal uma das várias reservas de mão-de-obra barata ao dispor dos caçadores de fortunas que queiram aproveitar a liberdade para explorar que lhes é garantida por lei para organizarem os seus safaris do empreendedorismo. E a mola não mexe. Vivemos subjugados por tratados europeus 100% legais que dão aos credores de dívidas, que os próprios se encarregam de ajudar a crescer a coberto da sua lei, o direito a exigirem às suas vítimas que, em vez de canalizarem o que ainda há para darem de comer às suas crianças e de tratarem os seus doentes, desviem o que já não há para pagarem os juros agiotas que se formaram à sombra do poder de legislar que tais senhores se atribuíram a si próprios. E a mola volta a não se mexer.

Definitivamente, a indignação instantânea que se incendeia com notícias sobre caça ao leão não se vê arder com a mesma intensidade com a enxurrada de notícias sobre a caça ao homem que nos vai esvaziando o presente e roubando o futuro. A esmagadora maioria que se manda ao ar ao saber da morte de um leão reparte-se nas intenções de voto que renovarão o poder de legislar a uma, duas ou eventualmente a todas as três forças partidárias que deram legalidade a uma austeridade muito selectiva que desde 2008 roubou 3,6 mil milhões aos salários para oferecer 2,6 mil milhões ao capital. A caça legalizada ao trabalhador, ao velho, ao desempregado, a tudo o que seja público, às nossas pensões de reforma futuras, à Educação dos nossos filhos, ao SNS, às condições de trabalho e aos salários dignos tem ordem para continuar. Não critico ninguém por se revoltar com o espectáculo bárbaro de um leão morto para dar largas ao instinto de um anormal que não sabia o que fazer a 50 mil euros, mas parece-me que se essa indignação toda que hoje se vê por aí não passasse de mera alienação, uma indignaçãozeca de plástico inconsequente e sem sabor a nada, dela sobraria o suficiente para dar por terminada a caça ao coelhinho que se vai cozinhando a si próprio entretido com historietas macabras de dentistas e leões. A culpa também é sempre dos outros.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Euro: uma saída à francesa


Depois da humilhação que os partidários do sim concertaram com os radicais do nim para punirem exemplarmente o povo que ousou usar a democracia para os enfrentar com um gigantesco NÃO, ainda resta por aí alguém convencido de que, tal como se esforçam para nos fazer crer os nossos europeísmos convictos, andamos a fazer sacrifícios para alguma coisinha que valha a pena? Se não retiraram qualquer conclusão da série  interminável de revelações da responsabilidade daquele que, por mais rica que seja a argumentação dos apanhados, é o órgão fiscalizador deste que juram ser um país muito diferente da Grécia, de contas públicas falsificadas em mais de 11 mil milhões de euros para esconder que a despesa continua em derrapagem apesar de todos os cortes na vida de tantas pessoas, de uso ilegítimo de descontos da ADSE para outros fins que não o da saúde de quem os realiza e de toda a espécie de proveitos ilícitos – na linha da tradição herdada dos Governos anteriores – nas vendas ao desbarato de património que deixou de ser de todos os que o construímos para fazer engordar a classe de rendeiros do país, ou se estes últimos quatro anos os empurram para um projecto ainda mais "arrojado" na liberdade que dá aos patrões de despedirem sem justa causa nem indemnização, que nos põe a consumir no presente o dinheiro das nossas reformas futuras, as notícias que nos chegam da Europa dão-nos mais um sinal sobre a justa recompensa que o melhor povo do mundo fez por merecer ao longo da década e meia que dura a aventura do euro: Hollande propõe que o euro tenha um núcleo duro composto por apenas seis países com direito  a decidirem e, 19-6=13, treze colónias com direito a obedecerem-lhes. Começam finalmente a assumir que o euro não é para todos, e objectivamente não é, e que consideram que há países de primeira e países de segunda, cabendo aos de primeira decidir sobre como é que os de segunda os farão enriquecer, a assunção do que já acontece apesar de ser o contrário da solidariedade sobre a qual assenta todo o projecto europeu. A proposta de Hollande é mais um sinal de que este euro e de que esta Europa que apenas nos aceita se empobrecermos para enriquecer quem eles mandam já começou a implodir. Com sondagens que dão uma tão confortável maioria ao arco que se acotovela na disputa do poder de lhes obedecer e atestam a desorganização de uma esquerda incapaz de mobilizar um NÃO que necessita de intérpretes que entusiasmem, são muito boas notícias. Se sair do euro nestas condições, por vontade própria, é praticamente impossível, a saída de um euro que deixe de existir será mais do que obrigatória... A menos que, por vontade do nosso centrão, ao euro aconteça o mesmo que ao acordo ortográfico.

sábado, 18 de julho de 2015

Gostei de ler: "É perigoso ficar já "farto" de falar da Grécia"


«Eu sei que está toda a gente farta da Grécia, de ouvir notícias sobre a Grécia, de falar da Grécia. O sistema mediático tem este efeito de rápido cansaço e gera também a vontade de passar para outra coisa ou outra causa. Para além disso, tudo parece já estar decidido e não vale a pena chover no molhado. Vale, vale.

Depois há a sensação de derrota dos filo-helenos, seja dos políticos pró-Syriza, seja dos admiradores mais dos gregos do que do Syriza. Todos partilham uma sensação incómoda porque mistura sentimentos de traição, humilhação, derrotismo, impotência, tudo coisas pouco amáveis para a auto-estima.

Ainda pior é ver a alegria dos que, ao lado de personagens como Dijsselbloem, gozam a sua vingança contra Varoufakis que, de todo não respeitava o holandês pedestre, e contra os gregos que tiveram o arrojo de votar “não”. Digamos que é o clube português dos fans de Dijsselbloem, que festeja a vitória em artigos nos locais certos, nas redes sociais e nos comentários, numa espécie de jogo de futebol contra o clube português dos fans de Varoufakis, no qual, imagine-se a brilhante inteligência, incluem… António Costa.

Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. O problema é que sabem: querem manter-se no poder e prosseguir um programa de revanche social e política contra os que desde o 25 de Abril lhes roubaram o direito natural de mandar.

É por isso que me é inaceitável o argumento salomónico que muitos socialistas usam para se justificar, atribuindo “culpas” ao governo grego e à “Europa”, umas concretas e com alvo, as outras abstractas e genéricas, como se o resultado final se devesse ao modo como os gregos se comportaram nas negociações e não à recusa sempre sistemática dos alemães e do Eurogrupo em negociar fosse o que fosse, com o apoio dedicado dos socialistas. Os gregos podem ter feito todas as asneiras possíveis, que isso não justifica o que se passou. Mesmo os meses que durou isto tudo, não foram os meses necessários para negociar qualquer coisa, mas os meses necessários a colocá-los entre a espada e a parede e por fim vergá-los. Nunca, jamais, em tempo algum, poderia ter sido de outra maneira, porque nunca quem manda desejou que fosse de outra maneira.

Muitas das propostas gregas logo de início eram bastante moderadas (recordam-se de como os fans de Dijsselbloem disseram que os gregos tinham vergado como Hollande…), mas a perigosidade evidente de um governo como o do Syriza obter qualquer ganho de causa era inaceitável para governos como o português e o espanhol, e era uma bofetada para os socialistas colaboracionistas. A questão nunca foi conduzir bem ou mal as negociações, mas o facto de, por imposição da Alemanha, se ter sempre decidido que não havia acordo com os esquerdistas do Syriza.

Os alemães e os seus acólitos tinham um programa de humilhação, com um acordo que foi afinal escrito pelo Syriza a branco, para eles o reescreverem a preto. O acordo com a Grécia, na realidade um diktat, só tem uma lógica: obrigar os gregos a engolir tudo o disseram que não desejavam. Não tem lógica económica, nem financeira, tem apenas uma lógica política de humilhação. Querias isto? Pois levas com um não-isto. Foi assim que foi feito o chamado acordo.

E não me venham com o argumento de “confiança”, por parte de governantes como Merkel, Rajoy e Passos Coelho que apoiaram Samaras e a Nova Democracia até ao fim, sabendo que apoiavam um governo corrupto e oligárquico, coisa que o Syriza nunca foi acusado de ser. Esse governo “confiável” literalmente evaporou centenas de milhares de milhões de euros e permitiu que a Grécia, endividando-se até ao limite, funcionasse como tapete rolante para reciclar a dívida dos bancos franceses e alemães para os contribuintes europeus. E não me falem de “confiança” face a um acordo-diktat em que ninguém acredita, em que ninguém “confia” e que assenta no poder e no cinismo.

É uma exibição brutal de poder, que coloca a Grécia a ser governada de Bruxelas e Berlim, por gente que vai decidir os horários das lojas ao domingo, quem pode ter uma farmácia, como funcionam as leitarias e as padarias, e quem pode conduzir ferrys para as ilhas. Mas há mais: são revertidas decisões constitucionais de tribunais gregos e, como em Portugal se fez, mudanças legais para acelerar despejos, expropriações, falências e para retirar aos trabalhadores direitos sindicais e de negociação.

Depois há Schäuble, mas isso é outro nível das coisas, aquelas que vale a pena discutir. O que é que se assistiu nos últimos dias? Várias coisas que já são seguras e outras que estão em desenvolvimento.

Comecemos pelas “regras”. Como se sabe os gregos foram acusados de violar as “regras” do euro, e uma fila de pequenos governantes limitados enchiam a boca com as “regras”. Ora se há processo que violou desde o início as “regras” da União foi o modo como foi conduzido o caso grego. Nenhuma das três instituições europeias, o Conselho, o Parlamento e a Comissão assumiu o seu papel neste processo, substituídas por uma entidade informal, o Eurogrupo, e dentro do Eurogrupo pela palavra e posições alemãs que sempre decidiram o que se fazia e o que não se fazia.

A União Europeia não são os dezanove, a que se podia subtrair um, a Grécia, ficando dezoito. São vinte e oito, o que significa que nove estados que não têm o euro como moeda ficaram de fora. Um deles foi o Reino Unido, completamente marginalizado de uma discussão que foi muito mais longe do que apenas a política monetária do euro, mas foi um dos mais importantes momentos da história política da União. Mais: algumas decisões tomadas no Eurogrupo implicam fundos comunitários sobre os quais o Reino Unido também tem direitos, e ninguém se deu ao trabalho de telefonar a Cameron para o envolver nas discussões e nas decisões. A marginalização do Reino Unido é um grave precedente para o referendo que se vai realizar sobre a pertença à União Europeia.

Isto significa que o Conselho, que reúne os chefes de governo da União, com euro ou sem euro, e o Parlamento, cujo protagonismo os europeístas gostam tanto de exaltar, assistiram sem qualquer papel à crise grega. O mesmo se pode dizer da Comissão sempre subalternizada pelos alemães e os seus aliados como pouco fiável na dureza que queriam impor aos gregos. A Comissão, depositária dos Tratados, assistiu à violação desses mesmos Tratados pela Alemanha e o Eurogrupo, sem pestanejar ou, se pestanejou, como alguns afirmam, ficou por aqui. Aliás a marginalização da Comissão é institucionalizada no acordo imposto à Grécia, que implica a participação obrigatória do Fundo Monetário Internacional, uma instituição de fora da União, com quem passa a partilhar o “controlo” do resgate. Esta foi, mais uma vez, uma imposição alemã.

Não, eu não sou salomónico. Reconheço que os gregos cometeram muitos erros, mas recuso-me a colocar esses erros no mesmo patamar do que lhes fizeram. E o que lhes fizeram, uma mistura de vingança e humilhação, mostra bem o que a “Europa” hoje é. De há algum tempo para cá, já sabíamos o que ela estava a deixar de ser, a Europa dos fundadores, construída a favor da paz e pela solidariedade.

Hoje não foi a senhora Le Pen que foi dizer aos eleitores que devem ser egoístas se são ricos e submissos se são pobres. Foram Passos Coelho e Cavaco Silva, em Portugal, foi Rajoy em Espanha, foi Dijsselbloem na Holanda, foi Merkel na Alemanha, foram partidos e governantes como os antigos Verdadeiros Finlandeses, que até há pouco tempo eram esconjurados pelos europeístas e agora são eles que dão o tom à “Europa”.

Os estragos deste egoísmo não vão desaparecer e um dia virão bater à nossa porta. Não é difícil imaginar como. Também nós esperamos “crescer” nos próximos anos com os fundos comunitários, uma dádiva dos países que são contribuintes líquidos, ou seja, dos contribuintes alemães. Só por ingenuidade é que nós pensamos que o mesmo argumento que é usado para os gregos não pode virar-se contra nós. Não fazemos parte dos “preguiçosos” do sul? Por que razão um honesto e trabalhador operário especializado numa fábrica da Renânia-Vestfália vai ter que pagar dos seus impostos para esses portugueses que “vivem à nossa custa” quando um seu companheiro alemão da Pomerânia ganha metade do que ele ganha?

A Caixa de Pandora está aberta. E Pandora era grega.» – José Pacheco Pereira, no Público.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Lições gregas (continuação): o IV Reich


Sempre me inquietou saber que houve milhões de judeus que, durante o III Reich, mesmo conscientes do que lhes iria acontecer poucos minutos depois e apesar de saberem que o seu número superava largas dezenas de vezes o dos seus carrascos, avançavam para as câmaras de gás para morrerem sem se revoltarem contra metralhadoras em número suficiente para matar alguns mas largamente insuficiente para matá-los a todos. Há relatos de que, de quando em vez, havia um ou outro que se revoltava e era prontamente abatido porque a esmagadora maioria dos restantes não aproveitava para se lhe juntar e ajudar a fazer crescer um motim que, para ter alguma probabilidade de ser bem sucedido, teria que contar com o sacrifício e com a coragem da maioria que preferiu convencer-se que ia apenas tomar um duche para não arriscar perder, no máximo, uns minutos de vida para que houvesse quem se salvasse da morte certa que a resignação de todos a todos garantiu.

E inquieto-me outra vez. Setenta anos depois, alguém se lembrou de substituir metralhadoras por dívida, judeus por gregos e Deutschland por Europe para dar uma nova versão ao Reich. A última semana serviu para clarificar o que tinha ficado por clarificar. Quem manda na Europa e no euro é a Alemanha embora todos jurem “Europe über alles”. A Alemanha gaba-se de ter uma colónia chamada Grécia que está disposta a trocar por Porto Rico com os Estados Unidos. A política oficial da Europa é a pilhagem que a Alemanha dite independentemente do que possa acontecer aos pilhados, ao euro e ao projecto europeu. Os saqueadores não se importam nada se cada euro que consigam extorquir for obtido retirando o pão da boca a uma criança ou poupando no analgésico que humaniza a morte a um doente terminal.

Ficou demonstrado que quem ouse recusar continuar a ser destruído por esta pilhagem não pode contar com a solidariedade nem mesmo de outros países alvo da mesma pilhagem, lá está, porque “Europe über alles” ou, traduzido em bom português, porque quem governa esses países tem direito ao seu quinhão do produto do saque. E que governante europeu que ouse afrontar a vontade alemã, em vez de respeito pelas escolhas democráticas que esteja largamente mandatado para representar, deve contar com um grupo coeso de alemães e alemãezinhos que tudo fará para retaliar sem medir consequências, pelo que nunca por nunca deverá deixá-los muito à vontade relativamente à sua eventual saída do euro, sob pena de ser precisamente essa a bomba atómica que terá apontada à cabeça para o fazer aceitar entrar na câmara de gás e adiar a morte certa mais algum tempo.

Tsipras teve tudo para evitar a humilhação histórica que todos presenciámos na última semana. Teve o povo consigo, primeiro nas eleições em que o poder lhe foi confiado, depois no referendo que convocou para renovar essa confiança, uma aposta ganha que lhe rendeu uma vitória que nem o mais optimista imaginaria poderia saldar-se tão esmagadora como acabou por acontecer. Teve seis meses para tomar as medidas necessárias para programar a saída ordenada do euro que recusou desde o início. Confiou estar a negociar com gente minimamente responsável e não com terroristas. Ignorou a guerra que lhe foi movida para o desgastar internamente que culminou na decisão do BCE de fechar a torneira da liquidez que precipitou tudo. Arranjou maneira de perder em toda a linha. E perdeu.

Resta saber se e o que é que a outra parte ganhou e por quanto tempo. Todos os cidadãos europeus estiveram de olhos postos na Grécia. Se a maioria compreendeu que permanecer no euro não é o tal duche de beleza com que os judeus se convenciam a avançar ordeiramente para a câmara de gás, se com este desembarque fracassado na Normandia a maioria percebeu que o euro é a moeda única da austeridade e que esta Europa é a versão IV do imperialismo alemão, talvez daqui a 70 anos alguém escreva umas linhas de regozijo sobre o que é nosso dever fazer para acabar o mais depressa possível com a loucura de um Führrer de saias apeado antes de conseguir impor definitivamente o seu império da pobreza generalizada pela escravatura do trabalho precário e dos salários baixos que começou a construir sobre os escombros de uma Europa do bem-estar que trouxe a paz e garantiu prosperidade aos europeus nas décadas que se seguiram ao fim do III Reich.

A magna carta desta IV edição chama-se Tratado de Lisboa. Temos estado na linha da frente em tudo o que no futuro será recordado como muito mau, oxalá saibamos posicionar-nos na mesma linha da frente também no que se recordará como bom. Temos responsabilidades acrescidas para nos fazermos recordar por outra coisa que não um “eles avançaram ordeiramente para a pobreza, perderam tudo, até mesmo a democracia que custou tantas vidas a conquistar”.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A ressaca grega


Ontem uma bebedeira de democracia, hoje a ressaca. Os comentadores do regime dividiram-se nas reacções, umas mais cautelosas, outras mais raivosas, a maioria ainda mais imaginativa do que é costume, o Não grego deixou-os mesmo a nadar, ainda mais porque os patrões da Europa hoje perderam o pio e os contadores de histórias ficaram sem nada a que agarrar-se.

No arco do sim, cautelas e pele de galinha. Pedro Passos Coelho optou por dar-se uma imagem de serenidade, afinal parece que ontem não aconteceu nada e o euro está aí para lavar e durar. António Costa entreteve-se a tentar justificar a posição que mais uma vez não tomou   e a descolar-se das vergonhas socialistas que os seus camaradas por essa Europa fora nos serviram ao longo da última semana. E Paulo Portas jurou que irá repetir quantas vezes for preciso que Portugal não é a Grécia e, confirmação de que não tinha mesmo nada para dizer, aproveitou para insinuar que António Costa só não apoiou o Não por qualquer coisa ali algures entre a timidez e a irresponsabilidade que caracteriza qualquer homem de esquerda. Ainda há quem o considere de esquerda. Costa devia ter agradecido mas não o fez.

Finalmente, do lado do não, muita comoção, alguma contenção verbal por parte de Jerónimo de Sousa a certificar o embaraço causado por mais uma atitude a todos os títulos deplorável de um KEE que não quis juntar-se ao não ao terrorismo financeiro, muitas vivas à coragem e à dignidade do povo grego, mas pouco mais. Decepcionou-me constatar mais uma oportunidade perdida. Podiam ter aproveitado para, à boleia da vitória da democracia na Grécia, trabalharem juntos sobre o efeito de contágio que aquele rotundo não teria se, por exemplo,  lançassem a ideia de um referendo que perguntasse aos portugueses se aceitam continuar a ser espremidos durante as próximas duas ou três décadas para pagar uma dívida gerada por uma regra que, ao proibir que o BCE ceda liquidez directamente aos estados como exigem os alemães, nos põe a pagar juros milionários a intermediários financeiros que sem essa regra   perderiam o direito aos milhares de milhão que lhes garantimos anualmente. Não o fizeram.

Sinceramente, gostava que nas próximas eleições pudesse confiar o meu voto a um partido que fosse bastante mais do que apenas o menos mauzito de todos e de não me sentir obrigado a fazê-lo porque não votar é o favor que não quero fazer aos três que nos puseram neste buraco. Gostava de poder celebrar vitórias nossas em vez de comemorar as vitórias dos outros. Fico muito contente com o que têm conseguido o Syriza e o Podemos na Grécia e em Espanha. Mas eu sou português...

domingo, 5 de julho de 2015

O dia em que a Europa começou a mudar


Domingo, 5 de Julho de 2015, o dia em que os gregos mostraram a todos os povos europeus que é dizendo NÃO à chantagem dos opressores que se diz SIM à esperança dos oprimidos. Contra tudo e contra todos, apesar da campanha de terror com que foram bombardeados toda a semana, mais de 61% dos gregos que votaram no referendo de hoje quiseram dar-nos uma lição de coragem e de dignidade e fizeram-no: “Digam aos portugueses que na Grécia lutamos também por vocês”. A partir de agora o medo do amanhã vai continuar presente mas estará bem mais repartido. Boa noite, senhora Merkel. Boa noite, senhor Hollande. Boa noite, tecnocratas. Boa noite rafeirada pequena. Boa noite, senhores jornalistas/inventores de sondagens/comentadores às ordens do terrorismo financeiro. Vocês sabem que a partir de agora nada será como foi até aqui. É a vossa vez de terem medo também.