sábado, 20 de dezembro de 2014

Gostei de ler: "O PS e a esquerda (II)"


«Afinal, o Bloco Central é bom. Ou foi, e durante uma crise, precisamente: em 1983-85, o de Soares e Mota Pinto teria sido um exemplo de “capacidade de mobilização do país para vencer a crise” (António Costa, Expresso, 17/12/2014). Quinze dias depois da “viragem à esquerda”, o PS voltou a ler a história como sempre a leu.

Volto à tese que apresentei na minha última crónica: aqueles que repetem que é por culpa do PCP e do BE que o milhão de portugueses que votam à esquerda do PS não contribuem para uma alternativa de governo cometem um erro central de análise histórica (e política) porque partem do princípio que o PS é um partido de esquerda conjunturalmente obrigado a governar à direita. Na verdade, o PS comportou-se sempre, nos últimos 40 anos, como uma força do campo social-liberal: com políticas económicas liberais, tomando o partido dos empregadores e do capital contra o trabalho, porque os julga os motores do desenvolvimento e os verdadeiros produtores da riqueza; social apenas quando o crescimento/acumulação da riqueza daqueles permita gastar um pouco com aqueles a que Passos chama “o mexilhão”.

O PS não é um partido socialista como os outros. Ele é, em Portugal, o herdeiro histórico mais próximo do reformismo republicano. O seu coração bate mais depressa pelo 5 de Outubro do que pelo 25 de Abril. Nascido entre advogados, médicos e intelectuais cuja coragem pessoal contra a ditadura é inegável, o PS não nasceu historicamente no mundo do trabalho, ao contrário da maioria dos seus congéneres europeus, onde movimentos sindicais reformistas mas minimamente enraizados no operariado e nos trabalhadores politizados dos serviços deram origem a partidos sociais-democratas. González, Craxi, Blair, Schröder, ou hoje Valls ou Renzi (que nem social-democrata se considera...) não pretendem/ram representar mais do que uma classe média qualificada e ambiciosa, em grande parte inventada na cabeça deles, mas, até aos anos 60, sindicatos reformistas, por mais anticomunistas que fossem, representavam milhões de assalariados que exigiam políticas redistributivas e serviços públicos que assegurassem uma melhoria consistente do bem-estar da grande maioria da população.

Tudo isso foi abandonado nos anos 80. Acabavam de ser afastados do poder por Thatcher ou Kohl (e Reagan) e acharam rapidamente que a única forma de regressar era imitá-los. Se o “socialismo” foi metido na gaveta nos anos 70, o Estado de Bem-Estar passou a ser descrito pela social-democracia como impraticável em tempos de “globalização”. Em sociedades crescentemente injustas – e por culpa tanto dos governos socialistas quanto dos da direita –, é-lhes, contudo, muito difícil assumir que deixaram de acreditar na justiça social. Mas dessa, lembremo-nos, até Passos Coelho fala...

O PS governou 16 anos este país. Primeiro lutando contra a Revolução a partir de dentro: em 1975, aceitando a nacionalização dos sectores económicos essenciais e a socialização do latifúndio – para, logo em 1976, começar a reverter ambas. O PS queria, claro que sim, a liberdade, a democracia política e uma descolonização – mas detestou a Revolução, que, como a direita, achava ser obra de Moscovo, recusando-se a ver como era genuína a esperança que os portugueses punham no seu empenho criativo em mudar a sua vida. Quando chegou sozinho ao poder (1976-77), falava ainda de socialismo, mas acrescentou-lhe Europa e austeridade – e logo disse que uma e outra eram economicamente incompatíveis com a Constituição, poucos meses depois de a ter votado! O socialismo foi “metido na gaveta” e fez a primeira das alianças à direita, com o CDS (1978). Em 1983 voltou ao poder e trouxe consigo o PSD, resgatando-o de uma pesada derrota – exactamente como pode acontecer dentro de meses. E veio mais austeridade, e com ela os anos em que milhões passaram a achar que se o 25 de Abril e a democracia, afinal, era aquilo, o melhor era não ter acontecido...

O PS reviu e voltou a rever a Constituição com a direita (1982, 1989, …) para acabar com nacionalizações, a reforma agrária e tudo quanto cheirasse ao mesmo socialismo que havia defendido. Metade dos seus eleitores repudiaram-no em 1985, mesmo que, aterrados com a direita, votassem pouco depois em Soares para Presidente. Quando PS, PRD e PCP derrubaram Cavaco (1987), Soares não o substituiu por uma coligação PS-PRD: ofereceu-lhe a maioria absoluta.

Só oito anos depois pôde o PS regressar ao poder (1995-2002). Escolheu o seu rosto mais sereno, o de Guterres, acompanhado, isso sim por (e conter-me-ei nos adjectivos) socialistas que qualquer liberal gostaria de ver como ministro (Vitorino, Coelho, Gama, Lello, os ministros económicos todos, e, sobretudo Vara e Sócrates) e que lançaram no espaço sideral qualquer credibilidade socialista do partido. Apesar (ou por causa?) do crescimento económico, bateram-se todos os recordes das privatizações. Nem Cavaco, nem hoje Passos chegaram àquele nível! Cantaram-se loas ao bendito euro, recusou-se ponderar sequer o que poderia por aí vir – e nesse mesmo ano (2002) começou a recessão. Por fim, chegou Sócrates, o “animal feroz”. No Congresso do PS de 2004, com todo o descaro que sempre o caracterizou, zurziu os “adoradores do Estado”. No ano seguinte chegou ao governo. Escuso de dizer mais nada...

As opções de fundo do PS estão inscritas na sua história. Partido do poder, deixa-se atrair por todos os poderes (os económicos, os internacionais) – e por isso os julgará imbatíveis. “Se não os podes vencer, junta-te a eles”, diz o refrão. Deve ser por isso que tanto ministro socialista é recrutado na banca privada, ou que o único ministro dos Estrangeiros a bater o pé a Washington (Freitas do Amaral) nem socialista era... É provável que o PS regresse ao governo em 2015. Pela quarta vez, fá-lo-á depois de a direita ter feito desandar o relógio da democratização social e económica. Das outras vezes não reverteu nunca o caminho, por que o haveria de fazer agora? Só se o forçarmos a perceber que, se o não fizer, quem ganhará será a esquerda que quer regressar ao caminho da construção da justiça social.» – Manuel Loff, no Público.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Isto é terrorismo de Estado

Invocar a lei para violar a lei. Violar a lei deliberada e conscientemente para assegurar um interesse público que se quer desbaratar. Nem na Saúde, nem na Educação, nem em nenhum outro sector, não há memória de um Governo que se tenha atrevido a decretar serviços máximos através de uma requisição civil que esvazia completamente o direito à greve, no caso de hoje, perigoso precedente que não pode ficar para futuro, o dos trabalhadores da TAP. O Governo de Passos e Portas fê-lo ontem, atabalhoadamente, servindo-se de uma figura jurídica que em caso algum pode ser accionada antes da concertação com os sindicatos relativamente à fixação de serviços mínimos que ainda não aconteceu à hora a que escrevo estas linhas. Porém, para além da prepotência trapalhona, o que fica de mais este episódio deplorável não é a conclusão sobre uma hierarquia de valores de um Governo que considera mais importante o direito ao Natal dos passageiros da TAP do que o direito à Saúde ou à Educação de todos os portugueses. O que fez o Governo perder a cabeça foi o seu direito a não deixar a venda da TAP para aquele que lhe suceda. O valor líquido do encaixe para os cofres públicos, como é sabido, resume-se a poucas dezenas de milhão. Não será por aí. Ainda mais proveitos submarinos, então? É uma suspeita inteiramente legítima que a seu tempo se confirmará ou não, mas o que importa agora é travar este terrorismo de Estado com jeitinho para o negócio e para atropelar a lei, que não respeita nada nem ninguém. Já chega. 


Ainda sobre o mesmo terrorismo de Estado: qual terá sido a ideia de mandarem polícia de choque para a porta das escolas onde hoje decorrem as provas, diz o Governo, de avaliação de professores? Bater nos professores que façam greve? A autoridade perdida não se recupera pela força. Medo sempre foi diferente de respeito. E não há que ter medo de um Governo que só não é passado porque Cavaco o mantém ligado à mesma máquina que também o mantém no presente.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Se dois ilibados incomodam muita gente, três ilibados incomodam muito menos



Perdemos outra vez. Cada um de nós e a democracia. A corrupção beneficia de legislação que faz prescrever processos ao fim de determinado prazo. A Justiça, limitada pela crónica falta de meios que se vem acentuando nestes anos de chumbo e tolhida não poucas vezes por mãozinhas tão poderosas como gulosas pelo que é de todos, embaraça-se num emaranhado legislativo tecido por essas mãos com uma eficácia eficientíssima se observada pelo lado da impunidade que produz e que a produz. Soube-se hoje que o processo dos submarinos, o mesmo que produziu condenações à luz da legislação alemã, por cá, mais do que produzir sorrisos nas claques dos partidos dos agora definitivamente ilibados Portas e Durão, já estava prescrito antes mesmo de ser arquivado. Porém, não é nada disto que faz tocar o realejo da claque adversária. Sim, que isto não é o Freeport, outra vergonha do mesmo gaveteiro de impunidades que a partir de agora é também a morada dos submarinos. O problema da claque rosa é o seu prisioneiro 44, vizinho de Portas e de Durão no atrás referido gaveteiro dos inocentes mas a contas com uma Justiça que, uma vez sem exemplo, não deu a Sócrates tratamento de Portas. Já que Portas não vai para Évora, ao menos que Sócrates fosse outra vez parar ao gaveteiro. Isto podia perfeitamente resolver-se a bem ainda mais uma vez.


O cancioneiro deste realejo rosa é também o tema da “carta a José Sócrates” escrita por Ricardo Araújo Pereira para a edição de hoje da revista Visão. «(…) As críticas que faz ao funcionamento da justiça parecem-me muito pertinentes. Portugal precisava que um homem como o sr. estivesse, digamos, sete anos à frente do Governo, talvez quatro dos quais com maioria absoluta, para fazer uma reforma séria do sistema judicial. É uma pena não termos essa possibilidade. Na minha opinião, os primeiros-ministros deviam ser presos antes, e não depois dos mandatos. Estagiavam durante dois meses numa cadeia, três num hospital e um semestre numa escola. O contacto directo com a realidade dá-nos perspectivas novas, mais informadas, e acirra o ímpeto reformista. Julgo que é possível estabelecer um paralelo entre o processo de Josef K., a personagem de Kafka, e o de José Sócrates, ou Josef S. - sendo que a sua história é mais complexa: tanto Josef K. como Josef S. se vêem confrontados com decisões judiciais autoritárias e, em certos aspectos, até grotescas, mas Josef K. nunca teve amigos como Alberto Martins e Alberto Costa a tutelar a justiça, nem governou o seu país. Era apenas vítima. Ser simultaneamente vítima e carrasco deve ser mais perturbador. Ao contrário do que muitas vezes se diz, Joseph-Ignace Guillotin, o inventor da guilhotina, não foi guilhotinado. Essa ironia foi reservada para si, que é agora acusado por um sistema que ajudou a conceber e conservar (…)».

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Pedro e o mexilhão (com os percebes a salvo)




Nada como convidar um génio da laracha para falar num seminário anunciado como sendo sobre economia. A laracha acaba promovida a economia. O génio da laracha acaba promovido a sábio da economia. Vá, aquela que se despromoveu ao promover-se a laracha para se promover o seu génio a entendido em economia, está bem, mas convidam-se uns parolos para animarem a coisa com palmas e umas gargalhadas alarves e a coisa passa nas televisões mesmo por seminário de economia. E o sábio por sábio. O génio do mexilhão. A economia do bivalve. O seminário aconteceu por estes dias em Braga. O génio disse, e atenção à aprumada linguagem técnica, que “ao contrário daquilo que é o jargão popular de que quem se lixa é o mexilhão”, quem contribuiu mais, em altura de crise social, “foi quem tinha mais” e não “os mesmos de sempre”. Ficámos a saber que os funcionários públicos e todos os aposentados a quem o senhor passou os últimos anos a cortar salários e reformas afinal são amêijoas. As centenas de milhar que perderam direito a prestações sociais como RSI, abono de família e subsídio de desemprego são berbigões. Os 350 mil que emigraram fizeram-no por serem as conquilhas que mais tinham. Não desapareceram mais de dez mil milhões dos orçamentos da Escola pública e do Serviço Nacional de Saúde, nem aumentaram as ajudas aos colégios privados, a saúde de mercado também não lucrou nada com o pandemónio que reina nos hospitais públicos. As rendas da energia, dos combustíveis e das PPP das auto-estradas e da Saúde não aumentaram. O IRS não subiu brutalmente ao mesmo tempo que o IRC das grandes empresas diminuía. As piranhas não engordaram como já não havia memória a engolir a multidão de desempregados que puderam contratar e despedir ao sabor de uma gula que o sábio consagrou com letra de lei como tendencialmente gratuita, com feriados a trabalhar à borla e horas extraordinárias com desconto e tudo. Os tubarões que engoliram a EDP, a REN, a ANA, os CTT, os Estaleiros de Viana  e outras pérolas que o sábio vendeu ao preço da uva mexilhona fizeram péssimos negócios. Os novos milionários não enriqueceram a comer os mexilhões que o sábio lhes serviu em bandeja de troika. Exprimindo-me na sua apuradíssima linguagem técnica, gostava que este filho de uma chaputa tivesse a coragem de dizer o que disse na feira que organizaram para lhe promover a vaidade num lugar cheio de gente, gente daquela mesmo gente, da que se sente. O bandalho sabe porque não o faz. Não saía de lá com os percebes inteiros. Chamem-lhe sábio.

Um prémio justo inteiramente injusto


Ricardo Salgado acaba de vencer o prémio BBC para pior CEO 2014. Um prémio justo inteiramente injusto. Deixou de fora todos os anos anteriores e as maroscas do premiado não são de agora. E haveria também que premiar o centrão que tudo lhe permitiu pelas negociatas que, durante as décadas do seu longo reinado, Salgado soube oferecer-lhe em troca. Salgado nunca seria Salgado sem o seu centrão de negócios. O prémio não aquece nem arrefece o dono disto tudo. Já terá a fortuna a salvo numa bela ilha com palmeiras e aos 70 anos, com ou sem prémio, com ou sem BES, resulta-lhe exactamente igual. Já com a omissão não acontece o mesmo. A fulanização contida neste prémio é o melhor que  pode acontecer para salvar o arco que deu cabo disto tudo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Coraçõezinhos voadores



“Estou-me nas tintas para as consequências que a privatização da TAP terá sobre o serviço público de passageiros, se haverá rotas que desaparecerão em função de critérios comerciais ou se os preços aumentarão na medida da ganância de quem venha a comprar a TAP, e não quero saber do que acontecerá às vidas de centenas de trabalhadores que nem conheço, cujos salários e condições de trabalho serão espremidos para as contas bancárias dos novos donos da empresa. Eu quero é poder viajar tranquilamente este Natal para junto daquela parte da minha família que está nos Estados Unidos e regressar sem sobressaltos para passar o fim de ano em Portugal com os meus amigos”.
Há demasiada gente a pensar assim. Foi este pragmatismo que gerou aquela paz social, tão elogiada pelos donos disto tudo, que tornou possível tantas privatizações a preço de saldo, quer hoje, quer no passado. Já pagámos dois bancos, continuamos a pagar os combustíveis mais caros da Europa, a energia mais cara da Europa, as telecomunicações mais caras da Europa, somos obrigados a subscrever um pacote de cabo porque os mafiosos que transitam dos Governos para as administrações destas empresas arranjaram maneira de limitar a 5 o número de canais disponibilizados pelo serviço de televisão digital terrestre, que noutros países chega a ultrapassar os 50 e que em Portugal não cobre sequer todo o território. E não há meio destes cidadãos não praticantes mudarem a sua forma de pensar.
É aos seus coraçõezinhos voadores que se dirige um Governo que lhes promete protecção contra os terroristas que não fizeram uma pausa natalícia na sua luta pelo que é seu e pelo que é nosso. E é aos seus bolsos que se dirige idêntica protecção oferecida pelo mesmo Governo que aprovou um aumento de 3,3% no preço das tarifas eléctricas mais caras da Europa que garante à empresa pública chinesa que ganhou uma das privatizações anteriores.
Estão-se nas tintas para os efeitos que tal aumento terá sobre as vidas do povo que governam e sobre a competitividade da economia que compensam com cortes salariais, não querem saber do preço do barril de petróleo, que justificou aumentos anteriores quando quase tocou nos 120 dólares e que baixou dos 60 no dia a seguir a mais um aumento no preço da energia praticado em Portugal. Os cidadãos não praticantes também não se importam nada. Nesta China que vive acima das nossas possibilidades é Natal todos os dias. O importante é poder voar para lá sem chatices provocadas por quem resiste em vez de agradecer quando lhes tentam roubar os Natais.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O regador rosa, para quem já sentia saudades


António Costa, o líder do tal partido que adopta ares de esquerda apenas quando está na oposição, já começou a molhar os pés aos portugueses. Há um par de dias, entusiasmou-se e disse textualmente que "ao contrário do que diz o primeiro-ministro, o que estava no Memorando de Entendimento com a Troika não era a previsão de uma privatização a 100% da TAP. Não, o que estava no Memorando de Entendimento era que a TAP só seria privatizada parcialmente e nunca na sua totalidade". Mentira. O esquerda.net reproduz o que diz o memorando. Em nenhum lugar se lê, como diz António Costa, que “a TAP só seria privatizada parcialmente e nunca na sua totalidade". O texto não deixa margem para dúvidas em relação à intenção do governo Sócrates de privatizar a TAP. Apenas não é explícito, como é em relação à EDP e à REN, que se trata da venda da totalidade das acções, mas também não diz que a venda é parcial ou que o Estado ficaria com a maioria do capital, deixando a questão em aberto, remetendo-a para as “condições do mercado” que podem ser o que a vontade de vender quiser. Da mesma forma, esta posição já constava do PEC 4, onde a TAP não é mencionada, mas onde já vem referida a alienação de uma série de empresas, entre elas, adivinhem lá, a de transporte aéreo. A esquerda deles é assim quando estão no Governo. António Guterres, de quem se diz ter governado muito à esquerda de Sócrates, também quis privatizar a TAP, como vimos aqui.

Parasitas

Foto: Belmirus Arcus Governabilidadis


O Governo vai ter que dar cumprimento à decisão do Tribunal Constitucional sobre a matéria e repor o pagamento sem cortes do trabalho prestado em dias feriados e das horas extraordinárias já a partir de Janeiro. Os parasitas do país não tardaram a reagir.


Os representantes dos patrões da indústria e do comércio dizem que têm que ser compensados com um desconto na TSU por não poderem continuar a dispor das vidas de cada trabalhador com um desconto de 50%, pagar cada primeira hora extraordinária a 125% e não a 150%, cada hora a seguir à primeira a 137,5%e não a 175% e cada feriado a 150% e não a 200%. Uma empresa recorre a trabalho extraordinário quando o negócio corre bem, não quando corre mal e não há encomendas. Fá-lo porque o acréscimo de proveitos é superior ao acréscimo de custos. Mas a falta de vergonha destes senhores diz que a borla tem que continuar porque estamos em crise, o argumento que durante estes últimos anos tem servido para intensificar o mais possível a transferência de rendimentos do trabalho para o capital que tem ajudado a afundar o país.


Ao aprovar esta medida, uma de muitas com o mesmo objectivo, o Governo incentivou as empresas a sobrecarregarem os seus funcionários com trabalho suplementar em vez de criarem novos empregos: quanto maior o número de desempregados, maior o desespero que durante estes anos tem obrigado cada vez mais pessoas a aceitarem remunerações e condições de trabalho progressivamente piores, com prejuízo para os próprios e para a Segurança Social – salários menores geram contribuições menores – e com benefícios exclusivamente para os empregadores, diferenciadamente segundo a sua dimensão. Foram as empresas maiores, as que multiplicam por centenas de trabalhadores o ganho obtido com a exploração de cada um deles, as que mais ganharam e mais cresceram com esta borla de dois anos, não as mais pequenas e com menos trabalhadores, para as quais os míseros 75 cêntimos que voltarão a pagar por cada primeira hora extraordinária, os 1,25 euros por cada hora seguinte ou os cerca de 24 euros por cada feriado não farão grande diferença.


Pelo contrário, para tantos e tantas que recebem um dos salários mais mínimos de toda a Europa – os cálculos foram feitos para um salário mensal de 500 euros – e conta os tostões para sobreviver, um ou dois euros muitas vezes é a diferença entre poder ou não poder dar o pequeno-almoço aos filhos. Os grandes patrões e o Governo dos grandes patrões gostam muito de falar em responsabilidade social. Fica-lhes bem. Mas responsabilidade social é isto. E responsabilização política é usar o voto para desfazer o tal arco que sempre usa o poder para alimentar as fortunas de uma minoria com os quotidianos de miséria de milhões de portugueses.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Nós e o terrorismo social que nos é imposto


Temos o direito a escolher o sistema económico sob o qual vivemos. As pessoas vivem actualmente torturadas por um sistema orientado exclusivamente para produzir lucros que destroem riqueza. Como bem social que é, o trabalho deve ser repartido por todos com salários dignos.  O terrorismo social destes dias tem consequências que não se circunscrevem ao curto prazo, a nossa comunidade pagará os seus custos durante décadas. Algumas ideias expressas na intervenção de Raquel Varela – ver vídeo –  na assembleia cidadã organizada pelo movimento Juntos Podemos, que decorre neste fim-de-semana em Lisboa. Detalhes aqui.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Gostei de ler: "Os primos são uma chatice mas são a nossa família"


«Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi, colher de prata no nascimento, primos direitos, dez anos de diferença, ambos administradores das casas da família, entretiveram o país com uma quezília para dentro da qual, por uma vez, o povo conseguiu espreitar – e como se deliciou. Coisas de primos.

Queiroz Pereira veio logo acrescentar com bonomia o picante dos bolos daquelas tias, labutando noite fora, “para restaurantes”. Ele conhece bem a família. O avô, Carlos Pereira foi o principal accionista do Banco Comercial de Lisboa, de cuja fusão com o BES, em 1937, resulta o BESCL, mais tarde de novo BES, e o seu filho Manuel Queiroz Pereira, primo por afinidade de Marcello Caetano, continuou a aliança. Pedro Queiroz Pereira, o herdeiro, viria a desfazê-la em 2013, porque Salgado se tentou aliar com as suas irmãs para lhe ficar com a empresa, a Semapa. Coisas de primos por carteira.

Foi sempre assim, a história do século XX e XXI é uma história de primos havidos e desavindos nas melhores casas. A começar pelos capitães da indústria: Alfredo da Silva tinha uma única filha, Amélia, e casou-a com Manuel de Mello, filho de uma Lima Mayer e de Jorge de Mello, conde do Cartaxo. De seguida, veio António Champalimaud casar-se com a filha de Amélia e Manuel, mas depois os Mello e os Champalimaud zangaram-se. Os filhos de uns e outros são os primos Mello e Mello Champalimaud. Coisas da família.
O mundo é pequeno mas cheio de primos. Manuel Ricardo Espírito Santo, neto do fundador da dinastia e seu herdeiro, portanto presidente do banco, casou com Maria do Carmo Moniz Galvão, filha do maior acionista do banco e prima direita de Champalimaud, que era casado com a filha do casal Mello. Por sua vez, a cunhada de Maria do Carmo casou com Fernando Pereira Coutinho, primo de João Pereira Coutinho e primo de Manuel de Mello. Dois sobrinhos de Jorge de Mello casaram com a filha e com a neta de Frederico d’Orey e uma sobrinha de Manuel de Mello casou-se com António D’Orey Pinto Basto, outra família distinta a entrar no primariato. Ricciardi, que é primo de Salgado, é primo de Roquette. Afinal, os Mello, Espírito Santo, Ulrich, Roquette, Pinto Basto, d’Orey e Champalimaud foram-se todos ligando por laços de união.
É o que pode verificar nos mapas genealógicos (clique na imagem para ampliar: o desenho é de Nuno Saraiva, no livro “Isto é um Assalto”, 2013, que escrevi com Mariana Mortágua, e o quadro mais detalhado é de “Os Donos de Portugal”, 2010, com vários autores). Veja os detalhes, se as famílias lhe interessam: a irmã de Manuel de Mello casa-se com Fernando Ulrich, avô do actual Fernando, os Mello e Espírito Santo casam-se, como d’Orey com Mello e com Pinto Basto. Tudo primos.

Tudo primos, quase tudo discreto: nestas famílias não é costume exibir uma truculenta Casa dos Segredos. É até de muito mau tom. Mas não é a primeira vez. O Processo Sommer, anos a fio nos tribunais, opôs António Champalimaud aos irmãos, para disputarem a herança de um tio. Não havia nem fugas ao segredo de justiça nem televisão para uma cobertura em directo, mas o caso deu para o torto e António fugiu em 1969 para o México, de onde só voltaria em 1973, para logo fugir de novo em 1975, para finalmente voltar em glória com as privatizações dos anos oitenta e noventa. Já livre do processo e rico. Coisas de famílias.

Foi em sintonia com esta tradição que, durante esta semana, raro momento de esclarecimento, Salgado e Ricciardi, ambos Espírito Santo, nos contaram a história da sua cizânia e do ascenso e ocaso da família mais poderosa de Portugal. De todo o modo, primos eram e primos ficaram. Sabem demais e fizeram demais, um agora a contas com processos intermináveis, outro terminando como representante de uma empresa chinesa.

Os primos não se escolhem, ainda bem. Certo é que o primariato fez as fortunas de Portugal, que são, bem entendido, o que há de mais ilustre. Por isso, o percalço Espírito Santo passará, como passam as coisas terrenas. No fim, ficam sempre os primos, que são a família.» – Francisco Louçã, no Público.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sobre aquele "não pode ser" que nos vai dando cabo da vida


Que raio de pesadelo este. Volta e meia, aparece-nos à frente um senhor engravatado ou uma senhora de tailleur que, com as explicações mais parvas ou simplesmente porque sim,  nos diz que "não pode ser" – elenquei alguns no final deste que lêem, por mais que a realidade os desminta. Alguns dos "não pode ser" do dia têm que ver com a TAP. "Não pode ser" mantê-la em mãos públicas, ou então, diz-nos Maria Luís Albuquerque, a empresa desaparece.

Maldita memória, que arranja sempre maneira de se pôr ao fresco quando é precisa. Há quase quinze anos, Quando o pesadelo destes "não pode ser" começou, um Governo, por sinal do tal partido que apenas fica vagamente de esquerda quando está na oposição, também quis vender a TAP, então à Swissair, e a venda chegou a ser aprovada em Conselho de Ministros. O senhor engravatado que nesse longínquo ano 2000 nos disse o mesmo "não pode ser" que hoje nos diz Maria Luís Albuquerque foi António Guterres. O que a realidade nos veio dizer depois foi que a TAP teria desaparecido se o negócio não tivesse abortado. O comprador, a Swissair, entretanto desapareceu. Faliu. Se ainda temos transportadora aérea devemo-lo aos trabalhadores  da TAP. Foi a sua luta que fez o Governo de Guterres recuar.
Não quiseram aprender nada, nem com  esta experiência, nem com as da PT e do BES. Muitos "não pode ser" depois, o actual Governo volta à carga com o mesmo propósito e quer vender a TAP por um preço oficialmente simbólico ao primeiro que aparecer, e sublinho o oficialmente, nos tempos que correm as garantias de que não haverá outro tipo de contrapartidas mais submarinas é coisa que não existe. Todos os sindicatos de todos os sectores da TAP convocaram quatro dias de greve. A TAP é dos que nela trabalham, que não querem ver as suas condições de trabalho esmagadas para aumentar os lucros de um mafioso qualquer, mas também é nossa. É a TAP que assegura o serviço público de transporte de passageiros de e para Portugal e é da TAP depende o Turismo, um dos sectores que mais empregos garante a tantos de nós, directa e indirectamente. É nossa obrigação apoiá-los em mais esta luta. E já vai sendo tempo de nos juntarmos, como eles o fizeram, para acabar de uma vez por todas com os "não pode ser" que nos vão dando cabo da vida.
Recorrendo às palavras do Nuno Ramos de Almeida, "existem condições para aproveitar uma hegemonia social e transformá-la em mudança política. A maioria dos portugueses é contra a existência de uma casta política e económica que vive da corrupção, não está de acordo com uma política de austeridade que liquida a vida e a economia e só serve os especuladores, e pretende ter voz activa no seu futuro. Nestes três eixos (corrupção, economia e democracia) há uma posição maioritária das pessoas para mudar. É só preciso dar-lhe uma voz credível". Juntos podemos. Encontramo-nos por lá.


"Não pode ser" rasgar o Tratado Orçamental da ultra-austeridade para sempre nem pode ser renegociar a dívida pública, mas ver o país a definhar e a fome a alastrar por causa desses "não pode ser" já pode e tem que ser.

Defender intransigentemente políticas que devolvam Portugal aos portugueses "não pode ser", aceitar políticas que apenas servem os interesses da Alemanha, da banca do centro da Europa e das grandes multinacionais já pode e tem que ser.

"Não pode ser" o Banco Central Europeu ceder liquidez aos estados nas mesmas condições que o faz ao sector financeiro, que depois faz o favor de ceder essa mesma liquidez  a esses mesmos estados a um juro 40 ou 50 vezes mais elevado, mas tornar povos inteiros escravos de especuladores agiotas já pode e tem que ser.

Fazer do bem-estar das populações o objectivo dos objectivos de política económica e pôr as economias a produzir e a distribuir riqueza "não pode ser", empobrecer a trabalhar para produzir lucros e rendas que concentram a riqueza num número cada vez mais restrito de milionários já pode e tem que ser.

"Não pode ser" serviços públicos com a universalidade e a qualidade que os impostos que pagamos chegam e sobram para suportar, mas pagar juros bem gordos de uma dívida que não querem ver devidamente auditada já pode e tem que ser.

"Não pode ser" manter os salários e a estabilidade no emprego que constavam nos contratos de trabalho que todos nós assinámos com as nossas entidades patronais, que também os assinaram , mas manter os contratos leoninos, nulos à luz da Lei, que os sucessivos Governos foram assinando com as suas clientelas PPP, que quiseram tornar milionárias, tal como deixar falir as milhares de empresas que nunca mais voltaram a vender os seus produtos depois das sucessivas machadadas salariais que foram desferidas sobre os seus clientes,  já pode e tem que ser.

"Não pode ser" baixar impostos sobre os rendimentos do trabalho e sobre o consumo, mas reduzir impostos sobre lucros, permitir que as grandes empresas se isentem de contribuir para a comunidade que as enriquece e paguem os impostos sobre os seus lucros em paraísos fiscais e excluir as grandes fortunas de qualquer contribuição já pode e tem que ser.

Reduzir o IMI aos particulares "não pode ser", isentar de IMI o maior proprietário imobiliário do país e conceder 50% de desconto aos fundos imobiliários da banca já pode e tem que ser.

"Não pode ser" o Estado ser proprietário de empresas estratégicas para o país, que geram lucros avultados por operarem em sectores onde não existe concorrência, e "não pode ser" pôr esses lucros a pagar o Estado social, mas confiar as parcelas de soberania de cada uma delas e pôr essas empresas a enriquecer privados que as gerem e desmantelam ao sabor da sua ganância já pode e tem que ser. Capitalizar empresas públicas em dificuldades com dinheiros públicos "não pode ser", usar dinheiros públicos para nacionalizar bancos falidos pela delinquência banqueira já pode e tem que ser.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sobre as artes de um Governo que brinca com a fome do seu povo


As instituições internacionais já há algum tempo andavam a olhar para as estatísticas do emprego com alguma desconfiança e até incredulidade. Reconheciam que a evolução do mercado de trabalho estava a superar o que seria expectável face ao desempenho da economia. Em Novembro, numa entrevista ao Jornal de Negócios, o responsável do FMI Subir Lall chegou a afirmar: "Ninguém percebeu como é que o desemprego está a baixar." Mas a verdade é que os números do INE teimavam em contrariar as folhas de Excel da troika, com os dados do Instituto de Estatística a apontarem para um crescimento homólogo de 6% do trabalho por conta de outrem no terceiro trimestre deste ano.

Nesta quarta-feira, o Banco de Portugal deu um contributo decisivo para desvendar o mistério. Segundo uma análise do banco central, existem diferenças metodológicas que contrariam as estatísticas do INE e que levam a concluir que, para o mesmo período de análise, o emprego por conta de outrem no privado cresceu apenas 2,5%, muito longe dos 6% estimados pelo Instituto de Estatística.

Mais do que fazer contas à dimensão de crescimento do emprego, a análise do Banco de Portugal acaba por questionar a própria qualidade dessa criação de emprego, já que, segundo a instituição liderada por Carlos Costa, um terço do emprego criado tem a ver com os cerca de 60 mil estágios profissionais que foram lançados pelo Governo. O resto do milagre da redução da taxa de desemprego passa pelos mais de 263 mil trabalhadores que trabalham a meio tempo e que gostariam de ter um emprego com horário completo mas que não conseguem encontrar o que não existe, pelos desencorajados que, confrontados com a mesma inexistência, ao deixarem sequer de procurar, foram arrumados pelas estatísticas na categoria dos inactivos e, claro, pelos mais de 300 mil que a mesma inexistência empurrou para a emigração. A CGTP estima que no final do segundo semestre a taxa real de desemprego era de cerca de 23%, quase 10%acima do valor oficial.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Era uma vez mais um banco


A família troika encontrou-se ontem com a família Espírito Santo no Parlamento e o espectáculo não foi muito diferente do habitual. De quem foi a culpa? Para não variar, a culpa foi do outro ramo da família. Não faltou sequer aquele “mais tempo e mais dinheiro” que esta malta que vive do dinheiro dos outros tanto gosta de chutar para o ar para dar vida ao morto que lhes garante poder e fortuna. E a culpa dos milhares de milhão que desapareceram para bolso oficialmente incerto acabou por voltar a não ser de ninguém. Não foi do Governo que nacionalizou mais um buraco escavado impunemente pela ganância da delinquência banqueira. Não foi de um regulador que voltou a mostrar que apenas gere aparências e não regula porcaria nenhuma. Não foi da cleptocracia angolana, com quem a família troika e as famílias banqueiras mantêm subserviências que há que manter custe o que custar porque apenas envergonham quem não enriquece à sua sombra. Não foi de nenhum dos ramos da família Espírito Santo porque ambos os ramos da família troika não estão mesmo nada interessados em revelar as proveitosas relações submarinas que durante três décadas mantiveram com a primeira: se vocês revelarem as nossas, nós revelamos as vossas. E o povo é quem mais ordena. Não aconteceu nada de tão grave assim ao ponto de fazer o ex-dono disto tudo perder aquela pose de soberano com a fortuna a salvo numa ilha com palmeiras e com tranquilidade suficiente para dizer que o dono disto tudo é o povo português. Bem vistas as coisas, um povo que não consegue organizar-se para usar a democracia de forma a retirar o poder à família troika, um povo que já pagou dois bancos mas que aceita pacificamente que o sector financeiro não seja nacionalizado e continue em mãos de outras famílias ilustres, um povo que nem sequer exige que seja vedada à banca comercial a transacção de lixos financeiros é um povo que apenas manda aquilo que o mandarem mandar. Um leopardo quando morre deixa a sua pele, um banqueiro quando cai deixa o seu calote, um Governo quando parte deixa lugar para outro igual. O soberano sabe que a oligarquia pode continuar a dormir descansada.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Entretenham-se lá com a árvore, mas não vejam a floresta


Mais de 90 inspectores da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da PJ denunciam em abaixo-assinado a falta de meios que, dizem, está a debilitar a unidade nas investigações aos crimes de corrupção. Em causa estão equipamentos informáticos desactualizados, automóveis sem condições para circular e falta de recursos humanos. A denúncia podia ter partido de médicos, de professores ou de artistas, na Saúde, na Educação, na Cultura ou em qualquer outro sector o cenário é igual, em todos eles se trabalha com falta de meios e a qualidade dos serviços prestados ressente-se. Nestes últimos tempos, a cavalo na prisão de Sócrates, a agenda mediática tem-se centrado no tema corrupção para nos fazer esquecer o problema principal: somos um país refém dos acordos firmados por três partidos que se puseram de acordo em pôr-nos a servir uma dívida e a obedecer a uma Europa que os mandou sobrecarregar-nos com os impostos que o grande capital nunca pagou e amarrotar-nos as vidas de forma a devolver a esse mesmo grande capital a rentabilidade que perderam com o crash de 2008. Nada mais lhes interessa. É com tudo isto, com o Tratado Orçamental da austeridade para sempre e com o euro que apenas se desvaloriza usando os salários como factor de ajustamento, que há que romper. A corrupção vem no pacote, mas é apenas uma das parcelas, que até nem será a maior. Mal estaremos se aceitarmos discutir corrupção na vez da saída política para o buraco onde nos meteram. A culpa será sempre do outro, para felicidade da sobrevivência de todos. Da corrupção também.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Gostei de ler: "O PS e a esquerda (I)"


«Não é possível ser alternativa às atuais políticas [e] querer prosseguir as atuais políticas”. Pode parecer, mas não: a frase não aparece num comunicado do PCP ou do Bloco, ela foi mesmo dita por António Costa no Congresso do PS. Significa isto que o PS vai mesmo virar à esquerda? É agora?
Na ausência muito provável de uma maioria absoluta, veremos Costa, que gosta tanto de coligações, que avisa já que “não podemos viver numa situação de instabilidade ou paralisada por divergências” dentro delas, a propor negociações ao PCP e ao BE, os tais que vivem “na posição cómoda do protesto e não trabalham para a solução” (PÚBLICO, 30.11.2014)? Ou de tudo isto sairá apenas um convite a Rui Tavares para uma secretaria de Estado, ou um Ministério da Justiça oferecido a um ulceroso Marinho e Pinto? Fora do PS (e do Livre) ninguém acredita na primeira hipótese: a direita finge-se chocada com a “radicalização” à esquerda do PS, mas até Teresa Leal Coelho (PSD) percebeu que a viragem do PS à esquerda é um “taticismo” de António Costa que durará pouco (Sol, 5.12.2014). Comunistas e bloquistas continuam a mostrar-se céticos. Um observador insuspeito como Paulo Guinote recomenda “a todos aqueles que auguram um PS virado a alianças à esquerda pela primeira vez na sua história” que “[esperem] sentados e [tomem] desde já um antidepressivo dos fortes, tamanho vai ser o rebound” (blogue A educação do meu umbigo, 4.12.2014).
Um socialista, pelo menos, quis levar a sério o discurso de António Costa. Francisco Assis, que “advoga a vantagem de um entendimento político de fundo com formações de centro-direita”, queixou-se nas páginas do PÚBLICO de lhe terem “[imputado] arbitrariamente uma pérfida intenção, [deturpado] deliberadamente os [meus] propósitos e [promovido] um juízo definitivo visando a [minha] absoluta desqualificação moral e política”. Assis conhece bem de mais os seus camaradas socialistas para saber que exagerou. Eu, pelo menos, que o conheci há quase 30 anos nos nossos tempos de faculdade – ele em Filosofia, eu em História; eu no movimento estudantil que defrontava o cavaquismo arrogante dos anos 80, ele, já então, longe de tudo isso, discretíssimo numa JS que, fora de Coimbra, nem se percebia existir –, permito-me duvidar que ele não saiba que não há ninguém na nova direção do PS interessado em acabar com 40 anos de pragmatismo político, de “socialismo” e de “Estado social” metido na gaveta e de navegação à vista, e assumir uma aproximação ao que ele chama a “esquerda proclamatória”. Eu sou dos que percebeu há muito – e digo-o, honestamente, sem nenhuma ironia – que Assis não foge a “pureza” alguma da esquerda onde ele acha estar quando diz terem sido “raras as ocasiões em que a esquerda democrática e liberal” (é assim que ele se define) “esteve mais próxima da extrema-esquerda [de inspiração bolivariana]” (é isto que ele acha ser o PCP e o BE, não sei se o próprio Livre) “do que de uma certa direita liberal e republicana” (que suponho ser o que ele vê no PSD). Há muito que manifesta uma repulsa genuína pelo que chama os “neocomunistas”, designação que, no discurso de Assis, abarca muito mais do que os militantes dos PC's deste mundo, e inclui todos os que encontrem no marxismo instrumentos de análise da realidade.
Também aqui ele não se diferencia do que foi a atitude histórica do PS desde 1974, que à sua esquerda viu permanentemente sindicatos e partidos “antidemocráticos”, que tantas vezes garantiu estarem ao serviço de “potências estrangeiras”, com os quais era impossível (pelo menos até Sampaio-Lisboa-1989) chegar sequer a acordos pontuais. É por isso que toda esta conversa da “esquerda inútil” e que “não trabalha para a solução” – e que me desculpe o meu colega André Freire – é uma boutade dos últimos 20 anos: até então, o PS disse sempre que quase tudo à sua esquerda era gente infrequentável. Nos anos 90, com Guterres, o PS passou a agregar quase 80% dos votos da esquerda, e roçou sempre a maioria absoluta (ver tabela). À sua esquerda, reuniam-se apenas 10% dos eleitores – metade dos que houvera até 1987. Desde 2005, contudo, que entre 800 mil e um milhão de portugueses votam sempre à esquerda do PS, numa proporção de um para dois. E têm fortes motivos para o fazer. E é isso que preocupa António Costa. Ao contrário do que se pretende fazer crer, esse bloco social à esquerda tendeu a recuperar neste século um peso que já fora seu nos anos 70. Por outras palavras, nos anos de Sócrates (querem líder socialista mais incompatível com viragens à esquerda?), o PS governou à direita e desiludiu à esquerda. Já nos anos 80, o Bloco Central de Soares fizera o mesmo – e abriu caminho ao PRD e à candidatura de Zenha à Presidência, com o apoio do PCP, o que retirou ao PS a maioria dos eleitores da esquerda.
Eu sou dos que estou convencido que o PS não governará à esquerda depois de 2015. Não porque seja Costa o candidato. Simplesmente porque nunca governou à esquerda. A única forma de conseguir por via eleitoral um governo à esquerda passa por inverter a correlação de forças entre o PS e os partidos à sua esquerda – isto é, que o conjunto de votos da CDU e do BE supere claramente os do PS e o obrigue, como sucedeu na Grécia e brevemente sucederá em Espanha, a escolher assumidamente entre uma coligação com a direita (como fez o PASOK – e foi o fim de qualquer ilusão) ou uma coligação a sério (e não uma simples cooptaçãozinha de pesca à linha) com quem, na esquerda a sério, coloca as opções difíceis mas fundamentais entre austeridade e democracia social, entre Tratado Orçamental e soberania dos portugueses, entre submissão cega a uma dívida ilegítima e cheia de juros usurários e a recuperação de uma vida com um mínimo de dignidade.
Como tentarei demonstrar na minha próxima crónica, a história de 16 anos de governos socialistas mostram que o PS no poder fez quase sempre as escolhas contrárias aos interesses da maioria de quem nele votou, descrevendo-as, contudo, como inevitáveis – para depois, quando passou à oposição, procurar voltar a dar esperança a muitos eleitores. Até à desilusão seguinte.» – Manuel Loff, no Público.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Aulas práticas sobre voto útil: pilhagem





Uma resenha do que tem sido a interpretação do conceito de interesse público pelo arco das privatizações da nossa ruína juntamente com um apelo dirigido  ao mesmo tridente, ao qual os portugueses insistem em não retirar o poder destruidor que vão renovando pelo voto e pela abstenção: chega de subserviência aos mercados!

Gostei de ler: "A alta tensão timótica"



«Um dos efeitos mais conspícuos das redes sociais, que transformaram nos últimos anos o espaço público, é a captação e formação de centros e ondas colectivas de força timótica. Esta palavra vem do grego thymós, que está na base de uma teoria de Platão e designa o “órgão” de onde nascem os impulsos, as excitações, as afecções mais inflamadas. O filósofo alemão Peter Sloterdijk escreveu um “tratado” sobre a situação timótica da nossa época, com o título Cólera e Tempo (tradução portuguesa de Manuel Resende, Relógio d’Água). As questões políticas e os políticos são objectos preferenciais dos impulsos timóticos que atravessam não só as redes sociais mas também o jornalismo político, sobretudo aquele que, sob a forma do comentário e da chamada “análise”, existe em estado de proliferação (mas, atenção, nada disto tem a ver com o que se chama “psicologia das massas”). Assim, a cena política que daqui resulta é aquilo que hoje mais se aproxima do teatro dionisíaco ateniense. O subtítulo do livro de Sloterdijk diz-nos que é um “ensaio político-psicológico”. Trata-se de um sério e extenso contributo para o desenvolvimento de uma psicopolitologia, capaz de uma análise da timótica política, para a qual os nossos encartados politólogos não têm instrumentos. Não foi por falta de um saber psicopolítico que Kral Kraus abriu a sua comédia, A Terceira Noite de Walpurgis, dizendo que “sobre Hitler não me vem nada à cabeça”. Mas é seguramente por ignorância nos domínios da análise psicopolítica que ainda nenhum analista proferiu a sentença: “Sobre José Sócrates não me vem nada à cabeça”. A questão de fundo, que consiste em perceber como funcionam as reacções timóticas que em certos momentos se apoderam de todo o espaço público, através das redes sociais, dos jornais, da televisão e da rádio, precisa no entanto de mais um esforço. Os media parece que gostam do cidadão indignado, mas impotente. Eles são um órgão da memória pública, mas com uma especial preferência pela má memória, aquela que produz o homem do ressentimento. Um olhar analítico sobre a psicopolítica que nos rodeia, ainda que munido de um parco saber nesta matéria, verificará que, graças ao estado permanente de alta tensão timótica, instaurado pelos meios destinados a garantir o sucesso dos indivíduos carregados de thymós, vivemos numa espécie de guerra civil sem fim. Colocar a questão desta maneira não é apelar a consensos e a um abaixamento do teor crítico, na medida em que a inflação timótica não tem qualquer dimensão crítica e, parecendo ser um factor de mobilização, acaba por produzir a indiferença. Ora, se considerarmos, deste ponto de vista, o ambiente político, se escutarmos a gritaria histérica ou, pelo menos, a tagarelice dos seus corpos indignados ou dados ao niilismo retórico, percebemos que a situação não tem saída. Porque os meios e a estrutura do espaço público promovem o triunfo da má memória que não engendra futuro, produzem uma história paralisante, satisfazem-se numa eterna ruminação. Basta ver como os políticos estão agarrados a esta lógica, no modo como encontram sempre no passado dos adversários um álibi. E, assim, é o passado que regressa sempre, como matéria do ressentimento ou legitimação do crime. Muitas vezes, apetece reclamar que se faça tábua rasa, que venha um esquecimento libertador que permita começar tudo de novo. Por exemplo: que nos seja concedida a felicidade suprema de uma profunda amnésia apagar o nome de José Sócrates da cabeça dos seus amigos e dos seus inimigos e passar a residir apenas nos arquivos.» – António Guerreiro, no Público.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Músicos


O Governo ataca, os sindicatos respondem com uma greve de um dia, os trabalhadores perdem um dia de salário e, no dia seguinte, quando a barulheira deixa de ouvir-se, consuma-se mais uma perda. Tem sido assim o sempre a perder de todos os que vivem do seu trabalho, tem sido assim o sempre a levar a melhor dos sucessivos Governos. E os sindicatos, que ou não aprendem ou não querem aprender, dão sinais inequívocos de que aceitaram participar como elemento decorativo numa engrenagem que não deixa nada intacto à sua passagem. Os trabalhadores da Segurança Social estão hoje em greve em resposta ao despedimento chamado “requalificação” de quase 700 trabalhadores. Os sindicatos, que voltam a esforçar-se por fazer o maior chinfrim, dizem que vão avançar com acções na Justiça, junto da Assembleia da República e da PGR. Sim, sim. Há muito que o Governo anunciou a sua intenção de despedir entre 12 e 14 mil trabalhadores. Os sindicatos ignoraram o aviso, apenas respondem agora e somente relativamente à primeira parcela de 5% do total a despedir, ou seja, continuam a colaborar com o Governo ignorando os restantes 95% que, tais como os primeiros 5, 300 hoje e 800 amanhã, ficarão muito surpreendidos quando receberem a notificação de que foram sorteados para esse limbo de miséria chamado requalificação e, na ausência  de um fundo de greve que permita respostas prolongadas que forcem o Governo a recuar, cada uma das parcelas terá garantido o seu diazito de greve e o estardalhaçozito do costume. Estes sindicatos não servem para rigorosamente nada.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Filantropias



José Sócrates, com 2 mil euros,  e Carlos Santos Silva, com 10 mil a conselho do primeiro, ambos detidos no âmbito da Operação Marquês, fizeram donativos à campanha de António Costa para as primárias do PS, revela a "Visão". Vá, não fiquem já a pensar coisas feias. Foram só 12 mil euros e nem tudo o que parece é. Vejam o que diz o catedrático de Coimbra João Calvão Silva,  especialista em direito bancário, no parecer que escreveu sobre Ricardo Salgado para que este o entregasse ao Banco de Portugal para obter o reconhecimento da idoneidade perdida: "a oferta de 14 milhões de euros do empresário José Guilherme a Ricardo Salgado justifica-se com o “bom princípio geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade –, com espírito de entreajuda e solidariedade", lê-se no I. Estão a ver que bonito? É reconfortante poder fortalecer a firme convicção de que a nossa comunidade respira aquela saúde que apenas emana dos mais nobres valores e princípios. A generosidade desinteressada é um deles, quem sabe o mais mais dos mais mais.

Dia de falar nisto


Hoje assinala-se o dia internacional das pessoas com deficiência. Assinala-se apenas, nada de comemorações. No Parlamento discute-se uma alegada reforma do IRS. Fala-se em reviravolta, que o Governo voltou atrás. Vamos todos pagar mais. Os deficientes também. Para quem não saiba, o agravamento da tributação dos rendimentos do trabalho das pessoas com deficiência começou antes daquele assalto  que afectou todos os demais, incluindo os próprios. A reviravolta no IRS dos portadores de deficiências deu-se em 2007, ironia socrática, o ano internacional da igualdade para todos. Os deficientes ficaram mais iguais a todos os não deficientes em sede fiscal.

Até 2007, procurou compensar-se esta população – são menos de 40 mil pessoas – pelas despesas que quem não é deficiente não tem que enfrentar, como sejam a alimentação do cão-guia do cego e o automóvel que o deficiente motor tem que adquirir porque os transportes públicos não estão adaptados para si, e pelas barreiras que uma sociedade que os discrimina lhes coloca na progressãonas suas carreiras  profissionais isentando os seus rendimentos do trabalho em sede de IRS até ao montante de um pouco mais de 13 mil euros. Desde então, essa isenção tem vindo progressivamente a ser reduzida e hoje não chega aos 2000 euros. Os deficientes que trabalham, e o desemprego afecta mais de 3 em cada 4 deficientes, não estão isentos sequer da taxa extraordinária de 3,5%. Os que não trabalham recebem uma pensão de miséria que ronda os 200 euros. Menos de um segundo de juros  dos que pagamos à troika.

 Contudo, a maior dificuldade que estes cidadãos enfrentam nada tem a ver com números. A maior das maiores, aquela que faz nascer muitas outras, é o constrangimento que este tema suscita a uma sociedade que se diz solidária mas que o ignora e se envergonha de dele falar abertamente. Será também o seu caso, caro leitor activista das redes sociais, que se sente incomodado quando esta realidade bate à porta da sua consciência mas privilegia causas mais em voga ou vídeos com gatinhos nas suas partilhas?