sexta-feira, 22 de maio de 2015

Leitinho para pobrezinhos


Vamos brincar à caridadezinha? Já andamos a brincar à caridadezinha, a deixar que o que hoje muitos apenas conseguem obter a título de esmola vá substituindo o que antes era garantido como direito. E deixar substituir um Estado social que nunca foi grande coisa mas já foi bastante mais forte do que é hoje por uma rede de instituições de caridade que vai crescendo como cogumelos à sombra do Estado não é lá muito boa ideia, como atesta mais este exemplo: a mãe de uma bebé de seis meses queixa-se de ter sido “banida” do grupo de beneficiários da ajuda alimentar prestada por voluntários do Rotary E-Club de Sesimbra, no Casal do Sapo, depois de tornar público o seu descontentamento por lhe ter sido dado leite, para a criança, “fora de prazo” e em “más condições”. Os generosos beneméritos respondem acusando a sua pobrezinha de má fé e de ingratidão. A ingrata decerto que dali não leva nem mais meio quilo de carapau podre. E não há nada nem ninguém que possa obrigá-los a dar o que quer que seja. O assistencialismo é assim. Quem necessita humilha-se e estende a mão. E dá quem quer, o que quer, quando quer e a quem quer.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Quem quer ser milionário?



Mais precariedade, menores salários, menor receita fiscal, menores descontos para a Segurança Social, menor consumo, menos emprego, produto a encolher. Os dados são de hoje e tornam bastante visível a relação causal entre os desequilíbrios nas relações laborais que foram sendo progressivamente introduzidos pelos sucessivos Governos que tivemos, a estagnação económica que marcou todo o período e a degradação progressiva das nossas contas públicas: mais de metade dos empregos criados nos últimos 18 anos são a tempo parcial, contratos a termo ou trabalho independente, conclui um estudo que analisa as desigualdades nos países da OCDE e em várias economias emergentes. O estudo hoje apresentado pela OCDE complementa a informação constatando que os trabalhadores pouco qualificados com contratos temporários, em particular, têm rendimentos muito mais baixos e mais instáveis que os trabalhadores permanentes, confirma o aumento record das desigualdades em quase todo o mundo e coloca Portugal na parte desse mundo onde – transferência/concentração de riqueza – o empobrecimento dos que menos têm corresponde ao aumento da fortuna dos mais ricos. A OCDE identifica neste aumento das desigualdades um entrave ao crescimento económico que há que combater. Não nos dá novidade nenhuma. Juntos, um Belmiro com um milhão de euros e mil portugueses com dez euros não compram mil pares de calças, mas um Belmiro com meio milhão e mil portugueses com 500 euros deixam a loja vazia. Não é esta a opinião dos senhores da Europa, do seu arco das "reformas estruturais" e ainda menos o é a dos próprios Belmiros. E até aqui chegámos. Quem quer ser milionário? Isto ainda mal começou.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Crime organizado (continuação da continuação)


Como sabemos, quando um ladrão assalta uma casa e é apanhado, não lhe basta devolver o que roubou para seguir o curso da vida em liberdade. É julgado e a seguir vai para um lugar comummente chamado cadeia que serve para reabilitá-lo , para garantir à sociedade que não prosseguirá a sua actividade criminosa e para evitar que outros se convençam a seguir a mesma vocação. Vai muito bem, portanto. Já quando o crime é financeiro e os ladrões apanhados a meter a mão na massa se chamam JP Morgan, Citigroup, Barclays, Royal Bank of Scotland e UBS, nem mesmo quando o produto do roubo ascende a vários milhares de milhão , como voltou a acontecer, e nem mesmo havendo reincidência, e esta foi pelo menos a terceira vez que foram apanhados a roubar com "manipulações de mercado", há lugar a julgamento e muito menos se fala em prisão. O produto do roubo é calculado por estimativa, é-lhes aplicada uma multa nesse valor, multa essa impossível de utilizar para ressarcir todos os directamente lesados, que os indirectamente lesados e os danos colaterais nem sequer são calculados para não tornar a multa impagável. A seguir semeiam títulos nos jornais de todo o mundo a dizerem "maior multa de todos os tempos" ou qualquer coisa que convença quem leia que a Justiça funciona e que o Mercado é coisa séria. E é tudo. Ide em paz e os milhões vos acompanhem. A malta encontra-se por aí outra vez daqui a uns tempos. Beijos e abraços, obrigado por este bocadinho tão agradável.


Vagamente relacionado: O Banco de Portugal (BdP) assinou um contrato por ajuste directo com a TC Capital, uma empresa unipessoal com sede em Londres, que irá prestar assessoria na venda do Novo Banco. O contrato, no valor de 800 mil euros – a lei fixa como limite para o ajuste directo 75 mil euros, o contrato é ilegal, o regulador viola a lei e nada acontece –, foi assinado em Abril deste ano mas, noticia a TSF, o trabalho de assessoria começou em Outubro do ano passado e durará 10 meses. Segundo a TSF, a TC Capital pertence a Phillipe Sacerdot, antigo director-adjunto para a área da banca de investimento no UBS, onde se terá cruzado com António Varela, antigo representante do UBS em Portugal (entre 2000 e 2009) e que é vice-governador do BdP desde Setembro do ano passado.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Série "novilíngua da austeridade": ser "credível"


FMI exige mais reduções salariais. FMI quer despedimentos ainda mais flexibilizados. FMI diz para reduzir ainda mais as pensões de reforma e para voltar a aumentar a idade mínima para ter direito à mesma. FMI quer despedimentos no Estado. FMI diz que ainda temos professores a mais. O FMI insiste e a economia tem sido peremptória na forma como tem reagido à implementação das suas receitas ao longo da última década. Sim, já lá vão mais de dez anos, estes últimos quatro recordamo-los melhor quer pela intensificação da dose, quer pela marca troika que lhe está associada. Mas já lá vão muito mais do que quatro. E foi sempre a perder.
Ainda assim, continua a haver quem acredite – ou diga que acredita – que este é "o" caminho.
Outros que este é "o" caminho mas que falta dar-lhe uns pequenos retoques, alegadamente suavizadores, capazes, simultaneamente, de convencer a economia a crescer e de continuar a agradar àqueles que vão regando a nossa agonia enquanto povo e enquanto país com milhares de milhão que se distribuem cada vez mais assimetricamente entre a minoria que enriquece com a receita e a esmagadora maioria que empobrece para os enriquecer.
Outros ainda, em muito menor número e alvo de toda a espécie de desconfianças apesar de sempre terem alertado para o desastre económico e social que tais políticas desencadeariam, defendem que apenas conseguiremos, já não seria nada mau, voltar a ser o que já fomos invertendo o sinal destas políticas, renegociando a dívida, auditando-a, eventualmente saindo do euro e definitivamente redistribuindo melhor o rendimento, combatendo as desigualdades, aumentando o investimento público e pondo a economia ao serviço das pessoas.
Mas a grande maioria ou não quer saber ou desconfia. Dedico estas linhas a estes últimos. A desconfiança é uma praga que se propaga por contágio. Uma das teses que mais leio e ouço é a de que a esquerda até tem umas propostas interessantes, pena é que não sejam "credíveis". O conceito merece reflexão. Se a esquerda propõe o inverso do que está a ser feito e o que está a ser feito tem provocado uma autêntica calamidade, a credibilidade está aqui, na própria calamidade.

Por que raio, então, é que a calamidade é credível e as propostas para a combater, pelo contrário, não o são? Onde está a credibilidade da austeridade? Não dou novidade nenhuma se disser que a austeridade conta com um exército de Marcelos, outro de Medinas Carreiras e ainda outro de Galambas – havia para aí um Costa, mas retirou-se entretanto – que todos os dias trabalham para credibilizá-la. E que, apesar do que defendem nos tempos de antena que lhes são oferecidos para o fazerem  ser a calamidade que todos conhecemos, os públicos respectivos continuam a confiar, a ouvi-los religiosamente e a fazer a média aritmética da credibilidade à prova de realidade que vai saindo da boca   de cada um dos seus comentadores de eleição para saberem o que dizer à mesa do café onde mostram que são cidadãos informados. Afinal, é a sua credibilidade que fica em causa se se saírem com ideias menos "credíveis". Fazer um figuraço. Ser consensual. Dizer o que o público respectivo gosta de ouvir. Ser "credível".

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Estragaram a tua festa, pá


Gostava de poder ter passado esta Segunda-feira sossegado a comemorar a vitória do meu Benfica e a desassossegar “andrades” com provocações mete-nojo. Umas vezes dizem-se, outras vezes ouvem-se. E eu rio-me sempre delas, fazem parte da piada da coisa. O que definitivamente não faz e lhe retira qualquer graça é a violência, sobretudo quando é feita por profissionais que usam uma farda e recebem um salário pago por todos nós para a controlarem. Ontem, primeiro em Guimarães, sem nada que o justificasse, um oficial da polícia agrediu um pai em frente a um filho que a seguir assistiu ao espancamento do avô. Mais tarde, em Lisboa, já o vídeo da cena era partilhado à velocidade da luz nas redes sociais, a pretexto dos petardos e das garrafas atiradas por um grupo de imbecis à polícia, esta varreu à bastonada as dezenas de milhar que pacificamente faziam a festa no Marquês. Em vez de desassossegar, fiquei desassossegado. Com toda a sede de violência patenteada por aqueles a quem a nossa sociedade confia poder para desempenharem a missão de combater a violência. Com aquela inconsciência instintiva incapaz de se conter diante da possibilidade de poder semear mortes por atropelamento debaixo da multidão que a sua fúria pôs em fuga. Ao saber que um oficial da polícia é capaz do abuso triplo de agredir sem motivo algum, a seguir forjar um relatório mentiroso e a seguir prender a sua vítima. Sobretudo desassossega-me verificar como às vezes, como ontem, as pessoas reagem aos abusos da polícia e noutras, como nos recentes casos da Cova da Moura e de Santa Filomena, na Amadora, em tudo idênticos ao de ontem em Guimarães mas a uma escala incomparavelmente maior, as mesmas pessoas assobiam para o lado como se não tivesse acontecido nada. Uma polícia que recebe silêncios cúmplices quando bate em negros ou quando bate em pobres rapidamente se embriaga com a autoridade que também não tem para bater num pai de família aflito para abandonar um estádio de futebol em segurança com os seus filhos ou para esvaziar uma praça em festa à cacetada. Já devíamos saber que da mesma forma que uma sociedade que se demite de reagir diante do roubo consoante o ladrão veste laranja ou veste rosa se arrisca a ver o roubo generalizar-se porque o problema deixa de ser o roubo e passa a ser o ser-se apanhado a roubar, uma sociedade que não quer saber quando o abuso policial não afecta os seus mais próximos arrisca-se a assistir ao abuso que andou a alimentar num qualquer vídeo de uma estação de televisão. Sei que não se aprende a ser gente de um ano para o outro mas, se for para fazê-lo como as pessoas, podem contar comigo para os festejos do tri em 2016. Carrega Benfica, que daqui a um par de dias já ninguém fala em nada disto.

Vagamente relacionado: "(...) Estas coisas acontecem. E acontecem em todos os países. O que diferencia um país civilizado de uma selva é o que acontece depois. Que haja um polícia violento que não consegue manter a cabeça fria, acontece. Que ele se mantenha ao serviço (e num posto de chefia) quando se sabe que age dessa forma, é intolerável. Os episódios de violência policial são inúmeros em Portugal e é evidente que as polícias, a Inspecção-Geral da Administração Interna e o Ministério da Administração Interna não levam o fenómeno a sério, limitando-se a esperar que os casos sejam esquecidos. Percebe-se. Os agredidos e os abusados são em geral pobres ou remediados, contestatários (vejam-se as agressões durante manifestações) ou escuros (veja-se o recente e chocante caso da Cova da Moura). E convém a certas forças políticas que os portugueses tenham medo de sair à rua, de protestar, de defender os seus direitos, que se habituem a excessos por parte das autoridades, que se habituem a que as autoridades nunca sejam escrutinadas e sancionadas. O homem agredido no domingo não é, infelizmente, primo da ministra Anabela Rodrigues. Mas, num país democrático, a polícia não pode estar ao serviço das agendas políticas deste ou daquele grupo ou das preferências de classe dos governantes. Permitir este tipo de abusos significa incentivá-los. Corresponde a dizer às polícias que este é o tipo de atitude que se espera delas. E, se isto é o que faz um comandante da PSP em público e perante câmaras de televisão, o que se passará atrás das paredes das esquadras e das prisões?" [José Vítor Malheiros]

Gostei de ler: "A quem pertencem os “anéis”?"


«A privatização da TAP está a suscitar no país uma polémica sem precedentes. A decisão de privatizar ou não a TAP deveria ser tomada pelo próximo governo uma vez que o actual se encontra em fim de mandato. Porém, o governo quer rapidamente privatizar a maior exportadora portuguesa, crucial para a indústria do turismo e de grande relevância e valor para a economia nacional, para as comunidades portuguesas e países da lusofonia. Querer tomar uma decisão de tamanha importância num período de tempo tão curto atenta contra o interesse nacional.

Com efeito, não parece possível que, tendo recebido ontem, 15 de Maio, as propostas de compra que oficialmente desconhece, possa, até 20 de Junho de 2015 (fim do mandato eleitoral de 4 anos do actual governo), tomar uma decisão que se fundamente na análise e negociação rigorosa das propostas dos potenciais compradores e acautele o interesse nacional. Após 20 de Junho, não tem qualquer legitimidade política para tomar essa decisão. Os eleitores elegeram o governo por quatro anos, não mais que isso. Privatizar à pressa e mal, é o pior presente de aniversário para a TAP que acabou de celebrar 70 anos e que merecia, pelo desempenho que tem tido e pelo seu contributo para o desenvolvimento do país, um melhor tratamento!

Nos últimos quatro anos, as “privatizações” têm sido feitas a um ritmo vertiginoso. Alguns exemplos: o governo, em 26 minutos, decidiu a venda da posição do Estado (via CGD) na Cimpor a um grupo brasileiro, sem discutir preço, à revelia do Conselho de Administração da CGD e assistiu de forma passiva ao seu posterior desmembramento; uma das primeiras medidas do governo recém-empossado foi desfazer-se, sem condições, das Golden Shares na Portugal Telecom (PT), EDP e Galp, por convicção; promoveu a “nacionalização” parcial da EDP e da REN pelas empresas estatais chinesas China Three Gorges e State Grid, respectivamente; instrui a CGD para vender as posições, na minha opinião estratégicas, de 10% que a CGD detinha na PT  e de 100% da Caixa Seguros; não tomou qualquer posição quando a PT fez um negócio “de fusão” com contornos muito estranhos com a Oi, apesar de deter via Novo Banco e do Fundo da Segurança Social mais de 10% da PT . Essa “fusão” entre a Oi e a PT foi catastrófica para os accionistas da PT e para o interesse do país; vendeu a ANA que, entretanto, já aumentou preços numerosas vezes; expurgou o “lixo tóxico” do BPN e injectou 600 milhões de euros na parte boa do BPN para, logo de seguida, vendê-lo ao BIC por 40 milhões de euros[1] (entretanto, as cláusulas do contrato de venda já resultaram em pagamentos ao BIC, pelo que o preço líquido deverá ter sido negativo, ou seja o BIC comprou a parte boa do BPN e ainda recebeu dinheiro do Estado).

Acordou com a troika privatizações de 5,5 mil milhões de euros. Realizou 8 mil milhões de euros de privatizações que, em teoria serviriam para abater e reduzir a dívida pública e, mesmo assim, a dívida pública não parou de aumentar atingindo níveis record.

Por outro lado: paga empréstimos antes do tempo, registando enormes menos valias; tem os “cofres cheios”, gastando cerca de 500 milhões de euros por ano em 2015 para o fazer; aumenta impostos, corta salários, pensões e apoios sociais; e despede funcionários públicos.

Prepara-se, ainda, até ao verão, para “privatizar” um banco privado com injecções maciças de dinheiros públicos, procurando formas de aumentar (de novo, com dinheiros públicos) a valorização do Novo Banco, para que se possa argumentar que a “venda” foi um sucesso e evitar que a restante banca privada se recuse a assumir as perdas do fundo de resolução.

Parece que o que interessa é vender seja por que preço for, ou até pagar para vender.

Esquece-se que os “anéis” pertencem aos portugueses e não a este ou a qualquer outro governo?» – Ricardo Cabral, no TME.

domingo, 17 de maio de 2015

Campeões (#34): o bi.


O meu Benfica só me dá alegrias.

Gostei de ler: "Celebremos a vida"



«O elogio do sofrimento evoca memórias sinistras na história da Europa e do nosso país. Psicólogos e psiquiatras observam que, em regra, esse elogio surge associado a estados muito doentios, a uma "pulsão de morte".

Passos, Portas e C.ª vão celebrar este fim de semana o "êxito" das suas políticas de aplicação do memorando, assinado com a troika há quatro anos, e "festejar a saída" daquela entidade como se o seu espírito demoníaco não estivesse bem presente e a marcar pontos.

Portugal viveu quatro anos de desajustamentos e a esmagadora maioria da população foi sujeita a sofrimentos inúteis. As fragilidades detetadas na economia, na sociedade e na organização e funcionamento da sua vida coletiva não foram resolvidos; no geral agravaram-se. A continuação das políticas de austeridade, que o Governo e as instâncias europeias nos encomendam, visam subjugar-nos à inevitabilidade do sofrimento como destino, para com ele expiarmos as culpas de sermos povo do sul da Europa e de termos aspirado a um futuro melhor. Para os donos do clube do euro, se aí quisermos estar terá de ser na condição de membros de segunda; se quisermos sair esperam-nos todos os castigos do deus-mercado.

Uma séria avaliação das políticas do memorando evidencia que os seus resultados foram desastrosos face aos objetivos enunciados e que em áreas onde os objetivos não estavam identificados os desastres foram ainda maiores, provocando efeitos recessivos atrofiadores do futuro. Entretanto, temos "cidadãos gold" e o empreendedorismo tipo Dias Loureiro passou de envergonhado a modelo.

Disseram-nos que em 2014: o PIB estaria apenas 0,4% abaixo do nível de 2010, mas o resultado foi uma queda de 5,5%; o emprego só diminuiria 1,1%, mas a descida foi de 7,1% e associou-se-lhe a degradação da sua qualidade e o aumento do desemprego; a dívida, que segundo as previsões da troika e do Governo devia situar-se no final de 2014 em 115% do PIB, atingiu aí os 129%; a estabilização do setor financeiro foi e é uma miragem, de tal forma que em 2014 assistimos à falência de um dos maiores bancos, o BES.

O Governo tem propagandeado um "seguro crescimento económico" nos últimos trimestres, exatamente o mesmo período em que se observa agravamento do desemprego, o que significa estarmos longe de um crescimento gerador de mais emprego. Sobre a consolidação orçamental, de que Passos e C.ª se vangloriam, a Comissão Europeia veio dizer, na última semana, que nada está seguro e que mais austeridade é precisa.

No plano das consequências sociais e políticas, escamoteadas no fundamental pelo memorando, surgem agora bem claros os prejuízos: a isto, hipocritamente, Passos Coelho chama "modernização" da sociedade portuguesa. Aumentaram a pobreza e as desigualdades. Em diversas áreas o Governo e a UE querem transformar programas assistenciais de emergência em programas políticos estruturais, vinculando "definitivamente" os pobres à pobreza, e reduzindo a esta condição centenas de milhares de portugueses que pertenciam a classes médias.

O esvaziamento da contratação coletiva, a redução de pensões de reforma, a desvalorização salarial, as alterações à legislação laboral, a ofensiva contra os direitos do trabalho - depreciativamente catalogados de privilégios - proporcionaram uma enorme transferência de rendimentos do trabalho para o capital e puseram em marcha uma dinâmica de mobilidade laboral e social descendentes. Também a estes retrocessos Passos Coelho chama modernidade.

Num quadro destes, quando acontecer crescimento económico a sério teremos, sem dúvida, mais riqueza mas para uma nova forma de distribuição, em que os detentores do capital receberão [já recebem] uma fatia bem mais gorda do que recebiam em 2010.

A celebração da vida de que precisamos não é a da submissão a estas injustiças e ao escuro das "inevitabilidades" que as sustentam. Tal como a natureza se transforma e renasce a cada ano, também nós portugueses seremos capazes de uma transformação libertadora, gerando esperança e energias que nos levem a correr os riscos necessários para garantir trabalho digno, direitos sociais fundamentais e uma sociedade democrática.» – Manuel Carvalho da Silva, no JN.

sábado, 16 de maio de 2015

Chegou a hora dos povos entrarem na luta


«Desde o momento da formação do governo, ficou claro – tanto no estrangeiro como no nosso país – que o mandato dado pelo povo grego é vinculativo e constitui a bússola nas negociações.

As linhas vermelhas do governo são também as linhas vermelhas do povo grego, elas exprimem os interesses dos trabalhadores, dos trabalhadores independentes, dos reformados, dos agricultores e da juventude. Elas exprimem a necessidade para o país seguir um novo caminho de crescimento, tendo como eixo a justiça social e a redistribuição das riquezas.

A insistência dos credores em querer aplicar o programa memorandário do governo Samaras, criando no país um espartilho sufocante de pressões políticas e asfixia financeira, surge em oposição directa com a noção de democracia e de soberania popular na Europa. Ela exprime uma ligação obsessiva à austeridade que desmantela o Estado social, à direcção oligárquica dos assuntos europeus em circuito fechado e longe da influência da vontade social, o que abre caminho ao crescimento da extrema direita na Europa.

Estas exigências são inaceitáveis. Elas são inaceitáveis para o povo grego, que lutou todos estes anos para pôr fim às políticas criminosas dos memorandos. Elas são inaceitáveis para os povos da Europa e as forças progressistas sociais e políticas que lutam por uma Europa da solidariedade e da democracia.

Os cidadãos da Grécia e da Europa não são consumidores passivos das notícias das 20h. Pelo contrário, entendemos que podem ser também parte activa numa negociação que diz respeito ao nosso destino comum à escala europeia e mundial.

O Syriza tomará todas as iniciativas possíveis para informar a sociedade grega mas também os povos da Europa. Em cada cidade, em cada bairro e em cada local de trabalho, mas também em todos os países da Europa, estarão os deputados, eurodeputados e dirigentes do Syriza, com os membros do Syriza e as forças solidárias, num grande apelo à mobilização pela vitória da democracia e da dignidade.

Chegou a hora dos povos entrarem na luta.

Venceremos."

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Gostei de ler: "Fábula política para principiantes"

"Padrinho Marcelo, tu és um excelente comentador político." "Afilhado Daniel, e tu és um grande escritor." "Felicidades  na corrida a Belém, padrinho". "Obrigado, afilhado. E boas vendas."


Numa sociedade ideal, cujas leis fossem a delicadeza, a cortesia e a afabilidade, num mundo sem constrangimentos nem fricções que fosse a combinação de todas as possibilidades compatíveis, de tal modo que o resultado fosse a bondade máxima, nesse mundo descrito por Leibniz, na sua Monadologia, como o melhor dos mundos possíveis, Daniel Oliveira reuniria as suas crónicas num volume intitulado A Década dos Psicopatas e teria Marcelo Rebelo de Sousa a fazer a apresentação do livro. Nos convites e nos comunicados à imprensa haveria de ler-se: “Deus calcula e o mundo faz-se”. Mas essa luz fina que emana do sistema leibniziano, onde tudo concorre para uma ordem hierarquizada e harmoniosa, não penetra onde há política, nem sequer ilumina os doces costumes da democracia. Ainda assim, sem ser preciso supor a existência desse mundo — onde tudo se faz e se desfaz por correspondências, harmonias e concordâncias — vamos ter na mesma Marcelo Rebelo de Sousa a apresentar os Psicopatas de Daniel Oliveira. Sob tais condições, o acontecimento não é propriamente uma mónada, um mundo fechado sem portas nem janelas, mas uma escancarada fábula política do nosso tempo. Ou melhor, uma parábola, como é — por exemplo e para regozijo de quem gosta de fábulas para metafísicos — O Silêncio das Sereias, de Kafka.


Não é que a convocatória feita a Marcelo Rebelo de Sousa, para o lançamento do livro, seja obrigatoriamente um sinal de partilha, com o autor, de opiniões e escolhas políticas. Devemos, aliás, presumir o contrário. Mas há, logo à partida, um dado com base no qual se institui um consenso fundamental: ambos aceitam entrar no jogo de encenações e papéis completamente estereotipados que empesta todo o debate político e desencoraja a simples ideia de entrar nele.


A questão é esta: Marcelo Rebelo de Sousa representa, ao mais alto nível, um discurso que quer passar por análise ou comentário políticos, mas de onde a política foi completamente evacuada. Ele assimilou completamente a política quer à luta pelo poder, quer ao exercício e ao objecto desse poder. Para ele, toda a política é uma questão de tácticas e estratégias, de fintas e simulações. E ganha o que for mais cretino. É desta matéria que são feitas as suas prelecções, enquanto animador do crochet televisivo. E, nesse posto, ele é “ o professor”, isto é, aquele que ocupa o lugar da verdade e detém o saber do expert.


Esta ideia de uma inteligência que sabe da coisa política e se dirige às pessoas que não sabem, e que por isso lhe fazem perguntas para obter a resposta oracular, é uma negação da política. Na melhor das hipóteses, aquilo de que Marcelo Rebelo de Sousa fala pertence à ordem da polícia (ele próprio transformou-se num cartoon de polícia sinaleiro) e não à ordem da política, para nos referirmos a uma oposição já clássica. Esta noção de polícia deve ser entendida não no sentido da repressão, mas da lógica puramente gestionária que ordena a sociedade por funções, lugares e títulos a ocupar. Ora, um cartoon pode chegar até a Presidente da República (não seria, aliás, o primeiro), mas não serve para iniciar qualquer conversa ou diálogo que tenha como tarefa repolitizar o espaço político.


Em relação ao que Marcelo Rebelo de Sousa diz e opina não importa discordar, estar mais à direita ou mais à esquerda, ou convidá-lo para o espectáculo pluralista do conflito das opiniões. É de outra coisa que se trata, se a tarefa é também a de impedir a cretinização comunicativa e opinativa. Essa coisa chama-se “diferendo” e significa um desentendimento de base.» – António Guerreiro, no Público.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Portugal for sale: uma colónia do mundo


Demoraram os sacrifícios de várias gerações a construir. Já foram não apenas os maiores, também os melhores empregadores do país. Até que foram privatizadas, apesar de operarem em mercados que correspondem  a monopólios naturais onde a ausência de concorrência produz rendas garantidas e não lucros, uma confusão conveniente para transformar a intolerância ao parasitismo em aplausos a uma eficiência alegadamente de mercado feita de reciprocidades com dois mais um partidos  que se revezam no poder, de tarifários que figuram no top de todos os rankings europeus, de precariedade laboral e de salários de fome. As maiores empresas do nosso PSI-20 vive dessa “eficiência”. Há dias, destaquei aqui o destino dado por este parasitismo aos muitos milhões que resultaram da redução da tributação em IRC que o seu braço político lhe ofereceu com o argumento de que tal generosidade iria fazer aumentar o investimento e o emprego. Em vez de investimento e de emprego, o parasitismo teve mais dinheiro para distribuir em dividendos, que aumentaram quase 10% em ano de redução de lucros. Há quem defenda que primeiro há concentração de riqueza e que só depois é que aparece o tal investimento que cria emprego. Mas hoje soubemos que um em cada 3 euros daquela riqueza que deixou de ser redistribuída via impostos para ser distribuída em dividendos é “exportada” da colónia Portugal para metrópoles como a China, os Estados Unidos e Angola. A riqueza foge para longe. E há mais metrópoles na fila. O Grupo Barraqueiro, participada da multinacional Arriva, detida a 100% pela alemã Deutsche Bahn, prepara o assalto à Metro de Lisboa – no do Porto também já lá estão – e à Carris. E o Governo já assumiu que quer vender a TAP pelo preço que seja a quem seja em nome do interesse nacional. Falta privatizar a água e pouco mais. Depois não há mais luvas para ninguém. Pelo menos no que toca a vendas. Um dia haveremos de saber quem e quanto enriqueceu à pressa na pressa de tantos negócios. Mas já será tarde. Já é. Quer dizer... Os partidos que venderam Portugal ao desbarato somam e seguem destacados na liderança das intenções de voto dos portugueses. Uma paz social quase absoluta reina nesta colónia do mundo.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Da série "coisas que não alteram sondagens"



Francisco Banha diz que tem uma missão: fazer a “evangelização do empreendedorismo”. Pedro Passos Coelho recordou-o, numa entrevista ao PÚBLICO, em 2012, como alguém “com muita experiência nas relações com o Estado”. Foi por isso, aliás, que foi contratado, por sugestão do seu amigo e parceiro na gestão da Tecnoforma, Francisco Nogueira Leite, para fazer “em outsourcing” a “gestão financeira da empresa”. Isto foi em 2006 e 2007. Hoje, Pedro Passos Coelho é primeiro-ministro, Francisco Nogueira Leite foi nomeado pela ministra das Finanças para chefiar a parte do BPN que ficou sob alçada do Estado (a parte má, das dívidas de cobrança difícil). E Francisco Banha, através da sua empresa de contabilidade e consultoria, voltou a ser contratado, sem concurso, facto que é capaz de pôr a impoluta claque rosa em polvorosa, eles nunca fizeram nada do género, mas que em bom rigor apenas confirma o que atrás se lê, que o nosso empreendedor do dia é mesmo um especialista em relações com o Estado. Abstencionistas: venham de lá esses “é uma vergonha”.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Da longa série "era uma vez o Estado social"



A ADSE e a Segurança Social têm pelo menos dois denominadores comuns. O primeiro tem que ver com o financiamento e com a sustentabilidade de ambos os sistemas, desenhados com entidades patronais e trabalhadores a contribuírem com uma percentagem fixa do seu vencimento, isto é, com quem desconta montantes maiores a compensar o que não descontam aqueles que auferem rendimentos menores.


O segundo tem que ver com os traços comuns das engenharias do desmantelamento do nosso edifício social que trabalham para os fazer implodir, já bastante visíveis na ADSE num momento em que os partidos do centrão também se vão pondo de acordo quer quanto a reduções nas contribuições para a Segurança Social, quer num “plafonamento” que deixará fugir do equilíbrio do sistema para o lucro dos privados os descontos hoje ainda obrigatórios daqueles que mais contribuem para a sua sustentabilidade.


A ADSE já o fez e as consequências já vão aparecendo.


Numa primeira fase, em 2011, quando os descontos estavam fixados em 1,5% do vencimento, os trabalhadores passaram a poder abandonar o sistema e procurar um seguro de saúde privado mais vantajoso para si. Para os trabalhadores com níveis remuneratórios de topo começou a compensar abandonar a ADSE. Por 75 euros, 1,5% de um vencimento de 5000 euros brutos, já se encontravam no mercado seguros com coberturas pelo menos equivalentes às que a ADSE oferece.  


Em paralelo, numa segunda fase em que a entidade patronal entretanto deixou de contribuir para o sistema, os descontos obrigatórios foram sendo aumentados progressivamente até aos actuais 3,5% sem quaisquer melhorias adicionais ao nível das contrapartidas em benefícios e comparticipações. O trabalhador que aufira vencimentos brutos na ordem dos 2150 euros desconta hoje os mesmos 75 euros que em 2011 convidavam quem então auferia vencimentos na casa dos 5000 a procurar no mercado um seguro de saúde que oferece mais pelo mesmo valor.


Estamos hoje numa terceira fase, com um superavit da ADSE previsto para 2015 de 331 milhões de euros mas com cada vez mais trabalhadores a abandonarem o sistema. O número de saídas em 2014 foi sete vezes superior ao de 2013.


Vão saindo sobretudo trabalhadores com vencimentos mais elevados mas, em vez de tentar convencer aqueles que mais contribuem a permanecer no sistema alargando benefícios e aumentando coberturas, a nova direcção da ADSE prefere tentar angariar mais beneficiários com salários baixos no universo de trabalhadores do sector público empresarial. É isto que vem no plano de actividades para 2015. Se a intenção for assegurar a solvabilidade futura do sistema, é uma aposta errada. Mas se a ideia for fazê-lo implodir para dinamizar o mercado de seguros de saúde, não poderia haver aposta com retorno mais garantido.


Vagamente relacionado: O Banco de Portugal (BdP) considera que a reforma laboral feita pelo Governo está inacabada e insiste em medidas que facilitem a vida às empresas durante os períodos de crise. No Boletim Económico de Primavera, os técnicos do regulador estimam que 80% dos trabalhadores do sector privado tenham mantido o salário-base inalterado durante a crise. Com maior flexibilidade para reduzir vencimentos, alega o BdP, o desemprego não seria tão elevado. E quanto menores forem os salários, menores os descontos para a Segurança Social , será necessário trabalhar até mais tarde e menores serão as prestações sociais, e menor a receita fiscal em IRS, ou seja, maiores os cortes nos serviços públicos.

Ainda mais vagamente: A Comissão Europeia estima que o período contributivo para aceder a pensão de reforma completa em 2060 subirá cerca de sete anos em Portugal, o segundo maior aumento entre os Estados-membros da União Europeia logo a seguir à Grécia. De acordo com as contas do executivo comunitário, em 2014 o período contributivo médio foi de 29,5 anos em Portugal, o qual deverá aumentar para 31 anos em 2020, 32,4 anos em 2030, 33,1 anos em 2040, 34,6 anos em 2050 e 36,4 anos em 2060.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Gostei de ler: "UM POUCO DE FUTEBOL"


«Falemos um pouco de futebol. Não para desassossegar alguns referentes inquisidores de espíritos prontos a levar aos novos pelourinhos, privados é claro, os leitores de páginas desportivas, onde aliás se aprende, e muito, sobre o mundo cão em que vivemos. Ainda assim, enfrentemos as consequências.

E se vos falo de futebol é para chamar, com todas as letras e sem margem de erro, hipócrita e mentiroso ao senhor Joseph Blatter, presidente talvez vitalício, quem sabe, dessa coisa tão democrática que é a FIFA, a entidade que vê crescer os sete céus dos estádios do mundial do Qatar com base em trabalho escravo e faz que sim com a cabeça.

Não é apenas por isto, o que não seria de somenos, que o senhor Blatter é hipócrita.

O senhor Blatter é hipócrita e mentiroso quando pede à Federação Palestiniana de Futebol que não insista em pedir a suspensão da Federação Israelita de Futebol porque isso, e cito, “é misturar a política com o futebol”.

Tal frase, como certamente sabem até aqueles que não sujam os olhos lendo páginas desportivas, tem servido para dar cobertura a um sem número de atrocidades e arbitrariedades em campos que vão muito para além dos de futebol.

Neste campo a tradição ainda é o que era. Diz o senhor Blatter que a Federação Palestiniana não deve insistir no pedido de suspensão porque a Federação Israelita não pode ser responsabilizada pelos actos do governo de Israel contra os direitos humanos e contra leis desportivas estipuladas, aliás, pela própria FIFA.

Aí é que o senhor Blatter se engana. E como se engana deliberadamente, mente. A Federação Israelita de Futebol tem no seu cardápio de clubes, figurando, por inerência, no supracardápio da FIFA, cinco entidades cujas sedes existem em colonatos israelitas ilegais na Cisjordânia Palestiniana, além disso reservadas apenas a futebolistas judeus. Dois coelhos (salvo seja) de uma só cajadada: a Federação Israelita viola as leis internacionais ao estender a autoridade a estruturas ilegais de ocupação; e pratica segregacionismo étnico/racista. É muito bonita a campanha da FIFA contra o racismo, fica sobretudo bem nos cartazes, desde que daí não saia.

O senhor Blatter sabe igualmente que existem clubes israelitas, como o Beitar de Jerusalém, do qual o adepto mais ilustre é o senhor Benjamin Netanyahu, cujo grito de claques é “morte aos árabes”, claques essas que o vão gritando através da Europa durante as competições onde o Beitar participa, e nas quais não foi nunca penalizado por tais manifestações terroristas. Não pode o clube ser condenado pelos gritos das claques, invocará o hipócrita senhor Blatter. E o que fazer então quando o treinador do citado Beitar assegura que só por cima do seu cadáver – o sentido é figurado, claro – fará alinhar no clube um jogador israelita que tenha origem árabe. Um clube, uma equipa para israelitas puros… O que chamará o senhor Blatter a isto?

Ainda assim, o presidente da FIFA insiste em que futebol e política não deverão misturar-se, enquanto futebolistas palestinianos inscritos na instituição do senhor Blatter jazem nas cadeias israelitas por tempo indeterminado, sem julgamento e culpa formada, onde poderão até ter como carcereiros ilustres atletas das selecções israelitas. Dizem os estatutos da FIFA, que o senhor Blatter conhece muito bem porque os invoca a toda a hora, que as federações nacionais “devem gerir os seus assuntos sem ingerências de terceiros”. Ao que parece, tais estatutos são válidos para todas as federações… Menos uma. Exactamente essa, a Palestiniana, adivinharam. Em Agosto de 2013, numa carta à FIFA, os dirigentes do futebol israelita escreveram, isto é, estipularam, que “a Federação Palestiniana tem a obrigação de funcionar através dos canais oficiais do Estado de Israel”.

Não há margem de erro: o chefe do futebol mundial é hipócrita e mentiroso.» – José Goulão, no Mundo Cão.

Hora do recreio


O princípio é sempre o mesmo, “aquilo que em mim é um direito, em ti é um privilégio”. O truque é tão velho como eficaz, colocar trabalhadores contra trabalhadores, há sempre uma multidão que se deixa tentar. Quem queira aliviar a pressão política sobre um Governo que, apesar de ser liderado por um especialista em evasão contributiva, não tem pejo algum em deixar famílias sem tecto para recuperar uma dívida fiscal de um par de milhares de euros vai com   toda a certeza deliciar-se com este título: “Em dez anos, cobrança coerciva rendeu 635 milhões ao fundo que premeia funcionários do fisco”. Se é o seu caso, caro leitor, tem a caixa de comentários deste post à sua disposição para dar largas à sua criatividade. Faça uma pausa relaxante e escreva não menos do que dez insultos dirigidos aos funcionários do fisco. Tem toda a razão, eles deviam ser maus funcionários, ler o jornal em vez de cumprir com as instruções de trabalho que recebem, fazer por desmerecer o prémio de desempenho a que têm direito e, de caminho, evitar-lhe a chatice de se confrontar com as consequências das últimas quatro ou cinco vezes que ou votou em quem invariavelmente o assalta, ou não votou em quem sempre o defende. Reparou na foto que ilustra este post? Aquele é o pai das cobranças automáticas. Há quem diga que é o melhor ministro deste Governo. Também poderá confirmá-lo na próxima vez que necessite de recorrer ao SNS e tenha que esperar horas na sala de espera ou o deixem a uivar de dor numa das muitas macas que se amontoam nos corredores dos hospitais. Volte a fazer como fez hoje, insulte os médicos, os enfermeiros, o pessoal auxiliar e quem esteja mais à mão. A culpa também é toda deles, não de quem reduziu pessoal, concentrou urgências, deu ordens para encerrar enfermarias e desviou o produto das cobranças coercivas e não coercivas do financiamento da sua Saúde para o pagamento de uma dívida impagável. Saiba agradecer com solidariedade a quem lhe dirija elogios como “melhor povo do mundo”.

domingo, 10 de maio de 2015

Gostei de ler: "Pela democracia"


«Na sexta-feira passada, anteontem, o Fórum da TSF convocava para debate a qualidade da democracia. O Manuel Acácio perguntava aos ouvintes se os partidos estão sintonizados com as preocupações dos cidadãos ou, pelo contrário, se estão fechados sobre si próprios.

Como era de esperar, não faltaram as indignações inflamadas do costume contra os políticos, "esses malandros todos iguais", e os apelos ao "boicote" eleitoral, leia-se abstenção. Só faltou o discurso taxista habitual "o que isto precisava era de um novo Salazar". Confesso que este é o tipo de sermão que me irrita, sobretudo porque quem o profere não faz ideia, na maioria das vezes, do que foi viver em ditadura.

Por norma, e mesmo considerando o exercício pleno da liberdade que comporta o direito de não votar, não gosto de abstencionistas. Sobretudo porque são estes, maioritariamente, que, demitindo-se de participar e fazer escolhas, passam a vida a queixar-se e a dizer mal de tudo.

É evidente que os partidos têm culpas no cartório. Quando sistematicamente, legislatura atrás de legislatura, rasgam as promessas que fazem em nome do voto logo no dia seguinte às eleições, ficam com a parte de leão da responsabilidade pelo facto de mais de 80% dos portugueses estarem descontentes com a política. Mas essa desconfiança, aliada à profunda crise económica e financeira com as consequências que se conhecem, não deve, não pode, ser confundida com a natureza democrática do regime. E esse é o perigo maior que enfrentamos, 41 anos depois do 25 de Abril. Pela enésima vez, socorro-me da frase de Churchill: "A democracia é o pior dos sistemas, à exceção de todos os outros." Como é evidente, esta não se esgota no momento do voto. E hoje, mais do que nunca, temos à disposição instrumentos de participação e intervenção cívica que não podemos deixar de usar. E aquilo que não se pode permitir é que se instale a ideia de que a culpa é apenas "deles". Na verdade, a responsabilidade é nossa, de todos nós.

Veja-se o que aconteceu a 15 de setembro de 2012. Um milhão de pessoas saiu à rua em protesto contra a intenção do governo de transferir para os trabalhadores o pagamento da redução da TSU das empresas. Perante o poder da indignação, Passos Coelho recuou e nunca mais se ouviu falar do assunto. Tivemos naquele momento a prova de que, em democracia, é possível obrigar uma maioria parlamentar a mudar de ideias e a encontrar alternativas. O pior é que, depois dessa data, o país caiu no sono profundo da resignação e, em nome da inevitabilidade impingida, sujeitou-se a tudo.

O que faz falta é acordar. Não há, pelo menos eu não acredito, democracia sem partidos. E se eles se fecham sobre si próprios, se se empenham sobretudo nas lógicas de sobrevivência dos seus aparelhos, cabe-nos a todos nós ser motores da sua mudança. E não vale a pena fazer o discurso calimero de que não adianta ou de que ninguém nos ouve. É falso, como a história já o demonstrou. De uma vez por todas, é bom que nos entendamos: a liberdade, que muito prezo, permite fazer o apelo da abstenção e passar a vida a disparar contra os políticos e os partidos. Mas esse discurso, demissionário das responsabilidades, é, não tenhamos ilusões, a antecâmara das ditaduras.» – Nuno Saraiva, no DN.

sábado, 9 de maio de 2015

De pequeninos se separam os destinos


"Aos seis anos já se aprende nas escolas como ser um empresário de sucesso". O título indignou-me, li-o no Público. As escolas deviam ensinar cidadania, a ser gente, e não o fazem. Identifico nesta falha uma das principais causas do fracasso de uma revolução sem paralelo nas mentalidades que não produziu a ruptura com o padrão de cidadão-modelo obediente e acéfalo que a Escola da ditadura modelava, uma falha que foi uma escolha consciente do tal arco que se queria completamente à vontade para, uma a uma, engolir como vem engolindo as conquistas de Abril. Lendo o artigo percebe-se que já estão na fase seguinte. Quem, "à esquerda",  comandava os destinos do país no ano lectivo de 2005/2006 escancarou as portas da Escola pública que pagamos com os nossos impostos a um exército de pregadores pago por uma organização internacional da qual em Portugal fazem parte, entre outros benfeitores da nossa sociedade, os grupos Mello e Jerónimo Martins, as Fundações EDP, Sonae e PT. Todos eles se puseram de acordo quanto à rentabilidade no longo prazo de um investimento presente na domesticação das gerações que, na quase ausência de resistência dos paizinhos, a doutrina do lucro se vai encarregando de moldar à imagem do individualista socialmente neutro porque completamente desprovido de valores colectivos orientado para a busca de uma felicidade medida pelo valor supremo do dinheiro. É bem visto. Respeito ao dinheiro. O lucro é o lucro e o resto é o resto. Competição em vez de cooperação. Disputa  em vez de solidariedade. A união faz a força. E de pequeninos se separam os destinos. Serão eles capazes de nos rentabilizar as velhices?

Gostei de ler: "Evasão ou o refúgio que nos resta"


«Numa tarde ensolarada dos finais de Março, a caminho de Puebla de Sanabria, município espanhol raiano, província de Zamora, a estrada serpenteava por urzes e giestas tendo como pano de fundo a cordilheira que envolve o Parque Natural de Sanábria, que deve o nome ao enorme lago que ali se abriga. Nos picos mais altos, pedaços de neve a reluzir, estendidos que nem lençóis brancos a corar ao sol. Bonito!

Uma vez em Puebla de Sanabria, vila medieval que ainda conserva um bom pedaço da cintura muralhada que se acompanha descendo uma ruela em escadaria de cujo cimo o olhar se estende sobre a ponte do rio Tera e dá largas à vista sobre o extenso vale. A vila, toda ajaezada de sacadas e varandas floridas, arrima-se à roda do majestoso castelo, lá no alto, aonde convergem as “empinadas calles” do centro histórico. A reter.

O mesmo não se dirá da “apagada e vil tristeza” que vem ensombrando a política caseira. A Europa não anda muito melhor, com o folhetim da Grécia a fazer render os noticiários – acima de tudo, para relatar que ainda não há acordo, ufa… – e o Reino Unido às voltas com os resultados eleitorais num país desigual onde vivem muitos dos ricos mais ricos, numa União Europeia cada vez mais escavada pelas desigualdades. E aqui, em Portugal, onde a pobreza se arrasta pela calada, os velhos estão cada vez mais sós e desamparados e as crianças sofrem, na proporção de um para três, a míngua dos pais, mesmo quando se pode dizer que os têm. Porque a miséria esburaca tudo, as pessoas, as famílias, a vida social. A miséria moral, pior que a material, derruba valores, acicata raivas, alimenta vícios, destrói os indivíduos. E deste cortejo sobram a violência, os maus-tratos, a indignidade humana. Temos visto disto tudo e o mais que se verá. Só a classe – nem toda, registe-se – política não se dá conta, de tão ensarilhada que anda com os números e as estatísticas. O governo e a maioria que o apoia enchem a boca com os indicadores macroeconómicos que atestam um país que o comum dos mortais não enxerga. A oposição desunha-se a contraditar – tantas vezes com imerecido insucesso… O povo já nem os ouve, cansado e acabrunhado, a ruminar abstenções – “é lá com eles” –, perigosamente.

E como se não bastasse, sai-se o primeiro-ministro a dar à estampa uma biografia! Biografia?!! Que feitos tem este recente ex-jota para nos dar a conhecer? Pois então, que é racional, que não é frio, que canta a morna e o fado, que mete a louça na máquina, …, chega! Só pode ser brincadeira.E, pelo visto, de mau gosto, que a história do SMS da demissão “irrevogável” do Portas, o actual vice-primeiro--ministro e líder do partido da recentemente renovada coligação, caiu mal, pudera!, nas hostes centristas. É o que se pode chamar ter sentido de oportunidade e de conveniência! E o país à espera. (...)

Dá vontade de fugir. Sanábria fica mais longe que a distância.» – Maria Helena Magalhães, no I.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Eleições britânicas: avisos à navegação


À hora a que escrevo estas linhas ainda não há resultados definitivos das eleições de ontem no Reino Unido mas já maioria absoluta dos Conservadores. E vários avisos. O primeiro deles tem como destinatários os senhores de Bruxelas: os britânicos identificam vantagens na saída da actual União Europeia. Será questão de tempo. O segundo é uma réplica perfeita do primeiro e vem da Escócia: os escoceses não querem permanecer no Reino Unido. Terceiro aviso, este dirigido a todas as réplicas neoliberais com ou sem aroma de “esquerda” que abundam por essa Europa fora: entre a cópia e o original, os britânicos também rejeitaram a falsificação. Finalmente, o quarto e último aviso desta pequena compilação, talvez o mais importante no que aos portugueses diz respeito, dirige-se quer aos eleitorados da cópia e do original que temos por cá para consumo doméstico, quer à maioria de abstencionistas que lhes oferece o monopólio das escolhas colectivas em bandeja de prata. Tem que ver com o sistema eleitoral de círculos uninominais que PSD e PS planeiam importar do Reino Unido para acentuarem ainda mais e irremediavelmente o bipartidarismo que mais lhes convém. Os resultados de ontem voltam a demonstrar como um sistema eleitoral pode subverter completamente a representatividade que deve caracterizar qualquer democracia. É olhar para o resultado do partido nacionalista que defende a independência que os escoceses rejeitaram há tão pouco tempo em referendo: ontem conseguiu 56 em 59 mandatos, isto é, 95% dos lugares em disputa. Há um par de meses, num sufrágio com um círculo único, mais de 50% dos escoceses expressaram pelo voto a sua vontade de permanecer no Reino Unido. O sistema de círculos uninominais ontem pariu quase duas independências.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Gostei de ler: "Dentro ou fora do consenso?"


«Vítor Bento, já totalmente recuperado das últimas aventuras bancárias, declarou ontem ter recebido “com agrado a componente liberal que é trazida a esta discussão” pelo relatório do PS. Compreendo bem o seu agrado, já que nosso é o desagrado. Este bloco central no campo intelectual abre caminho ao político, como também defendeu Bento num debate no ISEG sobre o tal relatório. Confirmando que isto está tudo ligado, o sempre subestimado Cavaco Silva, que ainda sabe uma ou duas coisas sobre hegemonia, convidou esta semana Mário Centeno para os últimos roteiros do futuro.

Assim, o futuro parece ser mais uma década perdida para a maioria. Já serão duas: um sucesso este euro, não percam a esperança e, entretanto, tratem mas é de fazer força, enquanto as nossas elites gemem com ficções: será que a UE alguma vez poderá ser como os EUA? Sim, parece que também para amplos sectores da esquerda os EUA são o futuro normativo que justifica os presentes sacrifícios. Com o tal “consenso europeu”, a regressão também é ideológica.

Todos estes desenvolvimentos tornam ainda mais necessária a formação de um pólo político popular e nacional, o tal povo unido, mas, ao contrário do que aqui já defendi, não deverá substantivamente tratar-se de um terceiro pólo, mas antes de um segundo, ou seja, da construção de uma verdadeira alternativa soberanista e democrática ao tal consenso intelectual e político do bloco central. Ancorada em valores de esquerda, terá de ser capaz de atrair todos os que, na direita democrática ou subjectivamente fora da divisão esquerda/direita, acham que isto ainda pode e deve ser um país, recusando aventuras federalistas, outros tantos caminhos hayekianos, em nome da recuperação nacional de instrumentos de política, sem os quais só haverá esta impotência pós-democrática.

E por todos estou a pensar, só para dar um exemplo num campo intelectual atrofiado, em Pacheco Pereira, caso este tire as ilações políticas positivas do que tem vindo a escrever nestes dias que são realmente do lixo: “Pobre país o nosso, entregue a estas cabeças e a este desastre ambulante que é hoje a Europa. Esta é das previsões mais fáceis de fazer: vai haver surpresas e todas elas fora do ‘consenso europeu’. É que a história não é feita de modelos”. As franjas, sempre as franjas, reparem.» – João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas.