sábado, 24 de janeiro de 2015

Jornalismo de bordel


Ainda estou de boca aberta de pasmo e de enjoo. Foi tão deplorável como inenarrável a reportagem de José Rodrigues dos Santos de há pouco no telejornal da televisão pública sobre a Grécia (vídeos aqui e aqui). Entre outras pérolas, como o de serem os empréstimos europeus que estão a assegurar o pagamento de férias de uma semana em hotéis de 3 e 4 estrelas pelo magnífico Estado social grego, uma das negociatas entre as muitas opções políticas desse Governo maravilhoso que retirou o acesso a cuidados de Saúde a desempregados que ou encontram dinheiro para os pagar ou arriscam-se a morrer mas que nem por isso o "jornalista" deixa de apoiar incondicionalmente em cada aparição sem aquele decoro que a sua profissão lhe exigiria, José Rodrigues dos Santos comentou o salário  mínimo grego pré-existente antes da troika de 750 euros como uma reivindicação que nem em sonhos passa pela cabeça de portugueses conscientes de que tal número daria cabo da nossa economia. Tenho uma vaga ideia de que o salário mínimo luxemburguês, que é sensivelmente o triplo, e que o salário mínimo alemão, o dobro, não deram cabo das economias dos respectivos países. Tenho uma vaga ideia de ter lido algures que Obama aumentou a remuneração mínima horária como forma conseguida de relançar a economia americana. Tenho uma vaga ideia de haver uma correlação evidente entre a adopção do achatamento salarial como política oficial e o desastre económico que culminará na deflação que está prestes a afundar de vez a Europa. Se a profissão de José Rodrigues dos Santos é informar, como desinformou, que é o contrário de informar, haveria nesta reportagem, apenas mais uma de uma longa série do mesmo tipo, matéria mais do que suficiente para um despedimento por justa causa. E mesmo que a sua função seja essa, moldar as percepções do seu público àquelas que melhor servem a perpetuação do poder dos seus patrões do Governo e da Europa do directório, também não me parece nada correcto que seja com o dinheiro dessa Europa que nos empresta milhões a juros gordos, que tanta falta faz para pagar médicos e professores, que se sustente o salário de um artista que, apesar de ser um profissional  tão rasca, em apenas um mês ganha tanto como num ano 3 ou 4 compatriotas seus daqueles que, nem que sejam os mais competentes e eficientes no que fazem, se livram da condenação a empobrecer a trabalhar durante toda a vida enquanto mandarem aqueles a quem Rodrigues dos  Santos serve usurpando os deveres da sua profissão. O insulto com que hoje os brindou mereceria bem mais do que este reparo num blogue que quase ninguém lê.


(editado)

Da longa série "onde é que eu - já vi / ainda não - vi isto?"



«(...) Depois de ser despedida, sem meios para viver, Sophia voltou a ir viver para a casa dos pais, ambos com 85 anos e “felizmente, bem de saúde”. “Temos sorte porque eles têm a sua própria casa. Se não, não sei como seria.” Há muitas mulheres aqui com filhos e com netos, muitas famílias presas por uma fina corda do rendimento de um familiar; um ordenado de um filho, a reforma de um pai. (...) “O nosso caso é mesmo muito injusto”, diz Sophia. O ministério despediu-as para cumprir a quota de despedimentos no sector público e contratou, em vez delas, uma empresa privada. “Quem ganha com isto é a empresa privada, que cobra mais do que o ministério gastaria connosco e emprega imigrantes muito mais baratas, a um euro à hora ou algo do género.”» (artigo completo aqui)


«(...) Eleni Papaglorgiou, 23 anos, até tem sorte, diz com um encolher de ombros. Trabalha num esquema público, financiado pela União Europeia, para minorar o problema do desemprego jovem, um programa chamado "Vouchers". Vai ganhar 400 euros por mês, mas apenas receberá a quantia no final dos seis meses que dura o programa. Eleni explica como funciona: o candidato inscreve-se num centro que faz a ligação entre quem procura trabalho e quem procura empregados. O centro envia alguns candidatos para os potenciais empregadores para entrevistas e estes escolhem o que acham mais adequado. O beneficiário recebe uma formação no centro antes de ir trabalhar para o empregador correspondente.

Só nesta frase há três problemas. Um, o beneficiário. “Somos beneficiários, não trabalhadores”, explica. Não há direitos como têm os trabalhadores em geral, como baixa por doença, nem é pago seguro de saúde (na Grécia, normalmente é o empregador que paga o seguro de saúde do empregado). Dois, a formação. “É inútil”, sublinha. “No meu caso, sou professora, foi para isso que estudei, e fui colocada numa escola. Não preciso de estar a ouvir formação de coisas que não têm nada a ver, como gestão de crises.” Terceiro, onde se trabalha: “No meu caso, encontrei trabalho na minha área. Mas conheço professores que estão a trabalhar em farmácias ou como empregados de café.”

Eleni faz parte de um grupo chamado “V for Voucherades”. Querem chamar a atenção para alguns problemas deste programa. “O centro ganha mais pela formação que me dá, e da qual eu não preciso, do que o que eu ganho com o trabalho que faço”, diz Eleni. Se é preferível estar a trabalhar com o sistema de vouchers do que não trabalhar, os activistas da V for Voucherades dizem que cada vez mais os empregadores preferem beneficiários dos vouchers do que empregados, o que, a longo prazo, ainda vai piorar mais as perspectivas de emprego dos jovens.  

(...) O optimismo individual não se traduz em optimismo quanto à situação do país. Querem que ganhe o Syriza, mas, mesmo que o partido seja capaz de formar governo, mostram algum cepticismo. Por outro lado, é “o mal menor”. Os dois falam sobre isso num pequeno grupo no café. Stathis tem uma máxima. “As coisas não podem ficar piores.” Faz uma pausa, olha para os amigos. “Bom, já disse isto em 2009, em 2012… E ficaram sempre pior.” Toda a gente se ri. “Mas desta vez não me engano”, garante. Fica tudo calado. “Bom, espero mesmo não me enganar…” - Artigo completo aqui.

«(...) “Eu não sabia que a Grécia estava assim”, disse-me Omid. “Eu pensava: Grécia é Europa. Vai ser bom. Aqui não há vida para nós. Não é só pelo desemprego. As pessoas não gostam de nós…” A ascensão da extrema-direita era só o lado mais visível do medo pelo “outro”, pelo que vem de fora. Naqueles quatro andares, em 20 quartos, moravam mais de 70 pessoas, 30 das quais crianças, a maior parte afegãs, algumas palestinianas, curdas, sírias, somalis. Os inúmeros sapatos, de diferentes tamanhos, arrumados dois a dois, em frente a cada porta, sinalizavam muito aperto. (...)» (artigo completo aqui)

«(...) Aqui passam pessoas que não têm seguro de saúde ou segurança social - na Grécia há um sistema misto entre o serviço de saúde público e seguros privados (normalmente pagos pelo empregador), quem está desempregado deixa de ter serviço nacional de saúde após três meses (com um taxa de desemprego de 25% e de desemprego jovem de 50%, isso é um problema). Vêm para consultas ou para buscar medicamentos. Às vezes é possível que a policlínica ajude – há até um consultório de dentista. Há médicos especialistas que recebem algumas pessoas por indicação da policlínica nos seus consultórios. Mas demasiadas vezes não é possível fazer o que precisam. Cirurgias, não é possível. Exames de laboratório, também não. (...)» (artigo completo aqui)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Optimismo por encomenda


A hora do “especialista”. Acontece sempre que aquela Europa que nos tem a saque produz um número para prolongar o mais possível uma crise que vai fazendo milionários com a massa da pobreza que a sua austeridade selectiva vai generalizando. A hora do optimista. Não deixa de acontecer nem mesmo quando essa crise está prestes a ficar fora de controlo e o fantasma da deflação se agiganta para tomar conta de tudo. Ontem Mario Draghi anunciou que o BCE irá lançar-se numa compra trilionária de dívida pública e privada aos bancos e é vê-los, especialistas, optimistas, europeístas, yessologistas, sem saberem muito mais do que o muito pouco que foi avançado, a fazerem coro: “isto é muito positivo para Portugal, os bancos vão ter mais dinheiro para emprestar à economia, foi um grande passo para dar cabo da crise, é desta que isto arriba”.

Sem contraditório. Por isso não tiveram que explicar coisinhas óbvias. Por exemplo, e vou saltar o tema relações parasitárias  – a manutenção da intermediação remunerada do sector financeiro na concessão de liquidez aos Estados e o risco de nacionalização de mais dívida privada constam do anúncio de ontem, como é que o investimento irá aumentar apenas porque os bancos eventualmente emprestarão mais dinheiro a um juro menor: por mais baixa que seja a taxa de juro, qual será o empresário disposto a endividar-se – e ouvi dizer que os bancos não emprestam nestas condições – para produzir bens que quase garantidamente sabe não irá vender no país onde  andaram quatro anos a encolher os salários do privado em mais de 11%, os salários do público em mais de 22%, onde o desemprego e o subemprego dispararam para números estratosféricos, onde quase meio milhão de consumidores emigraram? O mesmo relativamente ao consumo: por mais baixo que seja o juro e mais abundante que seja o crédito, sabendo como as indemnizações por despedimento estão ao preço da uva mijona e como as empresas continuam a encerrar por não haver procura, qual será o maluco – e ouvi dizer que os bancos não emprestam dinheiro a malucos - que se irá endividar para comprar casa, automóvel ou o que quer que seja?

Pois é, o dinheiro vai continuar a não chegar à economia real. Há-de servir para alimentar a especulação na bolsa e no imobiliário, mas as bolhas especulativas rebentam mais cedo ou mais tarde, o que não é nada animador. Para além do mais, do pouco que se soube, transpirou qualquer coisa sobre a compra de dívidas em países como Portugal ficar dependente de mais “reformas estruturais” daquelas que põem os salários a encolher, o desemprego a aumentar e as pessoas a emigrar, logo, daquelas que tornam o investimento e o consumo completamente independentes da taxa de juro e da abundância de crédito. Os nossos especialistas sabem disto, mas também sabem que se o dissessem nunca mais seriam convidados para vomitarem aquele optimismo especializado em opinar por encomenda. Eles lá se vão safando.

A Bem da Nação


Hoje proponho-lhes um pequeno exercício. Na frase que se segue, substituir o adjectivo “português” por aquele que melhor corresponda. Como? É difícil? Bem sei. Aqui segue uma pequena dica: na imagem junta está o pin que os membros do actual Governo carregam na lapela para toda a parte como demonstração de todo o seu patriotismo.

“O Governo português quer estabilidade laboral na PT Portugal, mas não vai servir de mediador entre uma empresa privada francesa e os seus trabalhadores portugueses, disse ao PÚBLICO o ministro da Economia português, António Pires de Lima.”


Mais uma dica: António Pires de Lima reconhece, numa entrevista à Rádio Renascença, que todos os trabalhadores da TAP estão protegidos de um despedimento colectivo durante dois anos e meio e não apenas os afectos a nove sindicatos, como disse na quinta-feira passada quando foi anunciado o caderno de encargos. Tudo não passou de "um lapso, não foi intencional", assegura. "Eu próprio pedi ao senhor Primeiro-ministro na manhã de sexta-feira, tinham passado menos de 12 horas depois de eu ter feito esse lapso, para o corrigir.” (20 de Janeiro, há três dias)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Não se fazia


Mais uma corrida, mais uma viagem. Desta vez foi Narciso Miranda. Estava acusado de ter desviado 17 mil euros de uma associação mutualista. Aconteceu o mais difícil, o  Tribunal deu como provados alguns dos factos relativos ao crime de participação económica em negócio, mas o ex-autarca do PS acabou por ser absolvido porque aconteceu uma coisa ainda mais difícil: o Ministério Público (MP) não referiu no despacho de acusação ter a Associação de Socorros Mútuos de São Mamede de Infesta, a associação mutualista de onde o dinheiro foi surripiado,  a qualidade de instituição de utilidade pública,  qualidade essa que equipararia Narciso Miranda a funcionário público, equiparação essa que por sua vez seria necessária  para condená-lo porque, de acordo com o Código Penal,  apenas os funcionários públicos podem ser condenados pelo crime  pelo qual aquele cidadão impoluto respondia. Foi um "esquecimento" voluntário ou involuntário? Se foi voluntário, quanto dinheiro terá sido pago a quem se prontificou a esquecer-se tão bem? Haverá lugar a algum tipo de investigação criminal desta conduta? Ao menos ser-lhe-á aberto algum tipo de procedimento disciplinar? Será que o julgamento não poderia ser repetido com a acusação formulada como deveria? É o abres, é o repetes, é o fazes. Fica assim mesmo. Narciso foi mais uma vítima de uma Justiça que se especializou em importunar cidadãos honestos e benfeitores da sua comunidade. Ele, sim, é que tem razões de queixa. Roubaram-lhe o seu precioso tempo. Perturbaram a paz que necessita para fazer o bem sem olhar a quem. Não se fazia.

O pão nosso de cada dia

A"Casa dos segredos", uma escola de cidadania 





Um jovem de 17 amos que sofre de cancro há uma década perdeu recentemente a isenção total de pagamento de taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde (SNS) porque os 41 euros em juros do dinheiro angariado em campanhas de solidariedade para tratamentos no estrangeiro entraram no cálculo de rendimentos do seu agregado familiar e fizeram-no ultrapassar os 628,28 euros mensais, valor a partir do qual os cidadãos deixam de estar abrangidos pela isenção por insuficiência económica. Para voltar a ter direito a isenção em todos os serviços de saúde públicos, desta feita motivada pela incapacidade decorrente da doença de que padece, exigem-lhe agora que se apresente a uma junta médica e pague 50 euros pelo atestado de incapacidade respectivo, queixa-se a mãe, Glória Calisto, que foi para os jornais denunciar a história por se sentir “revoltada” com a situação. Mas "a situação" é mesmo esta. Os cidadãos aceitaram a fixação da linha dos 628,28 euros que faz a triagem entre necessitados isentos e desafogados não isentos e, cada um por si, tentam usar a criatividade para contornar a desconfiança gerada pela degradação do SNS resolvendo o seu caso particular e borrifando-se para os outros. Uma "campanha de solidariedade"conseguiria facilmente angariar os 50 euros requeridos e esta mãe deixaria de ter motivos de queixa porque o motivo da sua "revolta" não é o que todos pagam e sim o seu caso particular, mas até nem é preciso, basta  informar-se melhor. Inicialmente o Governo tentou cobrar os 50 euros que refere, mas rapidamente os revogou, tantos foram os protestos gerados pela intenção inicial. E este caso não existiria se, um por todos e todos por um, os portugueses tivessem feito o mesmo relativamente à linha dos 628,28 euros de rendimento mensal que separa os que pagam dos que estão isentos de taxas moderadoras. É o individualismo, ainda por cima um individualismo alienado e mal informado sobre os seus direitos e os seus deveres,  é a enorme falta de valores colectivos  que nos vai desagregando enquanto comunidade. Cada um por si, tornamo-nos vulneráveis e ficamos à mercê de toda a espécie de arbitrariedades que nos vão sendo sorteadas por aqueles que usam o poder para brincarem com as nossas vidas. O pão nosso de cada dia.

Gostei de ler: "Os accionistas do sector privado do Novo Banco?"


«“As roupas novas do imperador é um pequeno conto para crianças do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen em que dois tecelões prometem ao imperador um novo conjunto de roupas que é invisível mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-las. Quando o imperador desfila perante os seus súbditos nas suas roupas novas, uma criança grita: “O imperador vai nu!””, Fonte do resumo do conto: Wikipedia.

A Ministra das Finanças e o Primeiro-Ministro asseguraram aos portugueses nos últimos dias que o Novo Banco é privado e que cabe aos accionistas do Novo Banco decidir como votar na Assembleia Geral da PT SGPS. o Novo Banco é um dos maiores accionistas da PT SGPS. Ora o único accionista do Novo Banco é o Fundo de Resolução.

O Fundo de Resolução é formalmente constituído só por três pessoas que integram o seu conselho directivo, sem auferirem qualquer remuneração. Um desses membros foi nomeado pelo Ministro das Finanças, o segundo pelo Governador do Banco de Portugal e o terceiro por ambos. É a essas pessoas, sem escrutínio democrático nenhum, que cabe uma decisão sobre o futuro da PT, com elevada relevância económica para o país.[1]

Que poder se dá a esses técnicos! E temos de acreditar nas palavras da Senhora Ministra que o Governo não fala com esses técnicos nem lhes dá instruções?

Já argumentei em posts anteriores que um bom processo de tomada de decisão pública obriga a que decisões com maior valor económico sejam mais escrutinadas. Ora, no caso do Fundo de Resolução, as decisões em apreço (votação na Assembleia Geral da PT SGPS e a privatização do Novo Banco) parecem estar sujeitas a um escrutínio público inferior àquele que se observa num processo de despesa pública de uns “meros” 76.000€ (i.e., num concurso público).

Afigura-se que, com tais afirmações, a Ministra das Finanças e o Primeiro-Ministro estão a comportar-se como o imperador do conto de Hans Christian Andersen e a deixar que as suas crenças e convicções se sobreponham ao seu dever de defesa do interesse público. Precisamos, portanto, de muitas crianças inocentes que gritem que “o imperador vai nu”, revelando a verdade aos portugueses.
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[1] Tenha-se presente que esses membros do conselho directivo têm a responsabilidade de tomar outras decisões muito importantes sobre a privatização do Novo Banco e sobre a gestão do Novo Banco. Estão em causa 3,9 mil milhões de euros dos empréstimos públicos ao Fundo de Resolução, 3,5 mil milhões de euros de garantias públicas ao Novo Banco, bem como o próprio futuro do Novo Banco, com 75 mil milhões de euros de obrigações financeiras (passivos) sobretudo a residentes do país.» – Ricardo Cabral, no TME.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Terroristas de estimação


A Ministra das Finanças fala novamente em dispensar 12 mil funcionários públicos, o Estado tem 60 mil trabalhadores que foi recrutar aos centros de emprego para, sem direito a salário, desempenharem as funções dos 12 mil a dispensar, foi hoje publicada a lista com os nomes dos 150 educadores de infância, enfermeiros e técnicos de diagnóstico e de reinserção social que trabalhavam em organismos do Instituto de Segurança Social que foram colocados numa “requalificação” que será para o desemprego enquanto o Governo continuar a substituí-los por mão-de-obra gratuita. E o senhor Presidente da República e o senhor Primeiro-ministro falam-nos em terrorismo islâmico. De quem é que devemos ter medo?


Vagamente relacionado: “(…) O Tribunal de Justiça respondeu também a uma coisa que não lhe fora perguntada. Preparem-se, porque é o mundo da austeridade ao contrário: o BCE pode comprar dívida dos estados “se for preciso” — mas não pode participar na troika. A troika é provavelmente ilegal. O Tribunal de Justiça praticamente grita que lhe perguntem para poder dar essa resposta — mas os estados-membros não lhe perguntam, por medo ou por seguidismo. Desde o início da crise do euro que demasiadas respostas ficaram por dar porque nenhum governo quis fazer as perguntas certas. Não é demais lembrar que temos 28 governos vergados à austeridade no Conselho Europeu. E assim nunca ninguém se perguntou porque não podemos fazer uma conferência europeia de resolução de dívida, ou usar os fundos do Banco Europeu de Investimentos para um plano de recuperação e relançamento das economias do Sul, ou porque não podemos ter um Mecanismo Europeu de Estabilidade inteiramente comunitarizado.”


E nada a ver com: “(…) Mesmo se a emissão monetária fosse o dobro, a dívida pública portuguesa, segundo o critério de Maastricht, só se reduziria deste modo para 123%. Não é sustentável. Por outras palavras, o plano Draghi não substitui, não evita e nem pode adiar a reestruturação da dívida portuguesa (e da grega). A conclusão é que, para a Europa, a política monetária já não basta. O que é preciso é um programa de investimento e de emprego, com o Estado a por o dinheiro e a tomar as decisões sem demora. É preciso na Alemanha e é urgente nas periferias europeias. Mas, para Portugal, o único caminho para esse programa continua a ser a reestruturação da dívida, porque só assim é que o Estado consegue folga financeira. Não há nenhuma outra alternativa imediata para começar a resolver os problemas. Por isso, se ouvir festejos amanhã, desconfie: podem estar a fazer contas ao seu salário ou aos seus impostos, porque a austeridade vai continuar, mesmo com a promessa de Draghi e o seu meio bilião de euros. Um copo de champanhe não faz uma festa e a única certeza que resta é que o que tem que ser tem muita força.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Debaixo dos nossos narizes



A OIT fala em 61 milhões de empregos destruídos em 6 anos em todo o mundo, em melhorias recentes nos Estados Unidos e Japão mas não na Europa e em perspectivas de que o número de desempregados continue a crescer a bom ritmo até ao final da década. Quanto mais desempregados, maior o desespero. E quanto maior o desespero, tanto melhor para obrigar as pessoas a aceitarem trabalhar recebendo salários menores e com piores condições de trabalho. Nada que preocupe o directório europeu, antes pelo contrário. A austeridade que enriquece uma pequena minoria empobrecendo a restante maioria está a correr pelo melhor, como confirma outra organização, a Oxfam, que reporta como os 1% mais ricos conseguiram aumentar os já inacreditáveis 44% da riqueza mundial que detinham em 2009 para 48% em 2014 e como a manutenção das políticas que proporcionaram tal aumento da concentração da riqueza poderá fazer com que esses 1% sejam donos de metade de toda a riqueza produzida mundialmente já em 2016, para chegarem ao final da década ainda mais ricos, com 54,32% de um bolo que continua a encolher para os restantes 99%, sublinhe-se bem, em clima de harmonia e paz social. E lá nisto somos mesmo o melhor povo do mundo. É  verificar como fomos aceitando pacificamente que esta mesma austeridade aplicada por cá em doses crescentes por sucessivos Governos fosse dando cabo do nosso Serviço Nacional de Saúde, como não reagimos nem mesmo ao sabermos que o resultado da última década desta austeridade consentida produziu o inferno que por estes dias em apenas duas semanas já fez mais 1000 mortos do que seria suposto nos nossos hospitais  e como não se verá qualquer reacção à rentabilização destas 1000 mortes que se lê no despacho do secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde que abre a possibilidade de, em períodos de maior afluência , as urgências de hospitais privados poderem substituir as do SNS que se desmantelou para fortuna dos 1%. Talvez em 2020 já sejam donos do filão que lhes faltava explorar. Talvez em 2020 apenas aqueles que tenham capacidade económica tenham acesso a cuidados de Saúde. Para já, a grande maioria ficará muito satisfeita ao saber que vai ao privado, à rico, como nas revistas dos famosos. Quem tenha a sorte de adoecer, até pode ser que tenha a felicidade de privar por lá com algum. Nunca se sabe. Como diz o ditado, mais vale rico e saudável do que pobrezinho e doente.

Gostei de ler: "Meus queridos analfabetos"


«Sorrio sempre que alguém diz: "Não gosto de ler." Todo o homem é um leitor. Lê imagens, sinais, signos e palavras. Lê a linguagem das nuvens e sabe que vai chover. Lê a linguagem dos pássaros, a das cabras, a das águas, lê todas as linguagens da natureza. Lê as linguagens que se lêem com a vista, com o olfacto, com o sabor, com o ouvido, com a pele. Para sobreviver na selva ou na tundra, os nossos antepassados dos tempos pré-históricos tinham que ser muito bons leitores. A esta capacidade original de ler veio juntar-se a capacidade de nomear através da palavra. Esse foi um primeiríssimo acto mágico e maravilhoso, fundador da história da humanidade.

O próprio mundo na tradição judaico-cristã é criado pela palavra. Segundo o Génesis: "No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. Deus disse: 'Faça-se luz'. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e noite às trevas." O criador do Homem e do Mundo disse: "Faça-se luz". Isto é, a palavra gerou a coisa. Mais do que isso, a palavra e a coisa ficaram indissoluvelmente ligadas. A coisa contém a palavra. Melhor, contém o nome. E o nome convoca a coisa.

Aos olhos de cada ser humano, aquela extraordinária descoberta que era a palavra dita continha uma forma de poder sobre o objecto nomeado. Pelo menos cada palavra era uma forma de um homem se aproximar da verdade nuclear daquilo que era nomeado, da inteireza fragmentada entre céus e terra, água, fogo e ar. Nomear seria uma forma de aproximação ao próprio acto primeiro dos deuses na criação do mundo e das coisas. Esse era e é o poder dos analfabetos primários que são definidos desta forma pelo poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Henzensberger: o analfabeto clássico não sabe ler nem escrever, precisa da memória, e tem de exercer a capacidade de narrar.

Foram analfabetos que pegaram na palavra e inventaram a literatura nas suas formas elementares, o mito, o conto, a canção, as rimas infantis. E é com esses instrumentos que os analfabetos se relacionam consigo próprios, com os outros, com o mundo, com o correr do tempo.

Sem querer idealizá-los ou embarcar na ilusão do bom selvagem, há que lembrar que sem tradição oral não haveria poesia, não haveria livros. A escrita levou tempo a fazer a sua entrada em cena. No entanto, inventada a escrita, durante muito tempo foi considerado preguiçoso aquele que tivesse o hábito de recorrer ao livro, já que, segundo Platão, a sabedoria na sua dialéctica tinha de ser oral. O escrito debilitava o pensamento e destruía a memória. Ao contrário do orador, o texto escrito não era capaz de dar respostas nem se poderia defender quando questionado. A verdade é que a escrita foi uma tecnologia que levou tempo a desenvolver-se e a ser utilizada integral e proficuamente pelo pensamento filosófico e científico, e bastante mais tempo ainda a entrar no quotidiano como um instrumento generalizado de relação individual e, digamos, poética com o mundo, para além da sua função de relatar o real.

No seu excepcional romance Vinte anos e um dia, o escritor Jorge Semprún afirma de uma forma simultaneamente definitiva e carregada de ironia que: “As histórias completamente verídicas só interessam à polícia.” De facto, todos nós somos feitos do que vivemos, do que lemos, do que imaginamos e do que escrevemos. Como leitores, preservamos pedaços do pensamento, da emoção vivida ou escrita por outra pessoa para nos tornarmos nós próprios em participantes de um acto de criação, uma forma de diálogo que desenvolvemos connosco próprios, com o mundo e com o tempo. É a leitura e a escrita que nos permitem habitar o tempo para trás e para a frente, no sentido da memória, ou da esperança.

Vivemos um tempo dominado por uma economia que mata, como diz o Papa Francisco, uma economia que reduz o entendimento da complexidade do mundo, que vê a cultura como mercadoria e a ciência como estrito instrumento prático. Esta economia reduz a vida dos homens a uma coisa sórdida e limitada em que o desejo é estereotipado e a vida é uma prisão chamada tempo presente.

A figura que há tempo domina a cena social é a do “analfabeto secundário”. Pode ser um ministro, um gestor, uma empregada de caixa de supermercado. Sabe ler e escrever mas diz com frequência que não tem tempo para ler, tem coisas mais importantes para fazer. É activo, adaptável, tem boa capacidade para abrir caminho, safa-se na vida. Está muito bem informado sobre os importantíssimos assuntos do dia que amanhã esquecerão. Sabe ler as informações de uso dos objectos que compra. Sabe usar os cartões de crédito e sabe passar cheques. Vive dentro de um mundo que o afasta hermeticamente de tudo quanto possa inquietar a sua consciência. A atrofia da memória não o preocupa. Aprecia a sua própria capacidade para se concentrar em nada. Vê a cultura como espectáculo ou mercadoria. Não tem a menor ideia de que é um analfabeto, analfabeto secundário, mas analfabeto. A sua escrita está reduzida ao mínimo. O seu meio ideal é a televisão, as redes sociais, o SMS. Habita o território do lugar-comum e alimenta-se de doses fartas das “reflexões” de comentadores, políticos, económicos, desportivos e outros produtores do pensamento único.» - José Fanha, no Público.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Querida austeridade


Contas feitas pelo economista Eugénio Rosa, em termos nominais, entre 2011 e 2014, fruto de políticas de fomento do desemprego como a redução das indemnizações por despedimento, trabalho suplementar com desconto de 50% para as entidades patronais e flexibilização das relações laborais, o rendimento líquido médio dos trabalhadores do sector privado diminuiu 5,7%. Considerando o efeito da inflação, isto é, em termos reais, o poder de compra caiu relativamente a 2011 11,6%. Para os trabalhadores da função pública a redução foi ainda mais acentuada. A perda de poder de compra foi o dobro. Entre 2010 e 2014, como consequência do efeito conjugado do corte das remunerações nominais, do aumento enorme de impostos e dos descontos para a ADSE, o poder de compra dos trabalhadores do Estado reduziu-se em 22,1%. Em 2013, segundo dados do Eurostat, Em Portugal o rendimento médio mensal foi de 681 euros, 41% do salário médio alemão (1.632 euros), 61% do salário médio espanhol (mais de 1.100 euros) e sensivelmente igual ao salário médio grego (689 euros), onde a mesma austeridade que nos empobrece também comeu 30%desde 2010. Na Grécia, a alternativa a mais empobrecimento que o Syriza levará a votos no próximo Domingo segue à frente nas sondagens. Por cá, pelo contrário, os três partidos que assinaram o memorando do nosso empobrecimento colectivo cresceram nas intenções de voto dos portugueses do último mês e somam agora 69,5%. Querida austeridade.



E nada a ver com: No relatório Wealth: Having It All and Wanting More (Riqueza: Ter tudo e querer mais, numa tradução livre), elaborado por Deborah Hardoon, lê-se que os 1% mais ricos têm conseguido aumentar o seu peso na riqueza global de 44% em 2009 para 48% em 2014. As projecções apontam que, em 2016, os bilionários terão perto de 50% do bolo. E em 2020 poderão mesmo representar 54,32% da riqueza.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Lido por aí: o banquete e as migalhas


«(...)Esta semana, o Tribunal de Justiça Europeu veio desobstruir o caminho ao BCE, afirmando que o Banco Central tem toda a legitimidade para fazer programas de compra de dívida como o Outright Monetary Transactions (OMT) que foi lançado em 2012. O OMT acabou por nunca ser activado, mas só a sua mera existência (e as palavras de Mario Draghi de que tudo faria para defender o euro) funcionou como escudo para proteger a moeda única e aliviar os juros da região.

Mas o OMT tinha um pecado original: foi feito à medida da Espanha e da Itália. Predispunha-se a comprar dívida soberana apenas dos países que estivessem sujeitos a algum tipo de programa acordado com as instituições europeias e que tivessem um acesso garantido e regular aos mercados. Portugal e Grécia, na altura sem acesso aos mercados, estavam automaticamente proscritos.

O novo programa que será anunciado pelo BCE poderá padecer do mesmo problema se se confirmar que apenas comprará dívida com um rating acima de investment grade, o que deixará novamente de fora os países periféricos do euro. Quem defende esta opção argumenta que Portugal e Grécia acabarão por beneficiar indirectamente quando os juros dos países beneficiados pelo programa caírem para terreno negativo. Nesse cenário, os investidores voltariam a procurar dívida portuguesa e grega por terem rendibilidades positivas. Quem defende esta teoria está a dizer que os grandes países do euro farão um grande banquete à custa do BCE e pode ser que sobre alguma migalha para países como Portugal e Grécia.

Aliás, esta tentação de puxar pela Europa a duas velocidades e esta teoria das migalhas também se aplica claramente à flexibilização das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) que foi decidida esta semana e que só permite fechar os olhos à derrapagem do défice – pela via do investimento e do plano Juncker – se os países em causa estiverem fora dos procedimentos por défices excessivos. Os defensores desta flexibilização, feita à medida da Itália e da França, defendem que países como Portugal e Grécia, apesar de não poderem beneficiar no imediato, irão ganhar pela via das exportações. Quando a França e a Itália descolarem, vão comprar mais pastéis de nata a Portugal e queijo feta à Grécia. Migalhas, digo eu. (...» - Pedro Sousa Carvalho, no Público.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Fly TAP, fly TAX



Fala-se muito, e quanto mais tanto melhor, sobre o insulto que é a inscrição num caderno de encargos que ainda ninguém conhece de um prémio à obediência canina dos amarelos do costume e da indicação como primeiros a despedir dos filiados nos sindicatos que, porque o são, realmente fizeram frente ao Governo contra a privatização da TAP. A possibilidade é mais um legado da fúria reformista de Sócrates, mas não quero entrar por aí. O que motiva este que lêem é a minha surpresa por não haver quem reclame pela não inclusão no dito caderno de encargos de uma cláusula que proíba a TAP privatizada de fazer como todas as empresas alvo de privatizações anteriores, que mudaram a sua sede fiscal para paraísos fiscais como a Holanda ou o Luxemburgo. É que já basta ficar sem controlo público sobre empresas com inegável importância estratégica e proporcionar rendas a quem delas se apodera. Permitir que se excluam de contribuir para a sociedade que as enriquece é perder uma segunda vez. Permitir que despeçam pessoal que a seguir contratam a um salário e em condições contratuais piores é perder ainda uma terceira, uma quarta, uma quinta e por aí adiante: não há salários, não há descontos para a Segurança Social, nem há impostos, nem há consumo. Perdem as nossas reformas futuras, perdem os serviços públicos que ainda vamos tendo e perde o emprego assegurado pelas empresas que vão descobrindo as “poupanças” salariais umas das outras nos compartimentos vazios das caixas registadoras respectivas. Esta, quanto a mim, seria a abordagem que melhor nos mobilizaria enquanto comunidade. Quase ninguém a utiliza. E a deflação a bater-nos à porta.

Não há-de ser nada



A síndrome de Anton está associada a um tipo de cegueira provocada por uma lesão no cérebro originada, entre outros, por uma hemorragia ou um tumor em que os olhos não apresentam nenhuma anomalia. Porém, embora as pupilas continuem a reagir a estímulos luminosos, a cegueira produz-se porque o cérebro não consegue processar a informação que estes lhe transmitem. Entre os que sofrem deste tipo de cegueira, a síndrome de Anton é uma complicação que se produz em todos aqueles que, apesar de objectivamente não verem, desenvolvem uma negação desse facto que os leva a simularem o contrário, comportando-se como se estivessem a ver as roupas e os objectos que descrevem e tentando mover-se sem ajuda e, claro, tropeçando constantemente. Há um par de semanas, voltámos a tropeçar em mais um aumento da idade da reforma. Com toda a certeza que não será Anton, mas a forma como o tumor da mansidão produz um misto de cegueira e de loucura que vê no argumento do envelhecimento populacional explicação suficiente para aceitar pacificamente que se obriguem os mais velhos a trabalhar quando há tantos novos desesperados por uma oportunidade de vida tem tudo a ver com esta forma peculiar de fingir que se vê sem ver como nos estamos a deixar entalar. E hoje voltámos a tropeçar. Voltou a não ser o envelhecimento populacional que em 2007 foi aos cofres do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social sacar 109 milhões para os jogar em bolsa em acções da PT para perder quase tudo, hoje esses 109 milhões valem apenas 14 milhões, mas voltará a ser o envelhecimento populacional o culpado pelo próximo aumento da idade da reforma que o desaparecimento destes 95 milhões já encomendou. A síndrome da resignação está de tal forma generalizada que nem se torna necessário ver o inquérito que apuraria os responsáveis por mais este crime, ver os irresponsáveis que os substituíram proibidos de jogar dinheiros públicos no casino da bolsa ou ver como as privatizações têm resultado invariavelmente em perdas para a comunidade que deveríamos ser. A privatização da TAP até já vem a caminho. Não há-de ser nada. Olhos ou cérebro, não importa, ou défice de cidadania, ou défice de tudo, está-se mesmo a ver que desta vez não haverá tropeção algum. Ver e fingir que não. Uma espécie de Anton social revirado do avesso.







quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cheira bem, cheira a Lisboa


Diz que é uma espécie de socialismo. A partir de hoje, quem tenha carro de pobre deixa de poder circular no centro de Lisboa. Diz que é uma espécie de ecologia. A menos que seja por exemplo um táxi, e então já pode. A ideia não será, portanto, modernizar a frota de táxis da capital do nosso turismo, pelo menos para já, o que até faz um certo sentido. Bem vistas as coisas, observar uma cidade cheia de casas a cair de maduras da janela de um táxi a cair de maduro tem a sua coerência. Mas para já, para já, a mensagem é: “se queres circular em Lisboa, faz-te rico e compra um carro como deve ser, que nos transportes públicos também não te safas, para além de serem caríssimos, também podem poluir à vontade, estão excepcionados”. Não se zanguem. É pelo ambiente, e tudo o que é pelo ambiente é bom. Para além do mais, este resumo desta medida do Costa autarca é em tudo igual a este outro das soluções propostas pelo António Governante: “se Portugal quer resolver o problema da dívida, que cresça e se torne um país como deve ser”. Cá está ela outra vez, a coerência. O homem gosta de nos mandar enriquecer. Não tem nada de mal, pois não? Cheira bem, cheira a Lisboa. Uma capital sem pobres. É boa ideia. Caramba, eu não hei-de morrer sem ver o António governante a encerrar a A1 durante uma semana para fazer o upgrade do "piquenicão" do Belmiro pelo qual o Costa autarca costuma mandar encerrar a Avenida da Liberdade durante três dias. Diz que é para o bem da economia.

Gostei de ler: "O bombeiro pirómano e o arquitecto salvador"



«O Dr. Durão Barroso apareceu brevemente por Portugal para nos industriar sobre o seu sucesso, assunto que gosta de trazer à baila de quando em vez. Com ele, a Europa floriu ou, como diria Brecht, o chefe garantiu que as espigas de trigo cresceriam para cima. De fato, sem o pretérito presidente da Comissão é difícil imaginar o que seria deste continente à beira-mar plantado.
Incansável, ele fez tudo: salvou e construiu. “Não actuámos apenas como bombeiros mas, também, como arquitectos”, veio ele lembrar à audiência agradecida, creio que na Gulbenkian. Mas, modesto, reconheceu que ainda há muito que fazer: a Comissão e o Conselho ainda não têm todos os poderes de que precisam para fazer crescer o trigo como deve ser. Em todo o caso, com ele no leme, ficou garantido desde já que “não vamos voltar aos status quo de antes da crise”.
Não deixando os créditos por mãos alheias, autoparabenizou-se, como agora se diz, pelo muito que fez e deixou feito. Por exemplo, foi com ele que Bruxelas ficou com o poder, “nos mecanismos estruturais que dão mais poderes à comissão europeia, de vetar o Orçamento de um estado-membro antes deste ser apresentado ao Parlamento nacional”. Esclarecedor exemplo, a propósito da abençoada “transferência de soberania”, de como os de cima actuaram, não só como bombeiros, mas também como arquitectos. E como engenheiros, e como pedreiros, e como estrategas, e como fazedores, acrescentaria este seu admirador, Dr. Barroso.
Quando o dr. Barroso se elogia por ter adquirido o direito de veto de um Orçamento “antes deste ser apresentado ao Parlamento nacional”, não nos está só a dizer que o poder dos órgãos eleitos na elaboração e aprovação dos orçamentos se vai tornando uma ficção. Está a dizer-nos que já ninguém se importa com isso.» – Francisco Louçã, no Público.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Vejam lá se o reconhecem


Onda! Hoje toda a gente partilha caricaturas da edição especial desta Quarta-feira do Charlie Hebdo. E fazem muito bem. Olhar para os outros – sim, outros, essa moda do je suis Charli há-de passar – é quase sempre bom. Mas falta um grande quase. Quando olhamos para os outros e deixamos de olhar para nós próprios, estreitamos horizontes ao invés de alargá-los. E esquecemo-nos de quem somos, o que não é mesmo nada bom. Por tudo isto, e porque já há gente em número suficiente a partilhar o que toda a gente partilha, não me apetece ser mais um. Mas não prescindo de aqui partilhar uma caricatura. É da autoria do Rui Zink, chama-se “Manual do bom fascista (ou não)” e segue abaixo. Vejam lá se reconhecem o boneco. A seguir imaginem-no maravilhado ao descobrir que deixa de estar sozinho porque existe uma organização de outros bonecos iguais a ele que, para além de lhe fornecer os meios necessários para poder fazer “justiça” pelas próprias mãos, ainda lhe oferece o conforto de o fazer acreditar que tudo o que faça será ao serviço da “mãe Pátria” ou na qualidade de soldado de Deus. Creio que não necessitam de lhe pôr um turbante na cabeça para perceberem como o massacre do Charlie Hebdo tem servido para canalizar o medo e a intolerância que, distracção nossa, estes cromos continuam a não despertar.


Manual do bom fascista (ou não)

 1. O fascista nunca ofende. É sempre ofendido.

 2. O fascista coloca a honra acima de tudo. A dele.

 3. Excepção feita, por vezes, «ao meu Benfica».

4. O fascista tem sempre razão.

 5. O fascista tolera pretos, desde que saibam o seu lugar.

 6. E joguem bem.

 7. O fascista respeita as mulheres e só lhes bate quando estão a pedi-las.

 8. O fascista não gosta de ser chamado fascista. Acha que o retrato não lhe faz justiça.

 9. E a justiça é muito importante para o fascista. Ele não suporta injustiças.

 10. O fascista é sempre justo, mesmo quando reconhece que «exagerou um bocadinho».

11. O fascista não pensa. Ele é mais que a modos de que um homem de assão.

 12. O fascista é contra o acordo ortográfico. Pelo direito a continuar a escrever no verdadeiro portuguez de Tentúgal.

 13. O fascista não tem saudades de Salazar.

 14. Acha apenas é que Portugal precisava de um outro Salazar.

 15. Alguém que pusesse isto nos eixos. Ou no eixo.

 16. O fascista tem saudades de quando Portugal era Grande.

 17. Até porque «eles gostavam de nós».

18. E sabe que a descolonização foi muito mal feita.

 19. Agora vão lá para a terra deles.

 20. O fascista acha que os políticos são todos corruptos.

 21. E que isto só vai lá com uma grande mudança.

 22. E por ele ia tudo preso.

 23. E devíamos ter um governo a sério, que não se metesse em política.

 24. Como o nosso presidente, só que em mais firme.

 25. O fascista acha que temos de ser rigorosos.

 26. Indigna-o é que o «sô guarda» não tenha fechado os olhos.

 27. Afinal «foi só um instantinho».

28. E isto temos de ser uns para os outros.

 29. O fascista nunca leu um livro. Mas é contra o acordo ortográfico porque lhe disseram que é contra os brasileiros. E aí tudo bem.

 30. O fascista é nacionalista. Para ele Portugal é tudo. Excepto, talvez, o Sporting.

 31. O fascista agora já gosta do Pepe.

 32. O fascista acha que Portugal está a ser destruído. E por quem. (Pelos imigrantes.)

 33. O fascista sabe como se resolvia isto. «Era assim.»

34. O fascista não faz ameaças. Promete. «Um dia eu perco a cabeça e não respondo por mim.»

35. O fascista indigna-se que não lhe reconheçam o direito à diferença, como aos paneleiros e às gajas e aos [preencher ao gosto do freguês].

 36. O fascista é contra o direito à diferença.

 37. Mas escandaliza-se que não lhe reconheçam o direito à diferença.

 38. O fascista é contra a liberdade de expressão.

 39. Mas acha uma injustiça não o deixarem falar.

 40. O fascista é a favor da censura.

 41. Mas sente-se vítima da censura.

 42. O fascista se mandasse nisto ia tudo preso.

 43. O fascista não gosta de ser preso…

44. O fascista é contra a injustiça.

 45. Mas se ele mandasse ia tudo a eito.

 46. E fazia a folha a uns não sei quantos. Era uma limpeza.

 47. Muito gosta o fascista de usar a palavra «limpeza».

48. E, justiça lhe seja feita, nem sempre é para compensar.

 49. O fascista sabe avaliar qualquer situação em poucos segundos.

 50. E tem a solução para tudo.

 51. O fascista é assim a modos que uma espécie de Chuck Norris.

 52. Só que sem golpes de Karate amaricados e falando em bom português.

 53. O fascista é contra a democracia.

 54. Mas acha que «isto não é democracia».

55. O fascista acha que «as mulheres são todas umas putas».

56. Sobretudo as que não querem nada com ele.

 57. O fascista detesta que lhe chamem fascista.

 58. O fascista por vezes sabe que, ao negar que o é, está a ser manhoso.

 59. Outras vezes não sabe mesmo.

 60. Aí é preciso explicar-lhe, com muita paciência:

 61. «Ó Xico, tu achas que a culpa disto tudo é dos imigrantes, que deviam ir todos para a terra deles, que somos vítimas dum complô larilo-judaico, que os muçulmanos estão todos com 500 anos de atraso coitaditos, receias que percamos a nossa identidade milenar, achas que temos de andar todos armados, que a sociedade deve ser ‘viril’ e não ‘efeminada’, a palavra que mais usas é ‘detesto´… Então desculpa lá mas és fascista, homem!»

62. Ocasionalmente podemos acrescentar: «Ou isso ou um atraso de vida, filho....»

63. O fascista ao ouvir isso – ou ao ler estas linhas – enfurece-se. Mas como, se reagir sugere que ficou picado e enfiou a carapuça? É um dilema, até porque (ver alínea 34) ele não é menino de se ficar.

 64. Aqui, o fascista fica frustrado. E vocês não queiram ver o fascista frustrado. «És muita espertinho, vamos lá a ver se continuas assim depois de veres os dentes no chão.»

65. «Ou de levares um balázio.»

66. O fascista odeia o humor, porque odeia as coisas que não entende.

 67. É pela mesmíssima razão que o fascista odeia o mundo.

 68. Isso o fascista tem em comum com o humorista e o poeta.

 69. Diga-se de passagem. Também eles não entendem o mundo.

 70. Só que eles sabem que o amor é isso mesmo. Gostar do que não entendemos.

 71. E que o encontro é isso: tentar entender quem está do outro lado.

 72. E trazê-lo para o nosso lado.

 73. Ou não.

Reactivar o desespero (continuação)


Este podia ser a continuação do post anterior. A lógica é exactamente a mesma da que, ao garantir mão-de-obra quase gratuita a empresários sem escrúpulos, reduz a uma improbabilidade a esperança de conseguir um trabalho com salário e com direitos a todos os desempregados. O porta-voz do PSD, Marco António Costa, considerou hoje que o "processo de requalificação" em curso na Segurança Social se enquadra no "espírito reformista" do Governo e deve estender-se a todos os outros ministérios. Eles chamam "espírito reformista" a uma mentalidade negreira que põe 60 mil a trabalhar à borla nos serviços públicos através dos chamados "contratos inserção" e depois se sente à vontade para enviar pessoal para casa a receber primeiro 60 e depois 40 por cento do salário. Quando faltar gente para trabalhar, tal como acontece com os estágios profissionais no sector privado, será o desempregado que os organismos públicos em dificuldades financeiras irão recrutar ao centro de emprego mais próximo e não o "requalificado" a quem têm que pagar salário e contribuições para a CGA ou para a Segurança Social. Assim se vai enterrando um país num magnífico clima de paz social. Ninguém se chateia. Ninguém se atemoriza com a possibilidade de ser substituído por alguém que não recebe salário nem mesmo com as indemnizações por despedimento ao preço da uva mijona e com as "requalificações" à distância de um "click" no computador do dirigente do serviço respectivo. E o que está em causa são também as nossas reformas futuras. Não há salários, também não há descontos. A factura da nossa falta de solidariedade pagá-la-emos todos, não apenas alguns.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Reactivar o desespero


Poderíamos dar-lhe o benefício da dúvida, mas para ser uma medida de incentivo à criação de emprego o “Reactivar” teria forçosamente que incluir pelo menos uma cláusula que obrigasse o empregador a manter cada estagiário admitido por um período no mínimo igual à da duração do estágio. Como tal não acontece, o novo programa de estágios anunciado para ser lançado em breve pelo Governo mais não é do que um novo pacote de incentivos ao trabalho sem direitos que será pago com o dinheiro que falta para financiar serviços públicos como Saúde e Educação de qualidade e para garantir um mínimo de dignidade às vidas das largas centenas de milhar de portugueses excluídos de qualquer auxílio no desemprego ou na pobreza. Voltará a ser o nosso dinheiro a garantir a uma classe de empresários que vai enriquecendo com o valor criado por mão-de-obra descartável e quase gratuita um desconto de 65 a 95% a aplicar sobre uma “bolsa” que varia entre os 419,22 e os 692 euros brutos, de acordo com as qualificações de cada “estagiário”. Assim apenas se reactiva o desespero que esta austeridade tão selectiva vai fomentando para fortuna da minoria que vai favorecendo. Criando-se a possibilidade de contratar mão-de-obra com grandes descontos, que ainda por cima se vão renovando com o lançamento de mais e mais programas deste tipo, nos tempos mais próximos dificilmente haverá oportunidades de trabalho sem desconto para os mais de 1,3 milhões de desempregados e para os quase 300 mil que não conseguem melhor do que um trabalho a tempo parcial. Mas a taxa de desemprego há-de continuar a diminuir. (continuar a ler

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

E nós somos todos tontinhos


Que bem que falava a Ana Drago no Parlamento contra a austeridade e a delinquência dos tempos do socratismo. Que bem que escrevia o Daniel Oliveira no Expresso e no Arrastão contra  os atentados contra tudo o que era público, contra tudo o que eram direitos sociais e laborais  e contra a regressão social da austeridade dos tempos do socratismo. "Crime organizado" era expressão corrente no Arrastão. A Ana Drago era particularmente demolidora na forma como punha um Governo inteiro a abanar quando ia ao Parlamento. Aprendi a admirá-los, a eles e a outros como eles hoje nas mesmas "movimentações cidadãs", por como eram. Eram a voz daqueles que, como eu, não têm visibilidade para ter voz mas que nem por isso deixam de ter ideias e ideais, de revoltar-se com as canalhices. E agora decepcionam-me todos os dias. A última delas foi com esta "resolução política" que aprovaram ontem em Assembleia Geral extraordinária da Fórum Manifesto. No ponto 1 falam em "lógica punitiva, destruidora de direitos sociais e expectativas de futuro democrático que resultam da governação PSD/CDS". Já não resultam da governação PS, aliás como reforçam no ponto 5, onde referem que "para o tempo político que vivemos não basta, contudo, somar organizações – as consequências políticas e sociais de quatro anos de austeridade exigem uma mobilização e participação cidadã". E já não são 12  os anos de austeridade. No ponto 7 sabe-lhes bem porem-se à boleia da eventual vitória do Syriza na Grécia, mas em nenhum lado falam em renegociação da dívida ou em rasgar o Tratado Orçamental que nos condena à austeridade eterna. O resto também é conversa fiada. Aprenderam depressa a ser como os outros. E como os outros já temos tantos que até sobram por aí aos caídos. Gosto tanto de os ouvir falar.